janeiro 05, 2008

Um adeus ao deserto

1. O Lisboa-Dakar foi anulado. O mundo está perigoso, cada vez mais perigoso, e o festival de carripanas a atravessar o deserto já não pronunciará este ano aquelas desi­gnações fantásticas, como Marro­cos, Atlas, Mauritânia, Senegal. Num mundo sitiado pela indiferen­ça e pela monotonia dos destinos turísticos, o Lisboa-Dakar era uma espécie de intromissão do desconhecido e da paisagem que todas as noites entrava nas nossas televi­sões. Sinceramente, carripanas é o que há mais e o automobilismo não me comove - mas é a mim, cuide o leitor. Eu ficava fascinado, sim, com as paisagens, com o deserto, com o sol. Atravessei-o em jipe também, numa prova para amado­res, e fiquei fã. Fã das paisagens e dos pneus furados, da lentidão da marcha e das paragens a meio das dunas para contemplar o céu, o anoitecer, o rasto de estrelas no meio da escuridão, o ruído dos ani­mais desconhecidos. Mas o mun­do está perigoso, cada vez mais perigoso. Um passeio no deserto também já é um risco; um dia, esta­remos sitiados dentro de nossas casas, ameaçados na nossa rua. Não estranhem.

2. Carlos Paredes ficou na praia e re­gressou uns dias depois porque, provavelmente, as águas dos rios paraguaios são mais saborosas do que o banco de suplentes de Alvalade. Com Liedson, parece que afinal o brasileiro não conseguiu desmentir as declarações sobre "a ditadura" e o "quartel-general", e lá veio com aquele ar de semi-esfinge egípcia. Já Paulo Bento foi claro: "Ficava mais preocupado se houvesse anarquia. "À primeira vista, não precisa de se esforçar muito mais.

3. Sou contra estas "paragens de Inverno" no campeonato portu­guês. O argumento de que são uma pausa para dar descanso à rapazia­da não me convence; se é pelas "festas", mais vale aproveitar para ir ver jogos ao estádio; se é pelo frio, pensem na Finlândia. No ano pas­sado, a "paragem de Inverno" foi funesta para o F. C. Porto. Este ano, para reabrir o campeonato, Jesualdo disse que "no futebol nada se re­pete", querendo isto dizer que está preparado para o combate. O pro­blema é que a tragédia nunca se prevê; é sempre uma ameaça à es­pera de ser desmentida.

4. Durante a "paragem de Inverno", para felicidade dos adeptos de bom futebol, vimos jogos ingleses. A ver­dade é que uma disputa entre os dois últimos da Premiership inglesa é mais emocionante do que a larga maioria dos jogos da primeira meta­de do nosso campeonato. Não é vontade de dizer mal; o leitor avalie. É com esta manada de jogadores - relaxados, com férias de Inverno e físico enregelado, que entramos no novo ano. Às vezes não percebo como a Liga ainda não pensou em mudar a meteorologia por decreto.

Nota de Redacção do JN: Francisco José Viegas assina hoje a última crónica "Topo Norte". O "Jornal de Notícias" agradece a colaboração prestada desde de 2004.

in Topo Norte - Jornal de Notícias - 5 de Janeiro 2008

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dezembro 29, 2007

Revisão da matéria dada

1. Balanços soltos – é a época deles. Vanessa Fernandes, evidentemente, que esteve em todos os palcos. Nelson Évora. José Bosingwa e Ariza Makukula provaram que não é preciso acordo ortográfico para terem nomes destes, portuguesíssimos, na senda do que já demonstrara Obikwelo. É o ano da multiplicação dos nomes. Mas vejam-se estes, de seguida.

2. O de Cristiano Ronaldo, por exemplo. Ronaldo é génio puro, talento, brilho, inocência. No seu pior, desculpa-se em nome daquele sorriso de miúdo. Durante um ano, os “scolarinianos” odiaram-no, porque ele “não jogava para a equipa”, e o mestre (Scolari) chegou a afrontá-lo, dizendo que Nani é que era, Ronaldo não ia lá, era uma criança. É verdade: é uma criança cheia de talento. Odiado porque namorava com loiras exuberantes, porque queria a bola só para ele, porque “não jogava para a equipa” (o Manchester nunca se queixou), porque era preciso invejá-lo e baixar-lhe o nível de brilho – para se parecer mais com a merda do futebolinho luso. Na verdade, ele é o melhor. É uma figura do ano.

3. O do FC Porto, campeão nacional. Contra a “imprensa” desportiva e contra a opinião da larguíssima maioria dos portugueses, o que é saboroso. Se fosse por votos e televotos, o FC Porto seria afastado. Mas futebol é no relvado. Bola mesmo. “Vai buscar” – é a essência do futebol.

4. O de Quaresma, claro. Outro caso de génio puro, de talento, de sabor do risco. Valdano citava-o como capaz de fazer coisas estranhas, próximas do talento puro. Mas Quaresma é um solista notável e objecto de inveja, quando não de racismo, por ser cigano. Trivela é coisa dele.

5. O do Sporting. O Sporting joga, joga, joga – e dá sinais de uma fragilidade que é injusta para Paulo Bento e para três ou quatro talentos do seu balneário. Mas ainda há muito campeonato.

6. O de OPA. Berardo anunciou uma Opa sobre o Benfica. Não resultou mas alguém ganhou com a especulação. Depois, “alguns chineses” iriam fazer uma Opa sobre o Benfica. Não se fez, mas as acções melhoraram a vida de alguém. A CMVM estava onde? Ou ninguém quer o Benfica?

7. O de justiça. O guarda-redes do AC Milan simulou ter sido agredido e foi punido exemplarmente com vários jogos de suspensão por ter encenado aquela pequena tirada de teatro no jogo com o Celtic.

8. Os Lobos, fantásticos – perderam todos os jogos, mas que importa. No mundo do futebol mariquinhas onde todos se magoam e todos aterram no chão, os nossos heróis do “rugby” entraram no Mundial, olharam de frente os All Blacks, fizeram suar os escoceses e provaram era possível. A forma como a rapaziada cantava o hino nacional antes de cada jogo era uma espécie de reabilitação da pátria, medricas e faceira. Tão cedo não os esqueceremos.

in Topo Norte - Jornal de Notícias – 29 Dezembro 2007

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dezembro 22, 2007

Ir à Madeira para mostrar as mazelas

1. Depois da tentativa ciclística de Lisandro López aos 53 minutos do jogo de ontem con­tra o Nacional, e re­flectindo bem, tentei es­quecer o que viria a seguir. Não porque discuta as dioptrias de Jesualdo Ferreira ao avaliar o modo como redesenhou tarde o tabuleiro deste F. C. Porto, mas porque percebi o que viria a se­guir. O que veio foi o remate de Lipatin, e o 1 -O, no meio de al­guns insultos que enviei a Hélder Postiga. Porquê? Porque as câ­maras de televisão o mostraram. Postiga é um jogador peculiar. Em primeiro lugar, irrita-me. Em segundo lugar, desilude bastan­te. Basicamente, se marca um golo é porque marca um golo; se não marca é porque não conse­gue marcar. Como não tenho propósitos pe­dagógicos posso insultar à von­tade. Ontem foi Postiga. Mas também poderiam ser outros (os buracos de Lisandro, por exemplo), só que não o me­recem tanto. O facto de Quares­ma e Tarik não te­rem jogado não justifica que tenhamos de fa­zer esta pergunta fatal e cheia de más intenções: o que foi Postiga lá fazer? Nada. Moer-nos a paciência.

