agosto 01, 2009

À beira do Índico, a última boleia

Recordo bem o aviso de uma amiga, dois ou três dias antes: «Cuidado com a malária, não bebas whisky com gelo.» É claro que eu bebi whisky com gelo durante toda a noite numa barraquinha do passeio mesmo diante do hotel. A brisa salgada, que vinha do rio, ajudou, o calor ajudou, a companhia dos que iam chegando também ajudou bastante.

Acordei, no dia seguinte, com a sensação de o mundo ter recomeçado diante daquela visão do Indico, azul e brilhante, vasto, cheio de barcos, de redes de pesca, de miúdos que se escapavam por entre as pedras do cais, brincando a meio da manhã. Quelimane, era só Quelimane. Ou seja, a Zambézia, o rio dos Bons Sinais, a praia da Zalala, a vontade de espreitar as montanhas mágicas em redor. E a cidade, Quelimane, uma espécie de paraíso para quem, com eu, vinha de atravessar a serra da Morrumbala, verde, desenhada sobre um fundo de cartolina, mas desaconselhável quando vêm as trovoadas. Essa imagem perseguiu-me durante semanas: o risco dos relâmpagos num céu negro, caindo sobre a terra, diante de um jipe desconjuntado. De modo que Quelimane me parecia um paraíso, mesmo depois de as chuvas terem derrubado muros, inundado as ruas, descolorido o mar, esse Índico azul e brilhante a que se chegava por estradas improváveis.

Enquanto saía e não saía da cidade (e eu teria de sair, para o Maputo), entretinha-me em pequenas coisas: vaguear pela zona do porto, ir aos restaurantes de peixe, sentar-me a escrever, reconstituir a passagem do tempo na cidade, imaginando como Vasco da Gama teria chegado até ali, entrando pelo rio acima. A temporada de Quelimane não foi voluntária; na verdade, não havia voos durante essa semana e eu ficara prisioneiro até que o recepcionista, no hotel, me aconselhou a ir para o aeroporto à espera de boleia. Europeu e cumpridor, a ideia pareceu-me tão absurda que segui o conselho na madrugada seguinte. No aeroporto, depois de ter feito saber que precisava de partir para o Maputo, disseram-me que o melhor era aguardar – um avião ia para o Norte daí a pouco. «Mas eu quero ir para o Sul.»

O homem, um velho goês de rosto sempre sorridente, nem respondeu. Encolheu os ombros e limitou-se a deixar-me para trás: «Em tempos de aperto, Sul e Norte são mais ou menos no mesmo sítio.»

Ao fim de uma hora apareceu o meu salvador – um homem fardado de branco (ele falava com um sotaque vagamente africânder) e que me oferecia boleia para Maputo, caso estivesse disposto a fazer uma paragem curta no Songo – ao pé de Cabora Bassa, desenhei mentalmente o mapa de Moçambique e situei Tete, as montanhas e as fronteiras com a Zâmbia, o Malawi e, em querendo, o Zimbabwe. Pareceu-me óptimo; no fundo, tratava-se de fazer uma viagem para o Sul mas avançando para o Norte. Não me arrependi. Ao fim de umas horas, estávamos no Songo – e ao cair do dia aproximávamo-nos de Maputo. Mas estaria bem se tivéssemos aterrado em Dar-es-Salaam, em Balantyre, nas Comores ou nos arredores de Antananarivo – o piloto, um filho de portugueses que só tinha estado uma vez em Portugal (possuía, claro, passaporte sul-africano) sobrevoou o mapa da savana com uma perícia que não vem nos livros, além de não ter achado despropositada a ideia de ter dado boleia a um desconhecido estacionado em Quelimane.

De certa maneira, foi uma das viagens da minha vida – um sobressalto que incendiou o meu mapa pessoal de África, onde eu não sabia que se podia pedir boleia de avião, nem viajar para Sul fazendo escala no Norte.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Agosto 2009

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junho 14, 2009

Humboldt redescobriu o mundo

Não sei se sabe mas são-lhe atribuídos nomes de plantas (entre elas, um carvalho sul-americano, belíssimo, e uma planta carnívora, a Utricularia), de animais (pinguins, imagine-se) de regiões terrestres (nomeadamente dois rios, uma cordilheira de montanhas, um parque no Ilinóis, um distrito do Iowa e outro da Califórnia) ou lunares (o Mare Humboldtianum), de acidentes estelares (um asteróide, o Alexandra, de 165 kilómetros de diâmetro) ou bem mais caseiros (como a que leva o seu nome mas é também chamada Corrente do Peru, e que se estende por uma grande área do Pacífico). Vi no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pela primeira vez, um gerânio que leva o seu nome.

De resto, Alexandre Von Humboldt (1769-1859) estudou um pouco de tudo, como era costume no seu tempo. Comecei pelo seu irmão, Wilhelm, linguista e grande universitário europeu, cujo trabalho continua actualíssimo. E só depois regressei a este homem que escreveu e investigou sobre matérias tão diversas como vulcanologia, botânica, astronomia, física, filosofia, mineralogia, oceanografia, etnologia ou geografia e cartografia puras. Interessam-me almas assim, perdidas entre conhecimentos tão diferentes, capazes de se apaixonarem por espectros tão largos do que é suposto ser «o conhecimento humano». Humboldt seria uma espécie de sábio cosmopolita, como George Steiner gostaria de o designar. Por mim, limito-me a imaginá-lo e convido o leitor a deslocar-se ligeiramente na curva do tempo até aos finais do século XVIII, digamos que sete anos antes do Grande Terramoto de Lisboa, em 1755 – a data do seu nascimento. Na época, o Grande Terramoto foi lido oficialmente, pelos padres da Igreja, como um castigo divino. Voltaire escreveu sobre o assunto, rindo (o riso filosófico que fez o mundo andar para a frente) mas o leitor que imagine Humboldt, aos quinze anos, por exemplo, com vontade de viajar. Esses conhecimentos fatais e multiplicados, estendidos da botânica à cartografia (e, inclusive, à filosofia – estamos no período das Luzes), não poderiam ser adquiridos na sua Berlim natal, nem apenas nas universidades que frequentou (a de Frankfurt, antecessora da Goethe, ou as de Göttingem, Hamburgo ou Jena). Em 1789 (que é o ano da Revolução Francesa; o ano da legalização, através da eleição de George Washington, da revolução e independência dos Estados Unidos; o ano da morte do grande sultão otomano Abd-ul-Hamid I), fez a sua primeira grande viagem pelo litoral da Europa (poisando aqui e ali, na Holanda) e subindo o Reno. Dez anos depois, em 1799, e que durará cinco anos cheios de emoções e de descobertas, levá-lo-á a atravessar o Atlântico e a iniciar (curiosamente: com um passaporte espanhol, obtido depois de muitos acidentes que adiaram sucessivamente a partida) uma espantosa exploração da América, desde o novo país que entretanto fascinara tantos europeus, até às cordilheiras do Sul. Sendo certo que nunca se aproximou (conforme o desejo inicial) dos gelos próximos do Pólo, a viagem foi suficientemente aventurosa para o ter levado a Cuba, à Grande Colômbia, às cordilheiras andinas e aos vulcões adormecidos do Peru e do México, antes de chegar aos Estados Unidos.

Um homem assim levanta suspeitas – de loucura, de devassidão e de espionagem, para mencionar apenas três. Por isso mesmo, os portugueses recusaram-lhe a entrada no Brasil (ele seria espião ao serviço da Prússia). Imagino a cena e compreendo-a: Humboldt foi avistado naquele território-de-ninguém, situado naquilo que hoje é a fronteira com a Venezuela, e que um século antes tinha sido explorado por ums das maiores figuras da colonização portuguesa da América, o militar e geógrafo Pedro Teixeira, glória do Amazonas e do Pará. Foi recambiado para o norte e mandado fazer as suas explorações geológicas e observações meteorológicas (como os antigos Incas e Aztecas, verdadeiramente) na América Central. O que Alexandre Von Humboldt compreendeu do mundo eu não sei – apenas imagino: um complexo fantástico de medições e conclusões extraordinárias e inovadoras, tanto para as ciências naturais como para o que seriam mais tarde as ciências sociais (a antropologia e a etnologia à cabeça). Foi isso que o levou depois, quando a sua fama atravessava toda a Europa, a viajar pela Ásia e pela Rússia. Digamos que isso acontece após a publicação – em francês, pois viveu mais de uma dezena de anos em Paris – de um livro maravilhoso, Viagem Interminável pela América do Sul. Foi na estepe e na tundra, nos gelos quase eternos e então cristalinos da Sibéria, nas montanhas dos Urais, que Humboldt continuou a sua vocação na meteorologia e na mineralogia, atravessando rios e temendo a morte. As suas obras, escritas sempre na Alemanha, são monumentais; o Exame Crítico da História e da Geografia do Novo Continente é um resumo de ciência e história da América; e Cosmos (cinco extensos volumes), uma aproximação a todos os conhecimentos geográficos e naturais do seu tempo. Criador e estudioso, aventureiro e aristocrata, Alexandre Von Humboldt é a prova mais evidente da necessidade de viajar. É uma das minhas invejas.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Junho 2009

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maio 02, 2009

Histórias de aeroporto (2)

Doze horas, creio. Ao fim de doze horas de avião já não me apetecia fumar. Passeei pelo aeroporto – um dos mais «funcionais» do mundo – e comprei jornais para me sentar diante de um pequeno-almoço tardio e de um computador que me desse notícias. Acabei por não fazer nada disso. A noite tinha sido comprida, viajando da Europa para a Ásia, sobrevoando picos de neve e planaltos desertos – tudo matéria invisível escondida pela noite. A primeira luz do dia mostrou um mar fundo e escuro, exactamente como eu lembrava que não era o Índico. Depois, as florestas, densas, escuras, extensas, cobertas de neblina. Litorais onde, do céu, a crista das ondas era apenas uma coroa branca que se desfazia sem definição. E os prédios, altíssimos, de Singapura – os seus canais, as pontes, o brilho metálico dos edifícios, o formigueiro.