2. O Nacional fez um bom jogo útil. Ainda an­tes de terminar a partida, eu poderia escrever com à-vontade e tranquilida­de: fez um bom jogo. Imobilizou o campeão nacional, cresceu por duas ou três vezes em contra-ataque, explo­rou as debilidades do meio-campo do F. C. Porto, cresceu com hu­mildade ao longo da primeira parte. Fez bem. Fez o que lhe competia. Não quis ga­nhar por mais porque não pôde. Como não é depreciati­vo ganhar a repolhos co­xos e com pernas, o Nacional contentou-se com a vantagem mínima. Aliás, o festival de bolas falhadas por parte do F. C. Porto não me comove.

3. E agora, a maldade (só agora, notem bem): quando o F. C. Por­to perde desta maneira, notam-se muito bem as suas debilida­des. Porque quando perde, é por falta de brio que perde. Dá pena.

4. Ao fim de quase duas semanas em que não se falava de outra coisa, o Benfica não trouxe Delgado do México. Se fosse qualquer outro clube, coraria de vergonha depois de montar esta "operação mariachi". Como é o Benfica, a "imprensa" des­portiva remata ao lado, ciosa do seu mealheiro. Todos não se­remos demais para salvar o Benfica.

5. E, agora, Paulo Bento suspen­so. A pena não é despropositada, mas revela a pequena pasmacei­ra portuguesa, que permitiu que o processo se arrastasse durante três meses. Ao fim de três meses, a justiça desportiva veio recor­dar-nos o caso (o discurso era equilibrado, valha-nos isso); mas andou este tempo a fazer o quê?

in Topo Norte, Jornal de Notícias – 22 Dezembro 2007

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dezembro 15, 2007

Momentos de glória

1. Até me assustei com o dia seguinte. As primeiras páginas de “A Bola” e do “Record” falavam, em letras gordas, de Camacho e de Liedson, e suspeitei – ao longe, antes de me aproximar da banca de jornais – que não tivessem visto o grande jogo do dia anterior, pelo menos com equipas portuguesas. Tratava-se do FC Porto e, explicaram-me com bons modos, quem vende é o Benfica e, ocasionalmente, o Sporting. Portanto, o facto de o FC Porto ter passado à fase seguinte da Liga dos Campeões e se ter classificado em primeiro lugar no seu grupo, é uma notícia lateral na economia do jornalismo desportivo. Não é uma grande notícia, evidentemente, mas ficámos cientes.

2. Eficácia e bom rendimento global: o lema de Jesualdo não é luminoso, não pisa os trilhos da glória e do grande espectáculo – mas Jesualdo merece distinção e um aplauso. Os adeptos aplaudem, timidamente. Gostam dele mas não gostam. Agradecem mas não retribuem. Ficam contentes mas mantêm a angústia. Eles sabem que Jesualdo tem uma vantagem sobre Adriaanse, o outro mal amado – com os jogos de Adriaanse nunca se sabia se o FC Porto ganhava por três ou se perdia sem remissão. Adriaanse não sabia (foi ele que o disse) que era importante o FC Porto ganhar ao Benfica; Jesualdo sabe que, mesmo no limite da insensatez, ganhar ao Benfica será sempre uma vitamina para os dragões. É a lição do futebol: conservar inimigos históricos é meio caminho andado. Por isso, eficácia e bom rendimento global são bons prémios. O FC Porto começa a deixar uma legião de rendidos à sua volta, que agora mencionam “pura classe” e outros ditirambos do género. É como em tudo, o futebol: vai e volta.

3. José Mourinho escapou de ir treinar os ingleses reunidos. Talvez um dia, se adquirisse a nacionalidade, ele fosse feito cavaleiro pela rainha. Mas seria sempre o treinador de uma equipa chata que talvez tivesse momentos de glória. Viram a Inglaterra nos últimos, digamos, vinte, trinta anos? Prefiro o Athletic de Bilbau no penúltimo lugar do que aquela armada de gente desmobilizada, a marcar golos a conta-gotas. Nesses últimos vinte, trinta anos, a Inglaterra foi uma velha rezingona com futebol de deficiente categoria. Merece continuar assim.
Wenger, aquele francês que nunca ri, dizia que o futebol de selecção era o passado e que o futuro pertencia ao futebol de clubes. Não acho; mas Mourinho escapou desse futebol de salão do tempo da Rainha Victoria – e pode acontecer que seja contratado por um dos grandes clubes europeus. Seria um desperdício, se não acontecesse.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 15 Dezembro 2007

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dezembro 08, 2007

Elogio do Chaves e do Quaresma

1. O Desportivo de Chaves não é apenas uma boa equipa – é uma equipa de resistentes, o derradeiro reduto de Trás-os-Montes no futebol, a horda de heróis que atravessa o pobre futebol das províncias. Só uma equipa assim conseguiria fazer o que o Chaves fez ontem. Lembro-me de momentos heróicos do GD Chaves ao longo da sua história e tenho pena da sua descida, de escalão em escalão, e da apatia de muitos responsáveis que poderiam ter feito mais ou daqueles que desonraram um trabalho feito e notável, muito digno. Sou daqueles que assistiu ao momento crucial da sua biografia, quando subiu à I Divisão, quando foi às competições europeias. É uma pena que não tenha mantido a sua poeira de glória. Mas foi essa poeira que, ontem, obrigou o FC Porto a meter Lisandro. Espero que o António Borges, que recordo da minha adolescência flaviense, possa trazer de novo o GD Chaves para o escalão superior.

2. Jesualdo não iria inventar, ontem e no jogo com o Liverpool – mas inventou. É a tentação de todo o treinador. Há nos treinadores, mesmo nos mais conservadores, um brilho nos olhos mal sentem que estão em condições de mudar e surpreender. Geralmente corre mal. Porquê? Porque um treinador conservador não pode mudar muito. Mesmo que sinta a tentação. Geralmente, aliás, é a tentação do abismo.

3. Filipe Nunes Vicente escreve maravilhosamente sobre futebol no blog “Mar Salgado”. Melhor do que isso: ele, benfiquista, escreve superlativamente sobre o Benfica. É o seu melhor cronista, o seu melhor comentador. Assim viu ele o resumo do Benfica-FC Porto da semana passada: “O jogo de hoje concretizou a epistemologia benfiquista de sonho: o treinador é o Chalana, o adjunto é o Camacho, o Barbas é o Vilarinho e o motorista é o Vieira. Mai nada.” Aristotélico. Vão ler, que ganham muito – é uma escrita excelente que gosto, sempre, de homenagear.

4. Quaresma explicou o que era uma trivela no estádio da Luz, coadjuvado pelo público que o assobiava de cada vez que tocava na bola. Numa noite assim apeteceu dizer a única coisa que parecia certa: sessenta mil benfiquistas foram ver o FC Porto jogar. Só tiveram direito a 60 minutos, mas valeu a pena. Há um pouco de racismo nos assobios a Quaresma; ele agradece: sente-se aquela rebeldia irónica. Valdano escrevia sobre a arte de fazer coisas próximas do talento puro, situando Quaresma entre os grandes artistas. Mas Quaresma é solista de outra música. Conhece a magia do jogo.

5. Vieira e Veiga, Dupont e Dupond, Paulo e Virgínia, o Gato e o Rato, Cara e Coroa, Romeu e Julieta, Coca e Pepsi. Não sei qual deles. Ninguém sabe. Há gente que arrasta quezílias pela vida fora. Heróis e vilões. Escolham.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 8 Dezembro 2007

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dezembro 01, 2007

Um jogo em várias frentes

1. Não é “o clássico da época”. Os timoratos têm razão quando dizem, mesmo de pé atrás, que o primeiro lugar está garantido seja qual for o resultado do jogo. Mas a lição de Co Adriaanse, o do molho holandês, deve recordar-se; ele reconheceu, com aquela ingenuidade que merecia estalos, que “não sabia que era importante vencer o Benfica”. Mas Jesualdo, que é mais avisado, sabe que é importante não perder na Luz por dois motivos essenciais: porque é necessário (diante dos adeptos) compensar a dignidade ferida por um empate miserável na Amadora e pela derrota imbecil de Liverpool, e porque a vitória constitui (para a equipa) uma vitamina no caminho para o título.

2. Compreendo que Jesualdo está no fio da navalha. Castigar os jogadores depois de Liverpool não é bom remédio antes do confronto com o Benfica. Há um capital anímico que é necessário manter. Por isso, o jogo pode não ser uma final – mas deve ser vivido como uma final. Jesualdo Ferreira sabe porquê: mais de metade do campeonato é atribuída pela “imprensa do regime” e esta também precisa de ser castigada e posta no sítio. É, por isso, um jogo em várias frentes.

3. E, depois, outra etapa: tratar das contratações. Já se viu que falharam.

4. O Benfica jogou bem contra o Milan. Não, não vou dizer que “a bola não entrou”, como Camacho gosta de referir (ele ganhou pontos graças a essa frase), mas a verdade é que o Benfica mostrou fibra e capacidade de responder à velocidade de um jogo decisivo. São as duas características mais relevantes do Benfica. Cardozo e Maxi são feios de jogo mas são fortes no campo, se lhes apetecer.

5. Garra e fibra: o Braga contra o Bayern. A multinacional alemã não conseguiu, mesmo com o roubo descarado do árbitro, vencer em Braga (como querem os bonzos da UEFA, para garantir “brilho” na competição). E Manuel Machado soube ler o tabuleiro.

5. O tema mais desagradável da semana é, como de costume, Scolari. Eu defendo que o homem deve ser deixado em paz a preparar o Euro – mas na condição de ele nos deixar em paz com os seus arrebiques. A entrevista que concedeu ao “Estado de São Paulo” é, nas entrelinhas, mais numa desconsideração para com Portugal, falando de contratos, rescisões, mantendo sempre aceso o pequeno tique de “eles, os tugas”, como se estivesse a fazer-nos o favor de treinar a selecção portuguesa até ao Euro “mas depois vou-me embora”. Concedo que ele seja amado, glorificado, e que deve ser defendido. Mas não está em condições de reabrir feridas que mereciam sulfamida e mercurocromo. Assim, está a ser burro.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 1 Dezembro 2007

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novembro 24, 2007

O que Scolari devia ter dito, tchê!

1. Scolari tem razão num ponto: Portugal vai ao Euro, e isso é indesmentível. Cumpriu a sua função. Mas tem de responder às perguntas que os jornalistas lhe colocam – está no seu caderno de encargos. Por exemplo, se alguém lhe perguntasse se estava contente com o futebol praticado durante esta fase de apuramento, Scolari deveria ser aconselhado (ele vive muito de conselhos) a responder com bonomia brasileira em vez de usar a teimosia da serra gaúcha (Passo Fundo está cheio de exemplos). Podia dizer coisas simples que toda a gente compreende, com aquele canto da boca cheio de ironia: “É, olha, foi uma merda, mas olha, nós vamos ao Europeu e os ingleses ficam em casa. Foi uma merda, mas olha, isto não é o fim do mundo.” Toda a gente entenderia. Somos generosos compulsivos.

2. Scolari podia ter falado com a sensação do dever cumprido. Não. Preferiu falar com a ideia de que tem o rei na barriga, o que não é verdade. Daqui até Junho de 2008, de qualquer modo, vai irritar-se mais vezes.

3. Mas, tchê, até poderia falar como um gaúcho: “Foi a laço e espora, mas eles abriram cancha. Teve alturas em que os guris, esses potrilhos, se mostraram colhudos, aguentando o repuxo, porque esteve duro de pelear. Mas bah, capaz! Foi até tri-legal, se bem que tive de passar um arreio nos guapos, e alguns estiveram com o pé no estribo, mas a indiada merece. Futebol não é passar no pelego nem é pra quem usa água-de-cheiro. Às vezes tem que servir manotaço no sérvio, tem que cutucar juiz, tem que dar guasqueaço na hora. E é isso que os macanudos vão fazer lá na Áustria, vai ser barbaridade de campear pela Orópa, ganhando àqueles guascas. A gente se reserva pró fandango. Falar sobre o que passou é gastar pólvora em chimango, não adianta chorar as pitangas. Hoje o bagual está de aspa-torta, porque esteve meio enredado, mas na Copa vamos passar o relho neles que nem serrano enfrentando o minuano. Quanto a ti, jornalista, te fresquéia, gaudério, lasqueado, seu chinelão! Deu pra ti. Te liga, guaipeca!”
Oh, a gente entenderia.

4. Regressa o campeonato. Os próximos três jogos (Setúbal, Benfica e Guimarães) são decisivos para o FC Porto. A minha frase até ao fim é “ainda há muito futebol pela frente”, mas há vantagens que se adquirem e deslizes que comprometem. Os dois últimos empates foram um sinal no meio da aparente tranquilidade em que vivia o plantel; o do Estrela, então, foi mais do que isso: foi um aviso sério e, simultaneamente, um castigo à incompetência. Ganhar estes três jogos é conquistar metade do campeonato, basta fazer as contas. Mas ainda há muito futebol pela frente.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 24 Novembro 2007

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novembro 17, 2007

O regresso dos repolhos

1. Já vos falei do Estrela da Amadora-FC Porto? Creio que sim. Falo do Estrela-FC Porto desde há uma semana, e alguém me deve ter ouvido. A primeira sensação, mal o jogo terminou, foi a de vergonha. Não por mim, que não joguei – nem por Jesualdo Ferreira, que vi fora das quatro linhas. Mas por aquele grupo de repolhos que vagamente se movimentava em campo. Vergonha sem remissão aparente é isto: ser a equipa campeã nacional, estar a ganhar por 2-0 a cinco minutos do fim do jogo com o Estrela da Amadora, e acabar por garantir o empate. Ou seja, foi uma derrota. Como é que isto aconteceu? Da forma que todos vimos: por infantilidade. De quem é a culpa? Isso é outra questão.

2. Uma coisa é dizermos que a culpa é de Jesualdo Ferreira por ter permitido que aquele conjunto organizado de repolhos preguiçasse a partir do 2-0. Não estou a desvalorizar o Estrela da Amadora, que até poderia ter ganho o jogo (se empatou a dois golos, é porque esteve a um passo da vitória); simplesmente trata-se da equipa que é candidata ao título pelo terceiro ano consecutivo, num fim-de-semana decisivo antes de outra paragem desmobilizadora no futebol português. Jesualdo alertou a equipa para os perigos da preguiça, ou mandou que eles preguiçassem? E precisava?