O meu vizinho de viagem dormiu pouco, segundo me garantiu. Ele vinha sozinho de Amesterdão para a Indonésia como um predador em busca de diversão barata e de doenças sexualmente transmissíveis; eu adormeci depois do jantar vegetariano, que tomei acompanhado de um comprimido que me garantiu oito horas de sono, a cabeça deitada sobre um livro que havia de perder. E Singapura. Desfiz-me do vizinho, que partiu em busca do duty free, e sentei-me no saguão enorme, amplo e deserto do aeroporto. A zona de fumadores era um terraço de luxo, com vegetação tropical, uma piscina, dois restaurantes e espreguiçadeiras voltadas para uma das pistas onde os aviões se alinhavam e deslizavam para levantar. O meu próximo voo estava marcado para daí a seis horas. O terraço de fumadores era óptimo.

Ao fim de meia-hora, ela – uma mulher madura, bonita, na casa dos cinquenta – levantou-se e veio pedir-me lume. Sentou-se e suspirou. Vinha de Roma, ajeitou o cabelo, ia para Sydney. Eu imaginava o regresso à Austrália, sobrevoando o grande recife de coral, enfrentando a luz do sul maravilhoso – ela regressaria a South Wales depois de duas semanas em Itália. Primeiro, partiu para o funeral da mãe. Era uma cidadezinha a cem quilómetros de Roma. O irmão veio de carro, de Pádua, e o carro despistou-se, na mesma madrugada em que ela chegara a Roma. Morreu. O funeral da mãe e o funeral do irmão. Três dias depois, o pai cedeu a um coração fraco e cansado. Novo funeral, o terceiro. Regressava agora a Sydney e estava sentada ao lado de um desconhecido que também acabara a sua reserva de tabaco, e com quem bebia uma cerveja sob um céu que, de repente, deixara de ser azul e passara a cinza-escuro, pesado, anunciando tempestade sobre as florestas.

“Tenho de continuar a viver. Talvez um dia regresse a Itália, mas não sei”, disse ela antes de acenar e de ir procurar o seu voo. Vidas. Vidas de aeroporto. Eu ainda tinha quatro horas de espera, antes de partir para a Indonésia e poderia alterar o voo, preferindo Denpaasar a Jacarta. Fiquei ali até ele aparecer, sem lume para acender o charuto. Ficou a contar a sua história: um noruguês que casou com uma argentina e que vivia numa ilha daquele lado do mundo. Por isso esperava o avião para Kuala Lumpur; ele falava papiá (kristiang) um dialecto de ressonâncias portuguesas, porque os empregados do hotel que comprara a um inglês que morrera de cirrose eram velhos emigrantes de Malaca.

Daí a duas horas desci para o saguão do terminal do aeroporto. Não fora à cidade, numa daquelas viagens rápidas, de autocarro turístico; voltaria daí a menos de um mês e talvez o fizesse então. Foi ao apressar o passo que choquei com um homem alto e desajeitado, que procurava a saída para o terraço de fumadores. Olhei-o bem e reconheci-o. Tinha-o visto em muitos filmes, atravessando aeroportos da América Latina, desajeitado como ali. Nick Nolte olhou para mim e continuou a apanhar as revistas que lhe caíram da mochila.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Maio 2009

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abril 02, 2009

Histórias de aeroporto (1)

Eu tinha chegado à Guatemala e vira aquele céu coberto de nuvens tapando os vulcões – um véu de cinza e calor à mistura com o ruído dos aviões. A minha referência era o ruído dos aviões: a verdade é que não podia sair do aeroporto porque não tinha dinheiro, ou tinha pouco – e eram onze e meia da noite, o avião trouxera-me de Miami deslizando, primeiro, sobre sobre um mar de cartolina, alaranjado com a luz do crepúsculo, e depois sobre as florestas negras da Grande América. Naquelas circunstâncias, o melhor que há a fazer é vadiar por um aeroporto desinteressante e vazio onde os aviões chegavam a conta-gotas até às duas da manhã. Depois disso viria o silêncio, o fim dos gritinhos de boas-vindas junto do portão das chegadas, e até desapareceria o cheiro dos pastéis fritos – e eu teria essa dificuldade adicional, a de encontrar um lugar para dormir, se deixassem que eu dormisse no aeroporto.

Deixaram. Quando começaram a fechar as portas, às duas e meia, a polícia indicou-me uns bancos ao fundo do corredor das chegadas, onde dispus os dois sacos de viagem mais uma mochila – e me deitei para ler o El Periodico e o El Quetzalteco (dizia tão bem da sua cidade, Quetzaltenago, ou Xala, que jurei ir lá um dia) dois jornais que comprara para me acompanharem num jantar tardio e, valha a verdade, frugal e barato. Tinha quatro horas apenas para apanhar o voo seguinte e limitei-me a adormecer imaginando que não seria assaltado. Acordei com aquele cheiro: massa de milho frita, café, e até uma sopa de feijões, tudo o que um viajante decente precisa para acordar num aeroporto desconhecido.

Éramos oito no novo avião, um Cessna que atravessaria as cordilheiras até Puerto Barrios, uma pequena cidade que vigia a baía que partilha com o Belize, com os telhados coloridos de Punta Gorda, até me depositar em Belize City. Em Puerto Barrios saíram sete passageiros que se destinavam a San Pedro Sula, uma cidade maior onde se chegava de autocarro – eu, o único resistente (viajei depois sozinho para a antiga capital do Belize), e os dois tripulantes, abrigámo-nos sob a copa de umas árvores para escapar à luz do sol, que era branca, oferecendo cigarros uns aos outros (a uns metros da pista principal do pequeno aeroporto, note-se), conversando sobre o Real Madrid e aprendendo (eu) tudo sobre as cervejas da Guatemala.

Ao chegar a Belize City, o espectáculo era tão comovente como imaginara – casas de madeira que resistem aos ciclones e furacões, velhos garifuna (os imigrantes da Grande Jamaica, cerca de metade da população do país) passeando-se nas sombras do bairro do porto, e um aeroporto delicioso, com dois hangares isolados e desabrigados. Atravessando, solitário, a pista deserta do aeroporto (Graham Greene tinha razão quando dizia que não se passa no Belize – ninguém vai ao Belize a menos que se queira ir lá expressamente), um homem recebe-me e pergunta-se se eu sou «o embaixador». Digo-lhe que não e ele encolhe os ombros, desiludido, apontando-me o hangar mais distante. Sou o único passageiro que vem de Puerto Barrios e da Ciudad de Guatemala, e tenho direito às honras dos três funcionários que me carimbam o passaporte, me abrem os sacos e me perguntam que venhon eu fazer sozinho ao Belize. A falar verdade, não sei. Havia uma reportagem que eu queria fazer sobre os lugares onde ninguém vai, lugares que ficam afastados das rotas do glamour ou do turismo de multidões; mas não posso dizer-lhes isso. Explicar que tinha curiosidade em ver como era o café em que River Phoenix passava o tempo (o Lili Rose Cafe & Patio), longe do cinema e bebendo rum. Nenhuma das explicações era convincente. «Vim perdido», disse eu. «Ah, isso já se compreende», disse um dos funcionários, entregando-me o passaporte.

in Outro hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Abril 2009

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março 02, 2009

Elogio dos viajantes que nem sempre viajam

[Para Joan T.]

Viajar nem sempre é viajar; há viagens que arrancam o coração e há viagens que apenas mudam o horário do sono. Penalizo-me, desta vez, por tantas vezes ter desprezado a segunda das categorias – a classe de pessoas que circula no céu, desperta e ocupada, consultando laptops e blackberries, folheando dossiers e preenchendo espaços vazios da sua agenda com nomes de hotéis onde só pernoitarão, com nomes de pessoas com quem falarão uma só vez em encontros rápidos e superficiais em salas de que não recordarão nem a decoração, nem o cheiro, nem a luz que entra pela janela.

São os primeiros a sair dos aviões. Os primeiros a caminhar pelos corredores, ligando o telefone, olhando em frente como se o mundo lhes parecesse igual em qualquer latitude. Passo do desprezo à ternura, quando penso neles. Grande parte dos leitores da Volta ao Mundo há-de chamar-lhes «executivos» e pensará neles como viajantes que não viajam; que apenas passam de um aeroporto desconhecido para um aeroporto conhecido, de um hotel nos subúrbios para um hotel no centro das cidades – e cujo tempo livre é ocupado a dormir, se podem fazê-lo. Eu podia escrever sobre muitos deles, como personagens de um romance sobre o desperdício de viver e sobre a obrigação de cumprir um destino que às vezes – eu sei, ah, eu sei – lhes parece despedaçado ou quase inútil. Duzentas viagens de avião por ano a que correspondem pelo menos cem hotéis diferentes e trezentos nomes novos acumulados nas suas agendas. Um passeio furtivo nas ruas de uma cidade deserta. Compras apressadas com a lembrança de alguém. Insónias que despertam uma vigília inesperada e, muitas vezes, triste ou solitária. Um fuso horário seguido de outro, um nome que transportam, um risco desconhecido de luz no meio do céu e do crepúsculo que parece igual a todos os crepúsculos lá, no alto, ao lado do vazio das coisas. Um livro aberto, como se sabe – romances populares, poemas, guias de viagem. «Quem vê um, vê todos. Quem acompanha um, acompanha todos.» Que injustiça. Intervalos no ritmo de «executivo» em restaurantes que se recordam mais tarde. Eu podia escrever sobre muitos deles, captar-lhes aquele instante em que adormecem a meio de uma viagem, deixá-los reconhecer uma praça vazia (em Amesterdão, Bruxelas, Moscovo, Nova Iorque, Roma) em que nunca estiveram realmente – e sentir por eles a mesma ternura que se sente por um personagem de romance, por uma imagem abandonada. Recebem telefonemas a meio da noite, porque os fusos horários são estranhos. Ouvem a voz de um amor distante de que quase nunca estão realmente perto. Estão sempre em outro lugar, têm sempre uma mala preparada, um nome para repetir, um código de contacto com a vida que espera por eles noutra cidade.