3. Outra coisa é dizermos que a culpa é daqueles rapazes. Eles são maiores de idade, aparentemente responsáveis e quase adultos, com um lastro de futebol em ambos os pés. Então, porque aconteceu o que aconteceu? Porque estava previsto que isto acontecesse e porque é esse o jogo do FC Porto depois de marcar e de aproximar-se do fim do jogo com a vitória na trouxa.
Está na altura de mudar. Definitivamente, se me faço entender.

4. Depois do último jogo europeu do SC Braga escrevi aqui que tinha sido futebol de primeira, uma coreografia de elasticidade e de controlo dos corredores de ataque diante da baliza adversária. Contra o Sporting, em dois fragmentos da partida, o Braga marcou três vezes. Muita gente perguntou: onde estava este Sporting de Braga? Estava lá. Sempre esteve lá, mas desta vez saltou o muro.

5. Sem pôr em causa a gravidade da agressão ao jogador do Celtic, gostaria de deixar uma pergunta lateral sobre a pena de seis jogos de suspensão ao camaronês Binya, do Benfica: se se tratasse de um jogador branquinho, belga ou alemão, ou inglês, teria apanhado seis jogos?

6. Luiz Felipe Scolari faz um balanço positivo do seu afastamento do banco. Para o treinador da selecção, “o grupo uniu-se” depois do castigo aplicado pela UEFA. Sem querer correr o risco de fazer piada fácil, não me parece uma conclusão muito positiva para Scolari.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 17 Novembro 2007

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novembro 10, 2007

A bola que não entra

1. Cheguei ao Rio de Janeiro com chuva, vindo das montanhas de Minas Gerais, farto de literatura e com fome de futebol. Num debate sobre literatura, em Ouro Preto, contracenei com Tony Bellotto, autor de saborosos romances policiais com o detective Remo Bellini; além de escritor e cineasta, Tony é guitarrista da minha banda histórica do rock brasileiro, os Titãs – e marido de Malu Mader. No meio do debate servi-me de uma golpe baixo, totalmente sem “fair-play”: disse-lhe, baixinho, que o Flamengo tinha sofrido o terceiro golo do Cruzeiro. Sabem como se desmoraliza um companheiro ao nosso lado? Assim.

2. Portanto, o Rio. Uma coisa é a chuva, torrencial, forte, amena, tépida. Outra, diferente, é a chuva no Rio de Janeiro, que cai a pedir desculpa por cair, escondendo uma parte da cidade – a minha preferida parte da cidade, aquela campânula em redor da Lagoa. Mesmo assim, procurando uma televisão, cheguei a tempo de Tarik fintar a defesa do Marselha e marcar sem deixar dúvidas; às vezes acredito que o destino é mesmo assim e que um golo destes teria de esperar por mim. Esperou. No dia seguinte, ao mostrar o golo na ESPN-Brasil, um comentador dizia: “Aí vai ele, Sektoui tem intimidade com a bola.” É. Há golos que redimem um jogador e convocam os aplausos da multidão. Na semana seguinte, veremos.

3. E há jogadores que devem continuar a merecer aplauso: Lisandro marcou naquele cantinho, ensinando o caminho à bola, empurrando-a sem remorso.

4. Outro jogador que merece aplauso: Quaresma. Há quem ache que o miúdo merece reclusão; não concordo. Em campo, Quaresma é Quaresma. Dos seus pés saem bolas que parecem sabres sobre os exércitos adversários, mesmo que os míopes não vejam. Jesualdo faz bem em mantê-lo no onze.

5. Os dois golos de Liedson (e algum do trabalho do meio campo do Sporting) mereciam outro resultado final no confronto com a AS Roma; tenho simpatia pela manha de Liedson, aquela matreirice, coisa de malandro frágil e faceiro, como num samba. Ele é magrinho e saltitão, lembra-me às vezes o Zeca Pagodinho: um artista sem moral nenhuma. Mas a verdade é que alguns sambas de Zeca Pagodinho me deixam à beira das lágrimas, mesmo não sendo um sentimental. Se eu fosse sportinguista, também ficaria assim.

5. O Benfica foi derrotado pelo Celtic o que deu mais uma oportunidade para Camacho desenvolver a sua teoria sobre futebol. “Perdemos, mas podíamos ter ganho”, disse o espanhol. Voltou a doutrina sobre “a bola que não entra”. Cada mau resultado do Benfica deixa, assim, de ser um problema futebolístico para passar a ser uma questão metafísica. O Benfica teria ganho uma série de jogos se não fosse a bola, esse estorvo.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 10 Novembro 2007

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novembro 03, 2007

Ganhar sempre e ganhar quando se ganha

1. Por pouco eu era apanhado a cantar o “salve o tricolor paulista, amado clube brasileiro, tu és forte, tu és grande, dentre os grandes és o primeiro…” Cheguei ao Rio no dia em que o S. Paulo, o Tricolor do Morumbi, festejava o pentacampeonato (os clubes cariocas – Fluminense, Vasco, Botafogo e Flamengo – têm andado em todos os lugares da baixa escala). No Brasil, penta significa ganhar cinco vezes e não ganhar cinco vezes seguidas. Tem algum sentido. Por exemplo, o São Paulo ganhou os seus cinco campeonatos nos últimos trinta anos (em 1977, 1986, 1991, 2006 e 2007). Para um português, o tricolor é só bicampeão. Mas não se pode explicar isso nem a um paulistano nem a um brasileiro.

2. Esta questão não é inocente. Tem a ver com o “ganhar sempre” e com o “ganhar quando se ganha”. Quantos adeptos do Arsenal rasgaram a camisa do clube apesar de não serem campeões durante largos anos? Nos anos de crise, Nick Hornby, sem dúvida um dos melhores escritores ingleses, escreveu um livro memorável sobre o seu clube (“Fever Pitch”) e sobre as suas memórias de fã. Na Espanha, Javier Marías escreveu “Selvagens e Sentimentais”, crónicas de futebol merengue, quando o Real Madrid “nem sempre ganhava”. Vázquez Montalbán defendeu com a caneta o seu amado Barça apesar da hegemonia madridista da época. À sua maneira, cada um deles foi um pequeno fanático. Os seus pares de letras nunca se escandalizaram nem com a ousadia, nem com o exagero – uma coisa e outra andavam juntas. Luis Fernando Verissimo escreveu a sua biografia do Internacional de Porto Alegre, Ruy Castro a do Flamengo, Sérgio Augusto a do Botafogo e Eduardo Bueno a do imortal Grêmio. Não houve surpresa nem escândalo. Eram coisas tão bem escritas e tão fanáticas, tão pouco respeitadoras do “fair-play”, que só poderiam dar prazer ler – mesmo a adversários. Adversários? Que digo eu? Inimigos. Inimigos na trincheira da batalha.

3. São exemplos fatais. Mas haveria muitos mais. Stephen Jay Gould, cientista notável, biólogo e por exemplo, via na carreira dos Mets de NY um argumento contra o criacionismo religioso: se o Criador está ausente desde que o mundo é mundo, como explicar a vitória dos New York Mets no campeonato de 1969, quando a dez minutos do fim perdia por uma margem de oito pontos (George Burns, outro escritor, diz que foi o primeiro milagre incontestável desde que o mar Vermelho se abriu)?

4. No campeonato português há, pelo contrário, um grande ressentimento. O que é pena. Ganhar é ganhar sempre, o que traduz essa reserva mental que vem dos tempos em que havia um clube do regime.

5. Anteontem, em Belo Horizonte, Minas Gerais, o Atlético local jogava no Mineirão. O estádio estava cheio de gente em festa. Foi um grande jogo, com o estádio superlotado. O clube termina em 11º. É uma lição.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 3 Novembro 2007

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outubro 27, 2007

Os mariquinhas do fair-play

1. Gostei muito de ver jogar o Braga contra o Bolton e temo dizer que o resultado foi injusto. Toque de bola: foi bom ver aquele manuseio diante da área adversária, uma espécie de valsa redundante com dois disparos fatais, o de César Peixoto e o final, de Jailson, no meio de outros passos de dança. Os práticos dirão o evidente: que foi curto o resultado. É verdade, porque os próximos dois jogos são perigosos – mas eu ficaria triste se não o dissesse: gostei de ver jogar o Braga. Como a leveza dos golos (insuficientes) do Atlético de Madrid; repararam?

2. Escandalizaram-se os medricas do “fair-play” com a decisão do FC Porto, que anunciou que vai “deixar de colocar a bola fora para que os jogadores adversários sejam assistidos”. Raul Meireles disse o essencial: há quem se aproveite do “fair-play”. Há sempre um Dida metido na história, se bem que o FC Porto já registasse casos de malandrice – na altura, classificada como congénita, quando Paulinho Santos saiu de maca a piscar o olho a Rodolfo Moura. Já perdeu uma eliminatória, contra o Bayern, por ausência de “fair-play” dos alemães. Se bem que não existam equivalências morais, a decisão do FC Porto é arriscada no país dos medricas do “fair-play”.
Frequentemente (para quem vê jogos pela televisão ou escuta os relatos da rádio) há comentadores que falam de “faltas inteligentes” ou de faltas simuladas que são justificadas “pela muita experiência” do jogador que se atia para o chão mal pressente uma corrente de ar. A história das “faltas inteligentes” é irritante; as faltas e penaltis arrancados “com inteligência” deviam ser punidas com cartão vermelho. Sigam o exemplo do râguebi, onde não se fingem mariquices dessas.
Portanto, o FC Porto faz bem em anunciar que não há chances para burlões. Mas isso implica uma responsabilidade acrescida para o clube: a de não fingir as suas próprias “falsas faltas”. É uma responsabilidade, mas é um desafio lançado de alto e com sentido de oportunidade.

3. O FC Porto empatou com o Marselha num jogo que poderia ter ganho sem penalti. Mas bola na trave, já se sabe, é bola mal chutada. Não conta. Jesualdo Ferreira, no final, como um mestre – que é –, explicou por que razão “as coisas” tinham corrido assim. Ele tem razão, mas eu preferia que explicasse “as coisas” antes do jogo. É talvez uma tarefa difícil, mas é possível; basta ver como aconteceram “as coisas” em jogos anteriores. J. A. Camacho, no Benfica, fez uma coisa parecida quando disse que o Benfica não ganhava porque a bola não entrava. É, como escrevi na semana passada, o cúmulo da honestidade; mas eu preferia que Jesualdo tivesse o dom da antevisão – e os mandasse meter a bola na baliza. Com “fair-play”, se possível; ou à bruta, se necessário.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 27 Outubro 2007

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outubro 20, 2007

Camacho, Deco e as pessoas normais

1. José António Camacho deu uma entrevista enigmática ao "Mais Futebol" para tentar esclare­cer as massas sobre as intenções e as incógnitas do Benfica, ou seja, a sua participação na Champions e a conquista do campeonato. No fundo, Camacho é uma das principais vítimas do Benfica e merece que tenhamos alguma pena dele. Ou que tentemos com­preender a sua angústia: regres­sado ao Benfica depois de um pe­ríodo feliz (ganhou uma Taça, o que não foi mau para o clube), nunca se viu tão pouco entusias­mo e tão pouca fé. A prova é que ele não consegue explicar desai­res nem justificar empates senão com o argumento mais conve­niente a qualquer clube de bairro: "A bola não entrou." Há muito tempo que ninguém era tão ho­nesto no futebol português por­que, como se sabe, só se ganham jogos quando há golos, e só há golos quando a bola entra na bali­za dos adversários. Por isso, quando Luís Filipe Vieira apareceu a manifestar apoio a Camacho, este quase se indignou e esclare­ceu que não precisava de apoios de ninguém. Como o compreen­do. Não é ele a precisar de apoio: é a bola que precisa de solidarieda­de. Essa bola nefanda e orgulhosa que não entra na baliza. Aí está como tudo se explica, afinal. Apoiem a bola, e ela acabará por entrar.

2. Porque é que Camacho é vítima do Benfica? Porque, habituado a ser campeão em Julho e Agosto, antes de o campeonato começar, o Benfica estranha que a bola não cumpra logo a sua obrigação des­de a primeira jornada, confirmando o seu direito natural a obter o troféu sob os aplausos da pátria inteira. Isto, como qualquer "pessoa nor­mal", Camacho não entende. Ele julgava que era preciso trabalhar, formar uma equipa, jogar bem. Mas não. Parece que agora a estratégia é fazer filmes, queixar-se na Imprensa, pôr-se em bicos de pés, evocar as glórias e ocupar as pri­meiras páginas do "Record" e de "A Bola" (o que é facílimo); isso dá di­reito ao campeonato. Camacho não entende esta evidência. Em Portugal, parece um marciano.

3. Deco, afirmou anteontem que os jogadores de futebol tinham o direi­to de sair à noite e de se divertirem "como as pessoas normais". Que, como quaisquer funcionários de uma empresa, tinham o direito de andar pela noite desde que, às nove da manhã, estivessem no seu local de trabalho. Tenho muitas dúvidas. Quando uma equipa ganha os jo­gos, nenhum adepto no seu pleno juízo está disponível para protestar; ao primeiro empate, todos são tes­temunhas do desvario dos noitibós. Portanto, Deco tem razão no es­sencial e falha redondamente no essencial, ao mesmo tempo. Aliás, jogador com juízo não devia co­mentar o assunto. Eles não são "como as pessoas normais".

In Topo Norte – Jornal de Notícias – 20 Outubro 2007

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setembro 29, 2007

A semana do mau-carácter

1. A meio desta semana insul­tei os jogadores e o treinador do F. C. Porto no meu blogue "Origem das Espécies"; na altura chamei-lhes, passo a citar, "bando de avestruzes coxas", "uma equipa de bovinos esdrúxulos" ou "ban­do de repolhos". Acho que fiz bem. Milhares de adeptos portistas fizeram o mesmo e estão no seu pleno direito. O primeiro argumento contrário é o de que a Carlsberg Çup não tem importância nenhuma e, por­tanto, Jesualdo Ferreira teve mo­tivos para fazer alinhar aquele onze destinado à tragédia; se ga­nhasse, era uma pequena glória e, se perdesse, não era grave dado que o importante se pode reduzir ao campeonato e à Champions, competições para as quais haverá agora mais tem­po. Até admito, mas não concor­do. Perder com o C. D. Fátima não é irrelevante; a estratégia de "poupar a equipa". Jesualdo Fer­reira fala da vergonha que ele e o plantei sentiram: acho bem que a sintam, porque envergonharam os adeptos, sim. Não é coisa que se faça ao fim de 114 anos de his­tória, perder nos penáltis alinhando uma equipa desastrada. O próprio treinador assumiu: "Fo­mos incompetentes." Eles mere­cem o mau-carácter.