Terão aventuras, desilusões? Escreverão diários íntimos, folhearão Margarita e o Mestre em Moscovo, à procura do Diabo? Lembrar-se-ão de Kafka nas ruas de Praga? Entrarão neste restaurante onde estiveram Dickens, Thackeray, Le Carré, Kingsley Amis, e recordarão a passagem do tempo? Imaginamos apenas que a sua roupa é igual à de milhares de outros solitários que procuram um táxi numa rua desconhecida. Outra injustiça. Não conhecemos os seus amores, as suas obsessões. Admiramo-nos muito quando descobrimos que são semelhantes às nossas. Quando se sentam à mesa e esperam por coisas que também esperamos: um pedaço de pão, a consolação ou a recompensa por uma viagem que não os leva como viajantes, que não os transforma como transforma a vida que passa por eles, lá, no céu ao lado do vazio. E sim, o mundo é muito pequeno, o mundo é muito grande, muito igual, muito desigual.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Março 2009

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fevereiro 02, 2009

O viajante enquanto espião

Todos nós queremos um lugar para viajar. Um lugar inclinado sobre nós e sobre a felicidade. Às vezes procuramos um lugar que nos complete, uma sombra, um muro cheio de sol, uma ventania, uma praça, uma rua onde encontramos uma parte de nós, uma casa onde viveríamos a nossa vida – se tivéssemos tempo, se tivéssemos oportunidade. Viajar tornou-se, não apenas uma espécie de apelo da humanidade civilizada e com um mínimo de meios económicos, mas também uma vitória sobre a eternidade; porque a viagem nos salva do que perdura e que não é tão bom como julgávamos.

Às vezes leio romances de John Le Carré para poder viajar. Por exemplo, O Peregrino Secreto. O leitor da Volta ao Mundo acompanha-me há vários anos e, por isso, posso ter esta intimidade de desabafo. Em O Peregrino Secreto George Smiley, o grande personagem de Le Carré regressa da sua reforma e vem jantar com futuros espiões em fase de aprendizagem e com velhos amigos, a quem fala sobre os mistérios e banalidades do ofício. Ned (que participa em vários livros) conta histórias ao longo do livro – ele recorda as viagens. Berlim (a Berlim da Guerra Fria que alimenta todas as histórias de espiões, naturalmente), Munique, Banguecoque, Telavive, Hamburgo, Canadá, Rússia, Beirute, todos os lugares onde andou a Gente de Smiley (título de um dos seus mais belos livros). Há um cemitério em Hamburgo, não posso esquecer esse cemitério que, a certa altura, aparece recortado numa das páginas do livro como o cenário em que um casal faz amor ao crepúsculo, perdidamente. No Oriente, algures no Oriente, entre o Vietname e o Laos, Ned e Hansen passam uma noite conversando sobre a selva. Há uma ilha escocesa onde uma mulher habita uma casa – é preciso atravessar um canal, tomar um ferry, suportar os bancos de nevoeiros.

Noutro livro, O Fiel Jardineiro (sim, se apenas viu o filme não viu nada – porque o livro é de uma grandeza assustadora) as paisagens sucedem-se, do Quénia a Itália, do Canadá à Suíça, repetindo apenas aquela melancolia do espião que veste a pele do viajante. Em certa medida, o viajante é um espião, um aventureiro que viaja disfarçado e sem a pele que o cobre durante um ano de trabalho ou mais. O verdadeiro viajante (procuramos sempre essa figura, não é?) troca de identidade e espera não ser reconhecido enquanto espera por um avião ou se perde numa estrada. Tal como nos livros de aventuras do nosso século passado – em que os heróis, na maior parte das vezes, são espiões –, o viajante é sempre outra pessoa, é sempre o outro: dorme nos hotéis evitando olhar-se nos espelhos, anota pormenores que noutras circunstâncias lhe pareceriam inúteis e irrelevantes; leva o seu caderno para escrever impressões que teria vergonha de redigir um mês antes; as suas fotografias procuram o mistério de um lugar – um lugar para viajar, um lugar inclinado sobre nós e sobre a felicidade –, as sombras de um mercado ao final da manhã (cheio de cores, de vozes), a passagem do tempo, a areia de uma praia, a poeira de uma estrada que não voltará a percorrer.

Pertencendo a um mundo em que cada minuto tem um preço e uma medida exacta, o viajante recupera a poesia, a inutilidade, os monumentos em ruínas, os papéis que hão-de ser arquivados fora da memória, as varandas dos hotéis, os instantes fugidios de prazer e de sexo e de clandestinidade. Ele é verdadeiramente um espião que vai e regressa para fazer um relatório acerca de um mundo suspeitado, amável, desejado. Nunca mais será o mesmo, ainda que se comporte da mesma maneira, ainda que não possa mudar – realmente – de personalidade. Mas mudou. Lá por dentro, onde as coisas importantes acontecem, ele mudou mesmo. Aprendeu a ser espião.

in Revista Volta ao Mundo - Fevereiro 2008

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janeiro 05, 2009

Sob a luz do passado

A mais genuína comida romana serve-se no Sor Margherita, um restaurante popular nas portas do gueto judeu de Roma. Pelo meio das suas mesas divididas entre os visitantes de ocasião e os clientes habituais que não precisam de consultar o cardápio manuscrito do restaurante, passam os sabores dos agnolotti recheados e cobertos de manjericão fresco, ou da pasta e fagioli, do baccalá in guazzzetto, ou de carcioffo alla giudia. Mas também dos seus vinhos temperados e frios, essenciais.

Convém reter o momento porque a comida é uma metáfora do prazer que Roma concede ao visitante: pratos saborosos, suculentos, evocando as arqueologias gastronómicas do Mediterrâneo (reunidas na trilogia composta de farinha, de azeite e de tomate) – e passeios belíssimos, a pé, atravessando pontes e bairros que dispõem do passado como de um luxo acessível, próximo e desmascarado. Ninguém visita Roma sem passar por estes restaurantes minúsculos, barulhentos, onde tudo é artesanal (das massas aos doces, sem falar da informalidade que lhe está na base). E, depois, caminhar: porque conhecer Roma, só a pé – para que a ligação entre o passado e o presente resulte quase perfeita, luminosa, indecente.

Roma é uma das cidades mais amigáveis de toda a Europa. O seu aparente caos ordena o traçado das ruas, o estacionamento «criativo», a invisibilidade da angústia do romano típico que tanto frequenta os mercadini da Piazza Navona como conhece e enumera os museus centenários e deslumbrantes, a céu aberto, disponíveis e abertos em permanência. Esse caos dissimula-se como uma pose verdadeiramente romana: faz parte da alma da cidade, informal e fácil. Tão fácil como aceder a todos os seus lugares – da Praça de São Pedro ao Coliseu, de Sant'Angelo às pizarias de bairro, onde falamos de futebol e descobrimos ingredientes maravilhosos na sua simplicidade.

É, também por isso, a cidade europeia que mais me comoveu – fácil, atraente, informal. Com aquele linguajar simples (chamar a uma rua Via delle Zoccolette, Rua das Putinhas, é de uma amabilidade a toda a prova) para designar coisas simples, Roma bem podia ser uma lição para os europeus de pacotilha & carteirinha, fabricados às dúzias em Bruxelas e carregados de regulamentos para tudo. Se a Europa fosse construída à imagem de Roma, seríamos mais felizes, menos tristes, mais ligados às coisas essenciais, mais tolerantes, mais discretos. Aquela suavísisima anarquia à beira das águas do Mediterrâneo manda-nos que sejamos também mais cultos – porque a cultura não tem nada a ver com a acumulação de conhecimento ou com a esquizofrenia da contemporaneidade. Tem, antes, a ver com uma certa elegância – a forma como nos cumprimentamos, como nos abraçamos, como nos ligamos aos lugares e às paisagens. Sob a luz do passado, essa Roma maravilhosa não tem shoppings nem ruas excessivamente largas: privilegia o «mais pequeno», para que nos sintamos absorvidos pelos seus becos, pelas suas ruínas, sob a luz do passado que protege e não exclui nem hostiliza.

Ser saudado, em Roma (com aquele bon giorno! que se distribui com generosidade), é já uma forma de lhe pertencer – àquela paisagem de fontes, ruas estreitas de «luz tépida» e filtrada por ramagens de vasos na altura dos telhados, por poeiras que nos acompanham de um bairro a outro, como se flutuássemos, livres e malandros, com aquela explosão de malícia que só Roma pode permitir. Ao caminhar pelas suas ruas sem passeios, pelas suas praças generosas, Roma bem merece outra visita.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Janeiro 2009

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dezembro 03, 2008

Em busca de um mundo só seu

Anthony Bourdain é um dos meus autores preferidos – e a preferência não é, propriamente dita, literária. Mas podia ser, uma vez que li com grande prazer Um Osso na Garganta, um romance policial passado nas cozinhas e copas de alguns restaurantes nova-iorquinos (do lado de lá do rio, bem vistas as coisas, já em Jersey, como acontece com Os Sopranos). Refiro-me, antes, aos seus dois excelentes livros sobre cozinha: Confidential Kitchen e A Cook's Tour, traduzidos como Cozinha Confidencial e Em Busca do Prato Perfeito. Um Cozinheiro em Viagem.