2. Dizem-me que insultar os jogado­res, chamando-lhes "bando de re­polhos" pode criar-lhes "um problema psicológico", porque eram joga­dores de estreia. Lamento muito, mas é irrelevante. Jesualdo Ferreira pode ser um bom mestre no tabu­leiro (de certeza que o é), mas tem de entusiasmar as hostes e fazer-lhes esquecer o que não tem remédio. Aliás, vem no contrato que as­sinou, de forma explícita e em letras garrafais: não se pode brincar em serviço. Ao fim de cinco jogos não é admis­sível nenhuma quebra psicológica. No ano passado, a célebre "para­gem de Inverno", uma idiotice cria­da para beneficiar o infractor, foi a principal quebra psicológica. Este ano, a rapaziada tem de com­preender que podem ser insulta­dos se cometerem actos de pura mariquice. Convenhamos: a derro­ta com o C. D. Fátima foi um acto de pura mariquice. Os adeptos desculpam, mas não esquecem tão cedo. A menos que esta sema­na entre tudo nos eixos.

3. Duarte Gomes pediu desculpa pelo erro que cometeu. Não foi bem um erro; tratou-se de uma bênção que pôs Camacho a rir, no banco do Benfica. O país inteiro ri manhoso, divertido, consolado. É o destino.

4. José Mourinho chegou a Portu­gal e interrompeu Santana Lopes, que estava na televisão a defender o adiamento das eleições internas no PSD, um puro dislate. O ex-primeiro-ministro ficou chocado e acabou logo ali a entrevista. Fez bem. Foi um acto de coragem muito bem calculado. Mas entre José Mourinho e as opiniões políticas de Pedro Santana Lopes, prefiro Mourinho.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 29 Setembro 2007

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setembro 22, 2007

Crime e castigo

1. Saber se o castigo a Scolari foi leve ou pesado é um debate inútil. Quatro jogos não me parecem um exagero. Em relação a Ivica Dragutinovic, foi pesado, porque o sérvio de­via ter levado outros quatro; em rela­ção aos miúdos punidos recentemen­te pela FPF, foi levíssimo. O presidente da FPF diz que não se compara o cas­tigo aplicado a Scolari e aquele que impede um miúdo de jogar durante um ano na selecção – porque este ra­paz está "em formação". No caso de Scolari, portanto, há misteriosas ate­nuantes que convém recordar: primeiro, eleja não está "em formação" e permitem-se-lhe falsos murros nos sérvios; depois, parece que agiu em defesa das cores nacionais. Foi uma péssima defesa: nunca vi um sopapo tão ridículo. De resto, há aqui um erro de perspec­tiva: actuar em defesa das cores na­cionais são por a selecção a jogar bem e a ganhar. Ora, mesmo acreditando no apuramento para o Europeu, quero saber quem nos paga o Xanax.

2. Scolari, relembro, não faz nada de novo. Limita-se a reeditar a sua estra­tégia enquanto treinador do Grémio: cotovelaço, joelhaço, gritaria, comer a relva e ganhar por um, mesmo no limi­te. Ele nunca saiu de Passo Fundo.

3. A história do futebol faz-se, tam­bém, de frases que não se esquecem. Por isso, Mourinho tinha razão quan­do previu este quadro: o Chelsea des­pede-o, ele fica milionário e vai treinar outro clube. "That’s business." É ele o único que não chora, porque ó o único vencedor. Em três anos mudou o futebol inglês; trouxe o Chelsea para a cena mundial; melhorou substancial­mente as páginas de desporto dos jornais ingleses, que agora lhe fazem justiça; transformou o modo de ver o futebol em Inglaterra; pôs o primeiro-ministro inglês a comentar a sua saída. Abramovich merece uma classifica­ção miserável.

4. OF. C. Porto podia ter obtido uma vitória histórica sobre o Liverpool e fi­cou-se pelo empate. O Benfica podia ter sido goleado pelo Milão e ficou-se por uma derrota (uma grande oportu­nidade perdida). O Sporting podia ter empatado com o Manchester e per­deu. O Braga estava confiante por jogar com o Hammerby e, afinal, trouxe uma derrota. O Paços de Ferreira po­dia ter conseguido um empate e per­deu em casa. O União de Leiria não percebi. Mas o Belenenses podia ter sido cilindrado pelo Bayern de Munique e pô-los em sentido. Foi uma se­mana de desilusões; tirando o Belenenses, todas negativas.

5. Clóvis Rossi, na "Folha de São Pau­lo" de quarta-feira passada, chamava a atenção para um facto significativo: há 102 jogadores brasileiros na Liga dos Campeões europeia. Façam as contas: dá para nove equipas.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 22 Setembro 2007

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setembro 15, 2007

Um homem de sorte

1. No meio do ruído que se gerou à volta do pequeno sopapo que Scolari queria dar a Dragutinovic e que foi uma espécie de “toca-e-foge”, há um silêncio estranho em torno do mais importante: o jogo contra a Sérvia. Foi um mau jogo, com arbitragem de Merk e futebol de merda (quase rima, como se vê). Scolari teria razões de queixa. Contra o fora-de-jogo que resultou no golo sérvio; contra Ricardo; contra Nuno Gomes; e, sobretudo, contra ele próprio, que repetiu quase todas as asneiras do jogo contra a Polónia, juntando ainda o facto de o jogo com a Sérvia ser quase decisivo. Ele é um homem de sorte.

2. Dragutinovic, que ia tirar satisfações de Quaresma, levou porque a vida correu mal a Scolari; infelizmente, quando a nossa vida corre mal ninguém nos fornece sérvios para lhes administrarmos sopapos. Scolari tem essa sorte. Já antes lhe tinham servido jogadores e jornalistas, que esmurrou com determinação. Às pessoas normais ninguém jogadores ou jornalistas para espancar. Ele é um homem de sorte.

4. Mas eu repito: o que me interessa é que a selecção jogou um futebol profundamente asno. E, nisso, Scolari está com azar. Porque o culpado é ele. Se ficar na selecção, espero que mude. Já mudou antes: depois de perder com a Grécia no Dragão, com aquele futebol de garagem, teve de mudar. Mas o futebol de garagem voltou entretanto e ninguém deu um sopapo a Scolari. É um homem de sorte.

4. Levantou-se uma onda de indignação contra Scolari e, nos fóruns das rádios, o povo – que o aclamara como herói – desatou a pedir a sua demissão urgente, “por causa dos símbolos nacionais”, do “espírito desportivo”, das “cores da bandeira” e do “fair play”. Já na semana passada, nesta coluna, eu previra que uma vasta multidão de ex-namoradinhos de Scolari iria aparecer a pedir-lhe a cabeça, o cargo e o resto de juízo. Lá apareceram. Aviso desde já: sou contra. Que queiram puni-lo por defender um futebol asno, já vêm atrasados. Mas que queiram castigá-lo por motivos destes, entregando-o a Javier Clemente (outro asno), à UEFA e aos patetas da ordem, não contem comigo; um seleccionador nacional existe para o podermos criticar permanentemente e para lhe encontrarmos defeitos e vícios insuportáveis; é nosso e faz-nos jeito. Entregá-lo por causa das “cores nacionais” e do “desgraçadinho do sérvio”? Não. Queremo-lo cá para lhe aplicarmos sarrafadas. Mas só nós. Seremos brandos, ficaremos por uns carolos no cocuruto. É um homem de sorte.

5. Scolari tem falhado jogo sobre jogo e a culpa é dele. Não acompanha os jogos dos clubes e a culpa é dele. É teimoso como um burro e a culpa é dele. Se querem despedi-lo por causa disto, falemos sobre o assunto.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 15 Setembro 2007

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setembro 01, 2007

Patriotas, cerrai fileiras

1. Trata-se, de novo, da his­tória do patriotismo lusitano. Acho bem que o tema ressurja e se discuta; e, para que não haja dúvidas, desta vez penso que Scolari tem razão. O treinador da nossa selecção de futebol evocou os casos de Nelson Évo­ra, ou de Obikwelu (mas poderia falar desse nome lusitaníssimo: José Bosingwa) como exemplos de cidadãos portugueses que representam o país em competi­ções desportivas – e ganham medalhas –, justamente quando se ouvem críticas sobre a con­vocação (aliás falhada, por le­são) de Pepe, um brasileiro na­turalizado português. Foi o mes­mo com Deco; a sua convoca­ção, na altura, foi seguida de um coro de patetices (sobretudo inexplicáveis as de Figo, sobre "cantar o hino" e outras suposi­ções patrióticas). O que está em causa, neste discussão, não tem a ver com futebol. Tema ver com o pior lado do patriotismo, que é o do preconceito. Por exemplo: eu, quando brinco com Scolari, não é por ele ser brasileiro. É, em segundo lugar, por ser de Passo Fundo, na serra gaúcha (a terra da bela mode­lo Letícia Birkheuer, vale a pena dizer), onde se come um "galeto" formidável; mas, em primeiro lu­gar, é por ser treinador da selec­ção. Sei lá se é brasileiro. Está ali, é para levar.

2. Por exemplo, no último F. C. Porto-Sporting, eu propus que os jogadores portistas que tives­sem passado pela selecção fos­sem obrigados (como os astro­nautas) a uma rápida quarentena para desinfestação e reparação. Não sei se repararam mas, de­pois de terem defrontado esse colosso do futebol chamado Ar­ménia e de terem conseguido um milagroso empate, os rapazes estavam frouxos. Pensem duas vezes antes de os deixarem ir.

3. A semana não está para polémicas, lamento. Depois do sorteio da Liga dos Cam­peões, as equipas portuguesas tiveram um choque de realidade. Até aqui, todos eram putativos campeões, mas nomes como Manchester, Liverpool, AS Ro­ma, Inter ou Celtic puseram em sentido as euforias provincianas. É, certamente, outro campeona­to – mas serve sobretudo para esfriar as pequenas arrogâncias de quem se julga "o melhor do mundo" e essas coisas, ou está habituado a gemer de vaidade sempre que se aproxima um jogo caseirinho. Agora é outra músi­ca.

4. A frase mais corajosa da se­mana é a do presidente do Belenenses, confrontado com o sor­teio que lhe forneceu o Bayern de Munique para a Taça UEFA: "Vamos jogar agora com o Bayern e vamos ver quem nos calha a seguir." Queriam o quê? É assim mesmo. Patriotas, cerrai fileiras.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 1 Setembro 2007

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agosto 25, 2007

Algumas coisas divertidas

1. Começou o campeonato, regressou o hooligan. Eu. Vai ser uma época fatal. O Benfica já é campeão e do Mondego para o norte as pri­sões estão a abarrotar.

2. Mas isto acontece depois de uma semana divertida que se traduziu no afastamento de um treinador benfiquista, mas mal amado, por um treinador madridista, mas bem amado. Fernan­do Santos, ou melhor, a cabeça de Fernando Santos, foi servida à multidão como o bode ex­piatório de todos os males do Benfica – num só dia, o clube trouxe Camacho, pôs milhares no campo de treinos, encheu de pontos de excla­mação as primeiras páginas de "A Bola" e do "Record" e fez esquecer que Santos não era o culpado daquilo que Nuno Gomes quis denun­ciar mas não denunciou. A SAD benfiquista, a mesma que anunciou que tinha oitenta milhões para gastar em dois ou três jogadores, foi a res­ponsável pela entrega de algumas das melhores peças – não foi Santos. Mas da fama nin­guém o livra. O Benfica (ou seja, L.F. Vieira) pode estar-lhe grato: a sua melancolia impede-o de protestar contra o clube do seu coração. Não tem de estar surpreendido. O pesadelo já passou.

3. Nuno Gomes falou depois do jogo contra o Leixões; percebeu-se o que ele queria dizer. Como se sabe, não sou propriamente um fã do futebol de Nuno; ele pode ser bom a marcar golos mas foi, seguramente, e só com estas de­clarações, um campeão de más oportunida­des. Chutou, mas o jogo já estava decidido.

4. Dois leitores perguntam-me: se às vezes escreve o que escreve sobre o Benfica, por que razão às vezes escreve sobre o Benfica? Só uma resposta: porque é divertido.

5. Outra coisa divertida é escrever o seguin­te: "A Arménia, esse colosso." Há quem pen­se que não se deve brincar com as desgra­ças da selecção nacional. Pelo contrário, eu acho que só se deve brincar. O leitor já tinha percebido, quando Scolari anunciou que o relvado de Erevan era tramado. Depois do relvado, outra desgraça: o jogo. Aqui vai um brinde aos pequenos flibusteiros que perse­guiam todo e qualquer cidadão que tivesse dúvidas sobre Scolari. Afinal de contas, ele não é a Nossa Senhora do Caravaggio. É um homem como os outros. Tivessem mencio­nado isso e tudo se compreenderia. Até eu lhe dava uma palmada nas costas.

6. Lendo a imprensa da semana, também é divertido ver como, nos jornais "da cor" (eles sabem que seis milhões de leitores aos sal­tos são melhor negócio do que seis milhões deprimidos - só eu e os psiquiatras gosta­mos de ver multidões em depressão), se desvalorizou a vitória do F. C. Porto em Bra­ga. Para a generalidade da rapaziada, foi Quaresma que ganhou o jogo, inteirinho, contra o Braga. Eles nunca cedem às evi­dências para que as evidências não prejudi­quem a sua felicidade. Mas numa coisa eles têm razão: o segundo golo de Quaresma não é deste mundo.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 25 Agosto 2007

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maio 26, 2007

O "jogo" da política do futebol

1. Para diminuir o alcance de mais um campeonato ganho pelo FC Porto, há sempre essa referência ao “um ponto de vantagem” sobre o segundo classificado. Estão mal habituados. Quando o FC Porto era apontado como campeão ao dobrar o Carnaval, essas vozes falavam então de “falta de competitividade” e, como Vale e Azevedo pensava na altura, era necessário “chamar alguém” para pôr cobro a isso. Por exemplo: o facto de o FC Porto ter ocupado o topo da tabela desde o princípio do campeonato, tremendo ou não, também seria um exemplo de “falta de competitividade”. É esse o jogo da “política do futebol”: acusado por ser campeão e acusado porque poderia não ter sido.

2. A moral dos ressentidos é caso para anedota, mas vale a pena falar brevemente do assunto. Por exemplo: teria a mão de Ronny, no Sporting-Belenenses, “roubado” o título ao Sporting? Para uma série de cavalheiros, sim, mesmo que lhes lembremos erros clamorosos de sinal contrário. Ao invés, o FC Porto foi várias vezes prejudicado por arbitragens que, involuntariamente (acredito), decidiram no limite; em casos de dúvida, o FC Porto era punido. É esse o jogo da “política do futebol”: seguir na onda, como se o campeonato se pudesse ganhar por televoto.