Bourdain não é o chef encartado que se delicia com espumas & cozinha molecular, uma espécie de moda recente, produto da tecnologia; pelo contrário, ele procura na cozinha a revelação de uma arte que reuniu os seres humanos em torno da ideia de sobrevivência, de prazer e de felicidade. Há um pouco de jogo, certamente (a cozinha de espumas & moléculas é essencialmente jogo e divertimento), mas o que Bourdain faz é cozinha tradicional sem medo da morte. Por isso, os seus ingredientes são ainda o azeite, a manteiga, o vinho, os caldos espessos e olorosos, a carne e o peixe, o bacalhau salgado ou o açúcar; e os resultados são os vegetais cozinhados (e não crus), as carnes de que nada se desperdiça, os fritos que nos reenviam à infância, os doces de caldas luminosas. Em A Cook's Tour, livro-delírio, Bourdain viaja através do México, da França, de Inglaterra, da Rússia, do Vietname, do Japão, de Portugal ou do País Basco para tentar encontrar um fio de ligação entre o nosso desejo de coisas suculentas e o que se pode obter de pacificação depois de um almoço ou de um jantar quase perfeitos. Encontra-o por diversas vezes – em Portugal, logo a abrir, uma vez que o seu sócio e patrão no restaurante nova-iorquino Les Halles é um português de Amarante, José Meirelles, que enche os corredores da copa com caras de bacalhau, tripas, presuntos, enchidos de Trás-os-Montes. Encontra-o no País Basco, em jantares com os chefs mais divertidos da Europa, bebendo dúzias de garrafas de vinho e cantando canções de que não conhece o significado ("Osasuna! Osasuna!"); ou no Japão, comendo em restaurantes soberbos nas montanhas ou em botecos mal iluminados dos portos, aguardando a chegada de o-toro, o atum dos atuns; ou no Vietname, no meio dos campos, em apartamentos clandestinos ou em ruas cheias de pequenas roulottes carregadas de ingredientes desconhecidos.

Num mundo superpovoado de monumentos silenciosos que a nossa vaidade de turistas procura como uma espécie de pórtico para o conhecimento do mundo, Bourdain mostra-nos a outra face desse conhecimento. Não, não julgue o leitor que se trata de um roteiro de restaurantes no mundo inteiro, geralmente caros e atrevidos – pelo contrário, são amostras da vida quotidiana pelo mundo fora. Esse catálogo de restaurantes e das suas ementas pode ser encontrado tanto em Nova Iorque como em Lisboa, no Porto ou, vá lá, no Algarve. Mas "o prato perfeito", como diz Bourdain, só pode ser o resultado de uma pesquisa em ruas tortuosas e bairros populares, tanto em Marraquexe como em Bilbau, tanto numa quinta de Amarante como num campo de arroz no Vietname (pessoalmente, não recomendo a experiência, mas o leitor que arrisque). A grande cozinha, tal como a cozinha de espumas & moléculas acaba por ser idêntica, com ligeiras variações regionais, em todo mundo. O que é desigual são as formas de nos mantermos longe das dietas e próximos da terra. Num boteco do Rio, numa velha varanda de Goa ou num terraço escondido em Buenos Aires – não só é mais barato, digamos, como é a verdadeira descoberta. Essa é a verdadeira cozinha confidencial.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Dezembro 2008

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novembro 02, 2008

As cidades da Europa

Os europeus procuraram sempre, ao longo dos séculos – e por mais divisões que tivessem estabelecido através de fronteiras ou guerras periódicas –, estabelecer uma espécie de denominador comum de si mesmos. Não se tratava de procurar um padrão médio para as mulheres ou os homens europeus, mas sim uma espécie de paisagem urbana que reunisse dentro dos seus muros a maior parte das características que fizeram a Europa ser como era. Antuérpia, por exemplo – é um modelo dessa Europa urbana, aberta às rotas marítimas, permeável à chegada e partida de negociantes e de intelectuais ou artistas, de exilados e de poderosos. O seu modelo era o enriquecimento. Financeiro, acima de tudo; mas também cultural, ou seja, uma espécie de rumor contínuo que habitou as suas ruas desde a Idade Média, recebendo e protegendo foragidos do Levante, judeus ibéricos, centro-europeus perseguidos, marinheiros sem destino, professores sem cátedra.

Ainda hoje, ao caminhar pelas suas ruas, Antuérpia revela esse empedrado histórico marcado por gente que foi recebida com desconfiança mas sem ódio, com leis e nunca pela arbitrariedade das prisões. Gracia Nasi, «a Senhora», a judia portuguesa que fez da sua vida uma história de fugas e de reencontros (de Lisboa até lá, de de lá para a velha Constantinopla, depois de Veneza e antes da Terra Prometida), foi uma delas. Pelos séculos fora, a melhor Europa foi um território de silêncio e de refúgio aberto às peregrinações e aos apátridas que encontraram aqui um lugar para viver.

A melhor forma de viajar pela Europa continua a ser, portanto, ao longo da paisagem. Ou seja, de carro e de comboio, acompanhando os declives e as mudanças, a profundidade dos vales e o desenho das montanhas – para, como qualquer geógrafo amador, perceber como as diferenças se esbatem suavemente na passagem de uma terra a outra. Mais: para entender como as cidades da Europa desenham um mapa de circulação de energia e de cultura, sempre em perpétua comunicação.

Temos, todos, uma ideia de Europa. Ou a laboriosa Europa do Norte, fundada sobre a ética do trabalho e da riqueza; ou a culta Europa Central (o velho sonho de uma Mittleuropa que albergou os grandes artistas e intelectuais – e os protegeu); ou a Europa do Sul que, melhor do que qualquer outro território, conservou as culturas do Levante, as torrentes migratórias e religiosas do Mediterrâneo; ou, ainda, a Europa do Leste, menos conhecida hoje por razões políticas, mas que lentamente se ergue como um prodígio que revela culturas atentas e milenares, cruzando o seu voo de águia sobre os territórios da Ásia. É isso que é a Europa: um lugar onde as diferenças se esbatem e onde as semelhanças se atenuam. Percorrendo a saborosa e velha Itália, as ruínas do Sul, as planícies de arquitectura suave do Norte, ouve-se uma música que nunca se deixou assimilar e que nunca cessou de fazer-se ouvir como uma tentação harmónica. No meio desse «esplendor do caos» (a expressão é de Eduardo Lourenço), a Europa é um espelho do mundo. Causaria triste impressão, por isso, se tentássemos limitar a Europa a qualquer uma das suas paisagens. A Sevilha europeia, em permanente cruzamento com o velho al'Andalus; a luminosa e mediterrânica Grécia onde se escutam os ecos vindos do Oriente, muito para lá do Bósforo; a verde Escandinávia onde os seus mitos acordam em nós o desejo de uma tranquilidade sem designação – isso é a Europa, essa possibilidade de ser diferente em harmonia. Viajando de carro ou de comboio, mais do que usando uma mesma moeda, vemos como se estabelecem canais de comunicação que as épocas de crise interrompem mas que, do fundo da História, regressa como um sinal de esplendor. E é isso que faz de nós, europeus, os piores e os melhores de nós mesmos.

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Novembro 2008

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outubro 12, 2008

O segredo do Mar

Não sei se conhecem Amyr Klink. A primeira vez que vi o seu rosto elegante, aquela sombra de nostalgia a pairar, foi num documentário exibido na televisão brasileira (incluído na série Documenta Brasil), um momento extraordinário de revelação – de Paraty, onde vive, à Antárctida ou ao Pólo Norte, Amyr Klink é mais do que um navegador que procura percorrer distâncias: ele leva-nos a imaginar o que esse percurso significa. Com o seu navio Paraty preso num banco antárctico, Klink esteve cerca de um ano naquelas regiões, aguardando o tempo certo de regressar a casa. Pensei muitas vezes nessa temporada no Inferno – até que a visão dos monstros gelados do Sul me pareceram sublimes, uma espécie de convite à reflexão, ao abandono, ao silêncio puro e absoluto, apenas cortado pelos ventos que sopram durante a noite ou às horas escuras do dia.

No entanto, embora essas viagens extremas sejam muito fascinantes e tenham cada vez mais apeciadores, a minha preferência vai para um pequeno livro, Cem Dias Entre Céu e Mar, onde relata a experiência magnífica que foi atravessar o Atlântico Sul num barco a remos, entre a Namíbia (Lüderitz) e o Brasil (Salvador, na Bahia). Nunca percebi o que leva um ser humano a atrever-se a esse tipo de aventuras, mas depreendo que haja muito mais do que a própria aventura em si mesma, muito mais do que a resposta a um desafio puramente físico – no limite do «desporto». O livro de Klink é de uma simplicidade comovente, limitando-se a narrar os episódios centrais da viagem e dos seus preparativos; mas ao lermos a descrição das noites do Atlântico, da chegada miraculosa (ou salvadora, pelo menos) às águas geladas de Santa Helena (a ilha onde Napoleão cumpriu o seu exílio, um pouco acima de Tristão da Cunha – o meu arquipélago de eleição), das conversas via rádio com comandantes de navios que enfrentam a solidão dos mares, ou dos encontros com uma baleia certamente descendente de Moby Dick, somos levados para uma dimensão mais profunda, tão escura como a absoluta escuridão daa águas, tão densa como as neblinas que atravessam ou separam continentes. Mas, sobretudo, tão surpreendente como as narrações dos viajantes antigos, de quando não havia sistemas de comunicação de satélites.

Calhou, depois de ter lido Cem Dias Entre Mar e Céu, lembrar-me do meu próprio percurso pelo litoral brasileiro – afinal, eu tinha vivido cerca de dois anos a um passo da Praia da Espera, onde, em Setembro de 1984, Amyr Klink regressou dessa sua viagem que o trouxe da Namíbia aos trópicos da América. É uma praia relativamente tranquila, de águas azuis, em Camaçari – onde Klink dividiu duas sardinhas com um pescador que não sabia onde era essa «praia» chamada «África» (de onde tinha regressado o seu inesperado conviva).

Ainda hoje, passado muito tempo da leitura dos livros de Amyr Klink, recordo as imagens de territórios que ele atravessou, para lá de Ushuaia e do Canal Beagle, para lá do Cabo Hornos, esse promontório quase flutuante onde se marca o abraço do Atlântico e do Pacífico diante do negrume da Antárctida, ao largo e à vista.

Aventureiros como Klink eram, nos anos oitenta e noventa, os últimos viajantes solitários do nosso tempo – eles conheceram os limites, partilharam os seus medos com o silêncio dos mares, encontraram o seu destino entre o destino das coisas, e compreenderam que viajar significava, sempre, conhecer. Conhecer um aroma, uma impressão ligeira, uma luz, um ruído. Aprendi com as suas viagens (e com as narrativas de Jack London, ou Melville, ou Coloane) que o segredo do mar não é o seu retrato como uma sombra de cartolina. É, antes, o demónio da aventura que nunca nos larga.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Outubro 2008

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outubro 11, 2008

Recordações do Oriente

Deixo para trás Timor, o avião sobrevoa o mar, que é azul, brilhante, tranquilo e plácido com o seu brilho de prata. Se os mares do Sul existem, é aqui – a duas horas de voo sobre o Grande Recife de Coral. Luís Cardoso, escritor timorense (recomendo vivamente o seu romance mais recente, Requiem para o Navegador Solitário) diz que o Grande Recife é uma das provas da existência de Deus – com aquela grandeza ultramarina. Imagino-o a esta distância, porque, visto do céu, sempre me pareceu uma peça de filigrana subaquática, iluminada por todas as cores. Deixo para trás Timor, as varandas das florestas de Ermera, o verde de Aileu, a estrada que me desvendara a madrugada de Lospalos, as algas magníficas de Baucau, a neblina das montanhas. Quinze dias antes o avião pousara em Díli e eu saíra a custo, a meio de uma convalescença que a viagem entre Amesterdão e Singapura interrompera – mas aquela humidade do Oriente obrigara-me a retomar a vida inteira. O perfume dos cafezais. As ravinas inclinadas sobre o interior da terra. As árvores, grandiosas.

Ainda quero ir a Flores, a ilha mágica e desconhecida, um território indonésio perdido no meio de outras ilhas mágicas e desconhecidas – a nós, portugueses, não nos calhou tudo, felizmente, porque teríamos estragado muito, ou esquecido mais. Mas, antes de pensar nisso, o avião, com três horas de voo, aterra em Bali. Tomo medicamentos de tantas em tantas horas, e a fila dos passaportes é imensa, o atendimento é lento; acabam de chegar os voos do Ocidente com turistas que, daí a pouco, encherão as ruas de Denpasar, os restaurantes de Legian, Kuta e Tanah Lot, as praias que limitam a capital. Só tomo os comprimidos quando consigo um táxi numa fila ordenada do aeroporto. E então é o fio do equador que toma conta de tudo: do céu, dos perfumes das ruas (aquele cheiro de sambal e kecap, de ervas aromáticas, de arroz frito, de nasi goreng). Árvores em todo o lado, céu rosado do anoitecer. Quando chego ao hotel adormeço logo e durmo (há um resto de febre que vem de Díli) por dez horas. Até hoje, nunca mais consegui.

Nos dias seguintes, a ilha foi-se revelando aos poucos. Não tendo optado pela praia, perdi-me por estradas das montanhas, entre Tabanan e Ubud, Bangli e Tirtagangga, embora a ideia fosse visitar Singaraja, a cidade no outro extremo do território, a primeira capital da ilha. Templos iluminados pela luz tranquila da tarde, ao lusco-fusco. Restaurantes perdidos em estradas secundárias, com toalhas de plástico, onde se comem os melhores arrozes – temperados ou apenas de companhia –, bakso (a sopa das sopas), bubur injin, as cervejas locais, leves, apetecidas. Passados todos estes anos, recordo Bali como «a ilha da natureza», o jardim antigo onde as pessoas se sentam diante das árvores apenas com o propósito de as admirar. Esse respeito comove-me. E a delizadeza dos balineses.

Provavelmente, não vem agora ao caso, a minha vida podia ter mudado em Bali. Nunca antes fora tocado pelo vento do Índico daquela forma. Em 1585 os portugueses teriam chegado à ilha – sim, antes dos holandeses – ao ponto que é hoje a península de Bukkit, e imagino a aparição, diante dos navegadores, daquele corpo imenso de terra arborizada, coroado pelas montanhas e pelo pico do Agung, ao fundo, rodeado de nuvens. Tenho pena quando penso em Bali. Guardo uma ternura disparatada por Bali, pelos seus bares de madeira e música suave, até pelas estradas escondidas rente aos lagos. Sonho que um dia voltarei às sombras do templo de Besakih e àquele vento do Índico.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Agosto 2008

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junho 21, 2008

Minas Gerais: veredas

A última “polémica literária” em que andei metido era — não podia deixar de ser – sobre uma lista. As listas são o melhor pretexto para conseguir fazer que uma polémica caía sobre a nossa cabeça com artilharia vinda de todo o lado. Ora, acontece que nós (nós, género humano) temos uma pre­dilecção geral por listas. Geralmente, fa­zemos listas de coisas de que gostamos: os dez filmes da nossa vida, os dez livros que levaríamos para uma ilha deserta, os dez golos de eleição, as cinquenta can­ções que nunca esquecemos. Eu fiz pior: uma lista dos “dez livros que não tinham mudado a minha vida”. Na ver­dade, são muitos – mas, reduzidos a dez, dá para criar muitas inimizades (o “meio literário” é fatal), arrebatar muitos adversários e magoar alguns amigos. E escolhi livros com títulos tre­mendos: À Procura do Tempo Perdido, de Proust; Ulisses, de James Joyce; Morte em Veneza, de Thomas Mann; etc. Até chegar a Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

É claro que uma pessoa até re­conhece a grandeza de Proust, a impor­tância de Sartre, ou mesmo a inevitabilidade de Paul Auster. Mas não tinham mudado nem uma só vírgula na minha vida. Só que o caso de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, era especial, e eu explico porquê.

A principal razão encontra-a o lei­tor nas páginas desta revista, ao ler a reportagem sobre Minas Gerais. O ro­mance de João Guimarães Rosa é a história do Diabo que anda pelo sertão, contada através da personagem fantástica de Riobaldo. Há muita maneira de passear por Minas, mas a leitura desse li­vro pode ser um pórtico cheio de glória.

A segunda razão, que não interessa para o caso, é que Grande Sertão: Veredas é uma espécie de Auto da Criação do Mundo, um dos grandes romances da nossa literatura. A de todos os tempos. Encontrei as suas personagens nas es­tradas de Minas Gerais, batidas pelo vento seco que produziu muita literatu­ra, muita música e muito cinema (o li­vro foi adaptado à televisão e Bruna Lombardi interpreta uma Diadorim be­líssima). Minas Gerais passa pelo livro como uma tempestade de poeira seca e quente, que o leitor encontrará mal se despeça de Belo Horizonte, que é uma cidade moderna, habitável, traçada a ré­gua e esquadro, arborizada e gentil – além de estar cheia de livrarias, de ba­res e de parques. Coisas de que gosto.

Acompanhei essa viagem de Rio­baldo (que parece que nunca sai do mesmo lugar) até aos grandes planaltos que, no mapa real, nos aproximam de Brasília, por exemplo. O leitor deve ser­vir-se do livro como uma encenação do espaço do sertão, quase sempre distante dos livrinhos turísticos – mas, como di­zem os brasileiros, é “bonito de mais”. Não tem o apelo de outros pontos cen­trais do polígono mineiro, mas merece ser visto. Para descansar desse mapa, há depois a mais do que belíssima Tiradentes (onde se come maravilhosamente, aviso), a fantástica Ouro Preto (fantás­tica, porque andam fantasmas nas suas ruas inclinadas e sensuais), a triste Con­gonhas — mas a minha fronteira com Minas (além desse roteiro que várias ve­zes fiz de carro, entre o Rio e Belo Hori­zonte, ultrapassando as montanhas) é o Grande Sertão. Quando me aproximo da paisagem brumosa e seca de Três Ma­rias, quando o rio São Francisco é mais do que uma miragem, sei que estou em Minas: fazendas que prolongam a aridez, interrompendo-a; pequenas cidades cheias de história e de evocações; e aquele sotaque – o mineiro. E aquela personagem — o mineiro, gracejando e desconfiando (sempre), surpreendendo permanentemente, fazendo da pequena dissimulação uma obra de arte. E como Grande Sertão: Veredas. Profundíssimo, astuto, maravilhoso, evocando o prin­cípio das coisas, mesmo que não mude a nossa vida.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Junho 2008

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maio 18, 2008

Ilha sentimental e afectiva de todos

Escrevo esta crónica a bordo de um avião que sobrevoa o Congo, regres­sando de uma viagem que me levou à Ilha de Moçambique, a primeira capital da ex-colónia, a definitiva capital senti­mental e afectiva do país. A primeira vez que atravessei aquele canal foi há muito tempo, mas era uma tarde quente, havia céu azul – e, como acontece com todas as tardes na Ilha de Moçambique, tinha acabado de levantar-se o mesmo vento que deixa o mar desenhado como numa fotografia antiga, um mar de cartolina com vagas cobertas de espuma, rodean­do as muralhas das fortalezas e sacudin­do os ilhéus soltos diante da baía.

Todos nós somos capazes de repetir até à exaustão a impressão inicial desse encontro com a Ilha – falamos de um “momento mágico”, o mesmo que há muito tempo os portugueses tiveram com a costa do Índico. Mentiria se vos disses­se que é o mais belo lugar do mundo; ou, pelo menos, não estaria a dizer-vos toda a verdade sobre o mundo. Mas não esta­ria a enganar-vos ao dizer que se trata de um dos lugares que ninguém esquece e que nunca fui capaz de esquecer. Por isso, ao visitar a Ilha pela quarta vez, sinto re­petir-se a mesma e profunda magia que percebi quando, naquela tarde de De­zembro, atravessei os arcos na direcção da velha igreja matriz. E é como se, de repente, de uma das ruas laterais, rente à Pousada, aparecesse a motorizada de Abdurrazaque Djamú, meu querido xeque, que me abriu as portas da sua mesquita e da sua memória. E foi como se de repen­te regressasse ao final de uma manhã em que entrei no Café Ancora d'Ouro e re­petisse os gestos de outros frequentadores como Jorge de Sena (que aí escreveu o célebre poema Camões na Ilha de Mo­çambique), ou Rui Knopfli (o autor de um dos mais belos poemas da nossa lín­gua, A Ilha de Próspero), ou Alberto La­cerda. E foi como se de repente Camões ou Tomás António de Gonzaga tivessem prolongado a sua estada e assistissem ao crepúsculo na Fortaleza de São Sebastião.