3. Amanhã, na Taça, defrontam-se duas das equipas cujo futebol foi convincente. Já aqui o escrevi e por isso posso repeti-lo: o Sporting não foi apenas convincente mas, também, consistente. Uma equipa jovem, animada e decidida. Vai ser um jogo bom de ver, sem campeões por antecipação.

4. O negócio do Benfica, mais uma vez, não é o futebol. São as acções na bolsa, festejadas como se tratasse de um acontecimento sem igual – e a “política”. Desta vez, a “política” reduz-se à participação na Taça da Liga e à chantagem feita em nome de dossiers abstractos e supostamente relacionados com o Apito Dourado. O que não se pode ganhar em campo, ganha-se no número de adeptos e nas secretarias. A partir de agora, sugiro aos leitores que coleccionem a quantidade de jogadores que o Benfica, de acordo com a imprensa amiguinha, “vai comprar” até Agosto e que compare com a lista dos jogadores que forem integrados na Luz quando começar o campeonato. É essa a grandeza dos clubes, poderem ser devorados por si mesmos.

5. Não sei se viram o AC Milan-Liverpool, mas não foi um grande jogo. Há quem diga que as finais destes torneios quase nunca dão bons jogos. Eu limito-me a ver o jogo. Não queria nenhum dos treinadores para a minha equipa. Mas, sobretudo, não queria Benítez. No Valência comportava-se como se estivesse a treinar o Ourense. No Liverpool, como se fosse técnico do Valência B.

in Topo Norte - Jornal de Notícias - 26 Maio 2007

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maio 19, 2007

É só um campeonato

1. Que há-de uma pessoa dizer nesta altura? Que o campeonato acabou. Amanhã, ao fim da tarde, o campeonato acabou. Há-de haver gente a festejar dentro e fora do estádio, seja ele qual for. Há-de haver culpas e agradecimentos, alegrias e fanfarronadas, facadas nas costas e abraços leais, o costume nestas ocasiões.
Um campeonato que acaba desta maneira – limitado a uma luta na última jornada – é um bom campeonato. Com luta até ao fim. Com nervos à flor da pele, com injustiças para reparar e com uma justiça final absoluta, a única que interessa: o resultado no interior das quatro linhas. Chegados aqui, terminaram as guerras na política do futebol, pelo menos por uma semana ou duas. Será tempo de gerir feridas e de moderar entusiasmos. É só um campeonato. A vida é mais importante que o futebol. Mas uma vitória amanhã é a única coisa que se espera. Que há-de uma pessoa dizer nesta altura?

2. Tenho um leitor especial. Envia-me os recortes desta crónica com sublinhados, riscos, rabiscos, acusações e insultos. Aceito tudo, é a vida de quem acha que o futebol é só um jogo que, fora das quatro linhas, só vale a pena jogar desta maneira: com sentido de humor, com rispidez que se sabe (à partida) ser amigável. Mas é um leitor que me persegue, de qualquer modo. Acusa-me de coisas indecorosas: de receber dinheiro de Pinto da Costa, de ser indigno de ter a minha nacionalidade, de merecer o degredo, do que quiserem.
Sempre vivi o futebol com riso e bonomia, apesar dos leitores que me perseguem, crónica e crónica, e não compreendem o essencial: que é só um campeonato, que a vida é mais importante que o futebol. Não vale um insulto. Agradeço ao leitor anónimo. Quando escrever, daqui em diante, pensarei se estou a insultá-lo como ele merece, se estou a irritá-lo como ele quer, se ele rabisca por cima da minha crónica e me envia os recortes, com uma bela caligrafia irritada. É destas audiências que às vezes precisamos, gente que não compreende que é só um campeonato, que a vida é mais importante que o futebol.

3. Por isso, não peço desculpa de nada. Futebol é futebol. Guerra é guerra. Aceito os golpes com a mesma dignidade com que ofendo, registo as ofensas com a mesma atenção com que as escolho e escrevo. Às vezes exagero, mas é só futebol. Respeito os leitores – não finjo uma imparcialidade que não tenho, não imito a opinião dos equidistantes. Não sou equidistante: amanhã gostava de festejar. Mas, para isso, é preciso que alguma coisa mude “naquele jogo tremido”. Desta vez não haverá assobios no estádio, nem vaias – haja o que houver.

4. Mas, sinceramente, depois de amanhã a gente faz contas.

in Topo Norte - Jornal de Notícias - 19 Maio 2007

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maio 12, 2007

O Conselho de Justiça e Quaresma

1. O Conselho de Justiça (CJ) da FPF que, ao longo dos anos, tem contribuído para o pandemónio do futebol português, acha que Quaresma «não demonstrou» ter prestado «relevantes serviços ao futebol nacional». Isto lê-se na página 17 de um acórdão que os senhores conselheiros exararam a propósito dos dois jogos de castigo aplicados a Ricardo Quaresma depois do jogo em Leiria. Ora, o CJ analisa leis, códigos, procedimentos; de matéria futebolística não entende nada, não deve supor nada, não deve emitir opinião, não deve pronunciar-se. Para todos os efeitos, o CJ da FPF é futebolisticamente inimputável. Nessa matéria escreve o seguinte: zero. Deve manter-se ignorante. Ao topar um desses senhores conselheiros saídos de uma das suas reuniões, poderemos exclamar, com a certeza de não nos enganarmos muito: “Ali vai um cidadão exemplar, jurista de algum acerto, que não percebe nada de futebol.” O CJ diz que (cito dos jornais) “não basta afirmar tais serviços, mas importa enumerar os títulos conquistados e exemplificar em que medida contribuíram para o prestígio do futebol nacional. E isto não foi demonstrado e não é de conhecimento oficioso”. Nessa matéria – prestar serviços ao futebol – o CJ quis aparecer acompanhado. E, abusivamente, tentou associar à sua irrelevância um dos melhores jogadores portugueses. Porque em matéria de títulos conquistados, o CJ está abaixo de zero. Nessa matéria, Quaresma já conta com alguns – o CJ limita-se a não perceber nada de bola.

2. Portanto, os senhores conselheiros deviam abster-se de falarem do que não conhecem: de futebol. O que está em causa não é o discutível juízo dos senhores conselheiros em matéria legal; é o tom qualitativo desse juízo, se interpretado à letra.

3. Nem de propósito, diz esta semana Jorge Valdano no diário “La Nación”, de Buenos Aires: “É preciso ser muito valente para, no interior de um futebol tão colectivo, ter um grande protagonismo individual. Fazer coisas raras, como o fazem Cristiano Ronaldo, Messi ou Quaresma. Tipos que têm uma enorme auto-estima, uma enorme liberdade para exercê-la. (…) Esses são os talentos superiores, contra os quais os técnicos não podem fazer nada.”

4. Contando com Quaresma e Bruno Alves, além do regresso do grande Pedro Emanuel, o FC Porto tem outra final no domingo. Salvo erro, nem vale a pena comentar.

5. A partir do “caso Simão” ficamos a saber – se isso vier a interessar-nos algum dia – que os boletins do departamento médico do Benfica não têm valor nenhum.

in Topo Norte – Jornal de Notícias – 12 Maio 2007

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