Os retratos são simples, comoventes, inesquecíveis: arcos nas ruas, procurando a sombra; praças onde o sol e a amável luz do Indico douram a tarde; corvos mari­nhos atravessando o canal, vindos do Mossuril, onde as salinas perfumam os terrenos de mangue, ou se estendem até à pequena savana do Lumo; as madruga­das suaves da Ilha, vistas do terraço de uma casa voltada para as ilhas do largo; a partida dos primeiros autocarros (“chapas”) na direcção de Nampula, por volta das três da madrugada, enfrentando o cla­rão de luz inaugural que há-de formar-se ao longo da estrada; os muros dos cemi­térios, dando uns para os outros - os cris­tãos, os muçulmanos, o crematório hin­du - para mostrar que a Ilha é de todos, naquela abundância de cruzes e minare­tes sob o céu de África; a balaustrada que acompanha o passeio sobre as praias, na­queles crepúsculos suaves; a exuberância da arquitectura militar, a tranquilidade si­tiada das praças onde estátuas (além da de Camões e da de Vasco da Gama) de arte nova se erguem para testemunhar a passagem europeia naquele território.

A Ilha é também tudo isso e os seus pequenos e modestos hotéis. O resto es­tá dentro do nosso coração, fechado ou aberto como um atrevimento diante do passado, da memória e da beleza do mar. Acabo de regressar de mais uma visita à Ilha – e se puder regresso em breve.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Maio 2008

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abril 05, 2008

A respiração das florestas

Não sei se o leitor conhece Finlandia (o Poema Sinfónico, Opus 26, de 1899), de Sibelius – mas é uma das minhas peças preferidas. Ouço-a mais vezes porque redescubro nela a respira­ção das florestas.

Se há uma coisa que me assusta na biografia de Sibelius, mais do que em outros compositores, é o grande silêncio dos seus últimos trinta anos de vida (morreu em 1957). Durante esse perío­do compôs pouco, tocou sofrivelmente e escutou muita música. Mas o brilho ir­reversível de Finlândia permanece na minha vida como uma recordação da madrugada, no meio de uma viagem de comboio entre Helsínquia e Rovaniemi. Uma música no meio da madruga­da explica-se bem, sobretudo se há ne­voeiro, aquele que poisa sobre todas as árvores ao longo do caminho que leva ao Norte e ao círculo polar.

Rovaniemi, na verdade, é uma es­pécie de fronteira com a proximidade do Árctico, uma cidade desenhada a ré­gua, esquadro e transferidor pelo génio de Alvar Aalto, o seu arquitecto (que nasceu um ano antes de Sibelius com­por Finlandia) - mas muito distante do ambiente pacificador da Finlândia que o leitor encontra noutras páginas [48-61] desta edição da Volta ao Mundo, entre lagos e enseadas ocultas. Rovaniemi é o coração da Lapónia finlande­sa, com as suas estradas onde é quase sempre Inverno ou Primavera (a ruska é muito breve aqui: trata-se de um pe­ríodo fugaz de uma a duas semanas du­rante as quais as folhas das árvores ficam douradas e avermelhadas antes de caí­rem e desaparecerem com o vento do Norte), as suas breves colinas, as casas de madeira, as pistas de terra no meio das florestas.

Tudo na Finlândia, sem excepção, me lembra as florestas. Entrei na Fin­lândia pelo Báltico, de barco; entrei pe­lo Norte, vindo da Noruega (de boleia com Jimmy Burns, um canadiano que andava a pesquisar ouro no cabo Norte, nas imediações de Honningsväg); entrei pelo pequeno golfo da Suécia, depois de uma viagem que queria imitar o voo dos patos de Selma Lagerlöf (em A Viagem de Nils Holgersson). De todas as vezes deparei com as grandes florestas, com aquela tranquilidade das ár­vores que resistem ao tempo e aos ho­mens — acho que foi o país onde aprendi a amar as florestas, nos bosques que le­vam a Kuopio, a Joensuu e à Carélia, na fronteira de Muonio ou nas manchas de água de Tampere.

O que hoje conhecemos da Finlân­dia deve-se (além da sua indústria e tecnologia) ao famoso «milagre finlandês», uma soma de dados que inclui o facto de o país ocupar o primeiro lugar nos es­tudos de matemática, de ser a nação menos corrupta do mundo ou de se si­tuar no topo do índice de desenvolvi­mento humano das Nações Unidas. Po­rém, antes de cobiçar a Finlândia do «milagre finlandês» – essa miragem que leva alguns idiotas do Sul da Europa a pensar que basta copiar o sistema de en­sino finlandês —, o leitor deve pensar na complexidade da geografia: eles têm frio, têm neve, têm noites fatais e quase eternas, têm uma disciplina luterana que os leva a poupar, a serem modera­dos nos gastos e honestos nas relações humanas. Eles pagaram esse preço, jun­tamente com o da guerra, o da invasão nazi, o da privação e o do isolamento: o de terem pertencido à coroa sueca e ao império russo. Admiro-os muito, aos finlandeses – são o povo das florestas.

Quando ouço Finlandia, de Sibelius, não ouço nenhum «milagre finlandês»: é a pura respiração das florestas que atra­vessa o espaço. Faça essa experiência, quando chegar lá.

in Outro Hemisférios – Revista Volta ao Mundo - Abril 2008

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março 03, 2008

Livrarias, essas ilhas de sossego

A mais bela biblioteca que conheço é a Athenaum, em Providence, nos Estados Unidos. A preferência não tem a ver com o espaço arquitectónico, com o acervo de livros, com a grandiosi­dade — que, aliás, não tem. A Athenaum era a biblioteca de Edgar Allan Poe, que a procurava para, nas horas de tristeza, se refugiar na leitura e na sombra das estan­tes de madeira, num dos recantos do cor­redor do segundo andar. Há outro moti­vo, eu sei: a Athenaum (que é uma das primeiras bibliotecas americanas) não de­pende de subvenções públicas, do apoio do Estado ou da generosidade dos políti­cos – sobrevive graças ao entusiasmo dos seus membros, que pagam uma quota anual que permite fazer dela uma das mais fascinantes bibliotecas do mundo.

Mas não era de bibliotecas que eu gostaria de falar — embora, em viagem, eu visite algumas por curiosidade e por pra­zer e, até, por necessidade. Desta vez, lembro um dos locais que sempre pro­curo em cada viagem: as livrarias.

O jornal inglês The Guardian elabo­rou, no princípio do ano, a lista das dez mais belas livrarias de todo o mundo. Quase todas merecem visita, como a Selexyz Dominicanen, em Maastricht, na Holanda - instalada na grande nave de uma igreja dominicana. Em segundo lu­gar, evidentemente, a grandiosa e belís­sima Ateneo, uma das minhas livrarias de eleição, em Buenos Aires, a meio da Avenida Santa Fe, instalada num antigo teatro, cuja pla­teia, palco, camarotes e tribunas manti­veram o esplendor de glória dos seus dou­rados e veludos, mas agora atravessados de estantes onde se circula livremente à procura de um romance, de um livro de versos, de um guia de viagem. A lista tem preciosidades como a Secret Headquarters, em Hollywood; a maravilhosa Borders, em Glasgow, instalada num edifício monumental; a minúscula Scrathin, em Cromford, no Derbyshire inglês, muito campestre, numa casa de campo, prati­camente; a Posada, em Bruxelas, paredes-meias com a Igreja de Santa Madalena, num dos mais encantadores percursos históricos da capital belga; a fantástica Pêndulo, na Cidade do México, onde me perdi várias vezes entre livros, plan­tas, aromas de café, conversas com os seus excelentes livreiros. Estão também na lista a Hatchards, de Londres, e a Keibunsya, em Tóquio.

Omiti deliberadamente a Livraria Lello, do Porto, que o jornal classifica em terceiro lugar na lista – com as suas esca­darias monumentais, os seus tapetes e es­tantes, a sua tranquilidade, o seu magnífi­co fundo editorial e a gentileza do seu atendimento. A presença portuguesa nessa lista apenas nos honra e devia em­prestar-nos um pouco de orgulho e de en­tusiasmo no gosto por livrarias.

Geral­mente, perco-me em várias delas, em Madrid, Nova Iorque, Dublin (a inesque­cível Books Upstairs), Casablanca, Bue­nos Aires, São Paulo (a Cultura), Jerusa­lém, Londres, ou no Rio de Janeiro, onde (além dos alfarrabistas do Flamengo) sou cliente certo da Livraria da Travessa, em Ipanema – que além de possuir um catá­logo surpreendente, tem um restaurante que funciona, praticamente, como meu escritório. Almoço, janto e marco lá os meus encontros e reuniões para aquelas mesas civilizadas e de excelente cozinha.

Costumo dizer que viajar é ganhar sempre uma nova identidade, coisa que se consegue entrando nos mercados e cafés de bairro das cidades que se visi­tam, comprando os jornais locais - e vi­sitando as suas livrarias. São expositores de um país, uma espécie de exemplo de como nós seríamos se lêssemos os livros que ali se lêem. Experimente. Mesmo que não saiba a língua local, um livro nunca faz mal. •

in Outro Hemisfério - Revista Volta ao Mundo - Março 2008

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fevereiro 01, 2008

Mindelo, coração de coral

O leitor sabe como começam as minhas viagens: por uma página solta, uma interjeição perdida no meio de uma memória – e por uma música. Desta vez vou buscá-la aos anos setenta, quando ouvi pela primeira vez Os Tubarões (o primeiro disco era Tabanca), uma banda de Cabo Verde que deu nova vida às mornas locais. Da banda ficou-me o nome de Ildo Lobo (infelizmente desaparecido em Outubro de 2004), um dos mais extraordinários cantores caboverdianos que retomo, sempre que posso, do disco Nós Morna, deliciosa evocação e recriação desse género musical que faz do mar das “ilhas afortunadas” (eram assim conhecidas na literatura quinhentista) um território romântico e ultra-romântico, o modo de mitigar o sofrimento de séculos de isolamento, de pobreza, de fome – mas também o de mostrar que a poesia nasce onde sempre estiveram o génio e a doçura, o sofrimento e a capacidade de o enfrentar. Cesária Évora faz parte desse universo, mas, antes dela, a profundidade absoluta da voz e do talento triste de Bana, o divertimento desse António Travadinha já desaparecido, a ironia romântica de Tito Paris, ou de Celina Pereira, a voz perfumada de Ana Firmino, de Teté Alhinho (um colosso), os ritmos de Teófilo Chantre, ou Orlando Pantera, Boy Gé Mendes, ou Gilyto, a beleza dos tons de Titina, as antigas canções de Gardénia Benrós, tudo distribuído pelo batuque, pela coladêra, pelo funaná, pela abençoada morna, em compositores tão fatais como B. Leza, evidentemente, Kaká Barbosa, Frank Cavaquim, Rendall, Spencer ou Vasco Martins.

Cabo Verde manteve a sua dignidade e conservou a sua beleza. Recusou a vitimização que tantos novos países africanos transformaram em discurso oficial, e encontrou no “turismo” uma vocação natural. Mas o turismo, como o leitor compreende, é outra coisa. Eu falo de viagens. Não apenas das praias de Cabo Verde, mas das alturas e das colinas escuras de Santo Antão, da imensa solidão atlântica da Brava, onde a beleza pura invade a visão do mar, para o transformar e cativar em seu redor; da magia distinta do Pico do Fogo, de onde o mundo parece mais pequeno. Uma das minhas cidades de sempre é o Mindelo e não é difícil imaginar, mesmo à distância, essa tranquilidade das ruas à hora da sesta, que rivaliza com a animação que desce sobre a cidade mal cai a noite, transformando-a numa terra de música, de boémia, de amores furtivos e divertidos (como vêm na prosa de Germano Almeida), de cenas de outro tempo, evocando aquela poesia mansa e intensa, como a de Eugénio Tavares (que nasceu na Brava, convém dizer) evocando as saudades e a «dor de amor»: «Dicham chorâ/ Destino de home:/ Es dor/ Que ca tem nome:/ Dor de crecheu,/ Dor de sodade/ De alguem/ Que’n q’ré, que q’rem...»

Muitos dos meus lugares são ilhas do meio do Atlântico, como Cabo Verde, com os seus caminhos perdidos entre desertos que se transformaram em vida única, exemplar, digna, invejável. O Mindelo, em São Vicente, é um desses lugares inesquecíveis, ponto de chegada e de partida das suas histórias mais negras (a da escravatura, a do ciclo do carvão, a da febre amarela, a das secas – o flagelo do Vento Leste) e das mais luminosas (a da sua música, a da sua intimidade). Eu passaria metade dessa vida sentado a uma mesa do Café Mindelo, lendo os jornais que chegassem ao Porto Grande, como na época dos transatlânticos, para que não dissessem que estava isolado do mundo. A minha praia seria a da Lajinha com sábados grandes em Salamansa e na Baía das Gatas, com crepúsculos desses, negros e dourados, mesmo no meio do mar. Como um coração de coral no meio do mar.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Fevereiro 2008

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janeiro 07, 2008

O inútil louco de Barents

Mal atravessávamos a ponte entre Puttgarden e Rødby, entre a Alemanha e a Dinamarca, começava o Longínquo Norte – escrevo-o com maiúsculas porque é um território fatal. Nesses anos, oitenta, comíamos bolachas e abríamos latas de conservas nas carruagens dos comboios. Havia conversas intermináveis que a idade interrompeu. Nunca mais seremos jovens e raramente atravessaremos a fronteira para Rødby. Tínhamos mochilas e cadernos, horários de comboios e coleccionávamos coisas disparatadas – postais ilustrados, caixas de fósforos, maços de cigarros, bilhetes de autocarro, bilhetes de entrada em museus. As viagens eram disparatadas como nós. Imagino uma viagem como as de antigamente, quando o mundo era mais seguro e eu era mais novo. Não tínhamos acesso à internet e poupávamos moedas para telefonemas curtos em cabines de estações ferroviárias. Nesses anos, depois de Rødby havia ainda uma curta viagem até Copenhaga e, de Copenhaga, havia percursos para o mais norte do norte, até Honningsvåg (o Cabo Norte), onde começaria o percurso para a viagem que mais me fascinava, até às ilhas Spitzberg, a meio caminho do Pólo – apenas para visitar Longyearbyen ou, para os mais afoitos, Ny-Ålesund, uma cidade semi-deserta na península de Brøgger, onde não há pássaros, onde não há árvores e onde os picos negros das montanhas se erguem sempre para lá das neblinas, a 1000 quilómetros do Pólo Norte. Céu escuro de cinza e gelo – o cenário das Spitzberg, o arquipélago originalmente chamado Svalbard, tinha-o conhecido nas sagas islandesas do século X, se bem que os historiadores refiram que as ilhas foram ocupadas ou descobertas pelos vikings apenas no final do século XII.

O meu personagem favorito, nesse recanto do mapa, era Willem Barents, o holandês que no século XVI redescobriu as ilhas enquanto procurava uma passagem para a China entre o gelo do Norte e as tempestades permanentes do mar que ficou com o seu nome. Acabou por morrer em Novaya Zemlya (Nova Zembla), na Rússia, em 1596, no termo dessa expedição que nunca se concluiu.

Barents, que nasceu à beira do mar tranquilo da Frísia, é um navegador ao contrário de todos os outros do seu tempo e para mim sempre foi um mistério. Quando toda a Europa se preocupava com o domínio dos mares a Sul, enfrentando os demónios de África e da América, festejando as rotas dos trópicos, apaixonando-se perdidamente pelo novo paraíso prometido entre águas cálidas e vegetação deslumbrante, Willem Barents partia para o Norte – onde não havia mais do que o deserto. O seu sonho (como o de Roald Amundsen) era o descobrir passagens entre continentes, coisa que hoje não será considerado de grande utilidade. Uma viagem até Ny-Ålesund custará cerca de 3 000 euros e é – também – completamente inútil, se considerarmos que não tem importância relevante o facto de ali estar a linha de caminho-de-ferro mais ao norte do mundo nem uma comunidade científica que observa a forma como os gelos se desagregam e o planeta se perde.

Na verdade, o mundo é hoje um mapa povoado de placas de sinalização onde pouco mais há a descobrir. O leitor, em pleno mês de Janeiro, quer ouvir falar de tudo excepto de um arquipélago onde não vivem mais de duas mil pessoas, sitiadas pelos degelos e pela velocidade do vento que vem do Norte, intenso, frio, negro.

Visitar o mar de Barents, a norte de Murmansk, limitado a leste pela ilha de Novaya Zemlya, é também uma viagem inútil. Contaminado, destruído pelos dejectos da velha marinha soviética e da exploração de petróleo, lembra-me apenas o louco navegador holandês que ali morreu à espera da Primavera, para tentar chegar à China pelo Norte do mundo. Coisas inúteis e fantásticas. É delas que se faz o espírito da viagem.

in Outro hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Janeiro 2008

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dezembro 04, 2007

Outro Preto, o luxo da contemplação

Havia uma poeira amarelada, fina. Essa não foi a primeira imagem, mas foi a mais intensa, aquela que perdurou. A primeira foi a do desenho de um vale escuro, denso, sitiado pelo pico do Itacolomi e pela serra da Mantiqueira, pelos fios de água do rio das Velhas e do Piraci­caba, mergulhado naquela vaga de calor onde cada pedra fala da história e do pas­sado. É impossível não ceder ao peso da história e do passado; casarões erguidos em colinas, em ladeiras e becos, pracetas onde ipês frondosos servem de teste­munhas à passagem do tempo em Ouro Preto, a primeira capital de Minas Gerais.

Mas a outra imagem, a decisiva, apa­receu depois: uma poeira fina misturada às nuvens de calor que subiam e desciam o vale. Foi mais do que isso que levou D. Pedro I a chamar-lhe Imperial Cidade de Ouro Preto, substituindo o nome antigo, Vila Rica – o desígnio da História, o centro difusor do independentismo brasileiro que alimentou a Inconfidência Mineira e a conspiração do Tiradentes, a importância económica da região, a tradição de uma cidade que foi capital do barroco brasileiro. Essa euforia custou caro à cidade: seguiram-se anos de isolamento e de silêncio até ao ressurgimento nos úl­timos anos, com uma população essen­cialmente universitária e com o turismo cultural dos que vêm conhecer a cidade que poderia ter sido capital do Império.

Estive pela primeira vez em Ouro Pre­to em 1998, depois de uma viagem de carro a partir do Rio, atravessando as serras, aproximando-se dessa visão da poeira do vale e da imagem da cidade, encimada pela igreja do Carmo numa das colinas. O que eu mais conhecia era Tomás An­tónio Gonzaga, um dos meus poetas, voz estranha de andarilho e, diz-se, de amante displicente. Nasceu em Gaia, viveu em Ouro Preto e na Baía e, na sequência da revolta da Inconfidência Mineira e do su­plício de Tiradentes, foi deportado para Moçambique, onde foi funcionário das alfândegas da época. Penou na ilha de Moçambique até ao fim. «São estes os lu­gares, eu o mesmo não sou» remete-me para os seus poemas a Marília de Dirceu, musa e inspiradora de muitas visitas ac­tuais a Ouro Preto, cuja casa se encontra lá, bem arrumada no fundo de uma das ruas, junto a um chafariz e de uma para­gem de «ônibus». De alguma maneira, tanto Gonzaga como Cláudio Manuel da Costa fizeram o melhor da poesia pós-barroca, só comparável em génio ao atormentado e revolucionário Bocado Inferno, o «genial canalha» Gregório de Matos, poeta baiano do século XVI.

Ouro Preto lembra a história das cidades abandonadas por algum mistério do tempo. No caso, tratou-se da decadên­cia da vida das minas e da importância acrescida de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais — mas eu suponho que há mais. Há aqui o perfume da maldição e do castigo por, nesses tempos de glória, a riqueza dos seus habitantes ter levado a cobrir varandas e fachadas com folha de ouro. Isolada do mundo, escondida no vale, Ouro Preto fomentou aquela luxúria da decadência e foi um centro produtor de música, de pintura, de escultura, de litera­tura – e de contemplação, a mãe de todos os vícios artísticos. Hoje, a poucos quilómetros de Ouro Preto, visitando Congonhas do Campo para revisitar as es­culturas de António Francisco Lisboa, o Aleijadinho, vê-se como esse drama esta­va anunciado. A obra do Aleijadinho es­tá presente em toda a cidade de Ouro Pre­to (onde nasceu e morreu, 1730-1814), nomeadamente na Igreja de São Francis­co – mas em nenhuma obra como a dos 12 Profetas de Congonhas do Campo se nota a tragédia no olhar daquelas persona­gens que escondem as figuras dos revol­tosos e conspiradores da Inconfidência.

Ao crepúsculo, Ouro Preto recebe os seus fantasmas, um a um. Falei da contem­plação como um dos elementos da luxú­ria; não é por acaso: ao observar o vale de­saparecendo sob a escuridão, percebe-se por que nenhuma outra cidade brasileira vive tanto o passado e os seus mistérios.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Dezembro 2007

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novembro 06, 2007

Chile, Isla de Santa Maria

Começo, nesta altura, a pensar na viagem que gostava de fazer durante o próximo Verão. Penso em lugares im­possíveis que dariam crónicas quase im­possíveis; acontece sempre nesta altura. Penso em planícies, em ravinas no fun­do de montanhas escuras, em praias quase brancas, quase azuis.

Os nossos sonhos de viagens deviam preocupar-nos mais, porque o mundo se reduziu bastante, contra a ideia de que ele é «inevitavelmente» vasto, aberto, cheio de paisagens novas. Sonhar com viagens faz-nos bem — mas é tão perigoso como a tentação do abismo.

A última viagem com que sonhei tem a ver com um livro, Benito Cereno, de Herman Melville, o autor de Moby Dick. Começa assim: «No ano de 1799, o co­mandante Amasa Delano, de Duxbury, Massachusetts, comandando um navio de grande tonelagem equipado para a caça da foca e comércio em geral, ancorou com importante carga no porto de Santa Maria — pequena ilha deserta da longa costa do Chile. Aportara aí para se abaste­cer de água.» O livro trata, antes de mais, do encontro do comandante Delano com um navio, o Saint Dominick, comandado por um espanhol, D. Benito Cereno – e cuja tripulação branca tinha sido alvo de um levantamento de escravos negros que seguiam a bordo. O que espanta Delano, a princípio, é apenas a desordem do navio e a lassidão triste e desorganizada do seu comandante. As descrições dos mares do Sul e desse quadro representado pelo navio são tão intensas que quase vemos a tripulação doente de escorbuto, velando os seus mortos e os seus náufragos tristes.

Essa tensão sobe desde o início até chegar a um nível assustador que, aliás, é um marinheiro português a resolver e a esclarecer — não esqueçamos que Melville tinha sido um leitor de Camões e de Os Lusíadas. O mundo obscuro desses mares do Sul que a literatura europeia mitificara mas que a realidade apresentava muito mais cruel e assustador, aparece em Benito Cereno como um mapa da solidão dos homens e da memória da escravatura. Melville é cru e não está interessado em salvar o mundo, não quer fazer «literatu­ra de causas» nem tomar partido: o leitor vai construindo o seu próprio livro, o seu próprio mistério, que se adensa de página para página. E vai tentando responder, ao longo da leitura, a esta pergunta: o que terá acontecido a bordo deste navio, lá, onde as últimas águas do Atlântico se cruzam com o Pacífico profundo e o mar é apenas o mais perigoso dos monstros?

Procurei a localização exacta da Isla de Santa Maria no mapa do Chile, dian­te do golfo de Arauco, ao largo da pro­víncia de Concepción. Ainda hoje é um território semi-abandonado onde vivem menos de duas mil pessoas, numa região cheia de florestas e de escarpas apontadas ao Pacífico. Desde o século XVII que era um refúgio para navegadores espanhóis, holandeses e ingleses se abastecerem de água e madeira. Mas uma inquietação mais profunda tomou conta da minha investigação quando descobri que o coman­dante americano Amasa Delano, per­sonagem central do livro de Melville, existiu mesmo e escreveu as suas memó­rias. A partir daí, o meu plano de viagem estendeu-se a toda a costa centro-sul do Chile, para lá das cordilheiras, onde qua­se nunca chegamos senão para assinalar­mos a ilha de Páscoa, esse grande mito do viajante. Quem sabe, um dia vou lá.

Os planos de viagens, muitas vezes, estão escritos nos grandes livros de aven­turas. Antes de nós, muitos outros (como Melville, Conrad, Durrell, Stevenson) sonharam ou percorreram esses lugares e deixam a sua marca na nossa memória. A Isla de Santa Maria nunca teve exis­tência tão real como no livro de Herman Melville e temo que, na realidade, seja uma desilusão. Para nós, europeus, trata-se de um lugar mítico; para os mapuches, índios chilenos que vivem lá, há-de ser uma sensaboria. É essa a razão por que se deve sonhar uma viagem antes de come­çarmos a planeá-la.

in Outro Hemisfério, Revista Volta ao Mundo - Novembro 2007

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outubro 11, 2007

Portugueses que atravessaram o mundo

Oiço uma música. Aliás, só a ouviria horas depois, ainda antes de sair de Caracas em direcção ao Norte – o meu so­nho era chegar à Venezuela andina, a Merida, onde um grupo de portugueses se ins­talara perto da cordilheira, repetindo os passos dos primeiros exploradores da ba­cia do Amazonas, no século XVIII. Uma coisa não tem a ver com a outra, mas na minha imaginação reescrevo a chegada dos portugueses aos Andes, vindos de La Guaira, o porto que servia de entrada dos emigrantes que chegavam à Venezuela, como se repetissem a mesma comoção de Pedro Teixeira, um dos mais misteriosos e fascinantes militares portugueses do Brasil.

Descobri-o às portas do Pará, numa viagem de carro que me levou de São Luiz do Maranhão a Belém do Pará num dia de meteorologia variável: saí de São Luiz com um sol branco e azulado, e entrei com chuva nas florestas do Sul do Pará. Novecentos quilómetros de estrada ruim. A certa altura, no meio de um agua­ceiro, como uma aparição fantástica mis­turando-se à neblina, havia uma estátua. Um quilómetro depois tinha convencido o meu companheiro de viagem a retro­ceder para saber mais daquela estátua: a do capitão Pedro Teixeira, responsável pela expulsão dos franceses do Maranhão, fun­dador de Belém do Pará e, vim a saber de­pois, o aventureiro que, em 1637 – acom­panhado de meia centena de soldados portugueses e de mil índios – delimitou to­da a bacia amazónica, entre o Pará e o actual Equador – onde, diz-se, plantou uma árvore para comemorar a travessia e dar um toque humano às florestas desabitadas daquela geografia. Ou seja, navegou pelo Grande Rio, tomando todos os territórios para, graças a ele, se estabelecer a sobera­nia portuguesa sobre a Amazónia. Morre­ria em 1641, como capitão-mor do Grão-Pará e depois de uma vida de guerreiro, de aventureiro e de herói viajante.

Trezentos e cinquenta anos depois re­fiz essa viagem em homenagem a Pedro Teixeira e subi o Amazonas num navio que levava o seu nome. Ao ver os picos nublados e verde-escuros da Venezuela andina, lembrei-me dos portugueses que, também trezentos anos depois de Pedro Teixeira, atravessaram vales e florestas para se estabelecerem num território ad­verso, desconhecido e que hoje é incerto.

Por isso ouvi essa música em Caracas, há uns meses – era uma pequena orquestra que tocava «música do Caribe», ritmos do Panamá, da Venezuela, da Colômbia, do Equador. Todos os músicos eram portu­gueses, reunidos num palco de circunstân­cia, sorrindo, vestidos como as velhas or­questras de baile. Nunca como nessas circunstâncias admiro os portugueses, imaginando-os a chegar a La Guaira de­pois de uma grande travessia do Atlânti­co. Deviam conhecer La Guaira, o prin­cipal porto venezuelano. A bem dizer, na zona das praias, refugio de fim-de-semana para quem vem de Caracas. Há muitos anos, La Guaira era, também, o principal ponto de entrada de emigração. Um dos emigrantes que conheci, o Sr. Segismun­do, veio dos Açores, de Ponta Delgada, nesses anos longínquos, creio que numa das derradeiras viagens do Santa Maria. É um homem bom e divertido. E imagi­no-o, micaelense (ainda hoje conserva o sotaque admirável), enfrentando os trópi­cos em La Guaira vestido como se es­tivesse no Inverno europeu, de sobretudo, ainda mal refeito dos dias passados no na­vio; fosse como fosse, era preciso encontrar trabalho.

Ao fim de um dia em La Guaira, visitando as tabernas, cum­primentando os portugueses que ia encontrando, despedindo-se dos que regres­savam, Segismundo (que mais tarde seria aquilo que nós chamamos «um próspero comerciante»), fez o seu primeiro negócio na Venezuela: vendeu o sobretudo, ga­nhou algum dinheiro local; ou seja, reco­meçou a vida. E, como muitos outros por­tugueses, dispôs-se a atravessar o Cerro Ávila e a chegar onde chegam a ambição, a coragem, o sonho e o desejo de aventura dos que atravessam o mundo para plantar uma árvore no coração da Amazónia.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Outubro 2007

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