janeiro 05, 2008

Recordações das ilhas


O cronista despede-se dos leitores com os sabores do Espaço Açores, em Lisboa.

Durante os dois últimos anos escrevi sobre restaurantes neste espaço. A Academia Portuguesa de Gastronomia decidiu premiar estas crónicas com argumentos que muito me honram e que recordarei com gratidão. Foram sempre uma e a mesma crónica; esforcei-me por escrever bem, por escrever com sinceridade e por escrever com prazer. Despeço-me hoje agradecendo aos leitores a paciência e a credulidade. Julgo que mereço ambas. Esse tempo acabou e termino com uma evocação que me parece igualmente justa: os Açores.

Sempre que me lembro das ilhas penso num último momento de felicidade absoluta. A gastronomia fala da sensação, sem incómodo nem pesadelo: não existe prazer sem evocação, deslumbramento, delírio, até imaginação – ou mentira, a suavíssima mentira que melhora os condimentos e acrescenta a arte. Tanto a crítica literária como a de restaurantes se ressente das tecnocracias que as dominam de tempos a tempos. Suponho que um restaurante não pode reduzir-se, como pensam as modernas ASAE do espírito e da alimentação, a um laboratório. Alguma alma deve flutuar mansamente, alguma recordação deve harmonizar a nossa presença dentro dessas quatro paredes onde por vezes nos alimentamos, onde tantas vezes nos perdemos de paixão e onde outras tantas nos resignamos ao que as coisas são. E as coisas são cada vez mais propícias ao novo-riquismo e aos dicionários técnicos.

Não é disso que nos fala o Espaço Açores, herdeiro do Bambino d’Oro, mas cuja lista desenvolveu uma agradável sabedoria onde se mistura a vontade de agradar a paladares modernos e a ideia de conservar o essencial de uma carta açoriana, de marca muito micaelense, desde o universal queijo com pimenta da terra, às saborosas e suculentas lapas na grelha (regadas com um nadinha de limão galego, se houver), além das morcelas regionais, da salada de favas, ou dos carapauzinhos (os chicharrinhos de boa memória). Esta proposta de entradas é um portal que se abre sobre a simplicidade comovente da cozinha açoriana no seu conjunto, feita de ingredientes simples e muitas vezes pobres, mas a que o tempero ilhéu empresta sabedoria e alcance.

Um passeio pelos peixes mostra-nos a embaixada do mar dos Açores, desde logo no arroz de lapas, nas lulas guisadas (com o seu molho intenso, forte, acessível), o polvo “à regional” (que sempre me soube à ilha do Pico), a moreia e a abrótea, peixes-emblema do arquipélago, juntamente com o rocaz (uma verdadeira experiência a reter) ou o boca-negra, além da cavala, do atum ou do mero. Nesta altura, a linguiça com inhame, que vinha da mesa de entradas, já me tinha devolvido o estômago à condição mais sentimental; estava preparado para um alcatra à terceirense, mas, em gincana, passei pelo coelho bravo e aterrei no feijão assado – um primor: elegante, sedoso, com a secretíssima vibração das grandes cozinhas de família das ilhas. Um dos comensais estava ainda perdido em jogos contemplativos, mirando de alto o seu polvinho – um mimo, pensei, roubando um nico. Provei assim um no Pico, excelente, guisado, escuro, denso. Para terminar, recordando o bife do Alcides, em Ponta Delgada, testei o bife micaelense, muito suculento e firme, arredondado, volúvel como uma princesa das ilhas, saboroso.

Na hora das sobremesas, aguardei o meu pudim de maracujá, uma tentação permanente, mas a lista fornece outras opções, como o excelente queijo com doce de capucho (uma experiência a tentar, sem dúvida, caso não conheça), o pudim de chá, o pudim de coco ou o bolo de caramelo.

Estas coisas lembram-me momentos de intensa harmonia do mundo e uma velha aguardente do Pico, de há muitos anos. Na época, fumava-se nos restaurantes, e havia tempo para um “Beldina” micaelense, de tabaco maduro, ou, mais cosmopolita, para um robusto da Fábrica Estrela. Saí do restaurante com uma sensação de melancolia, que é o que me dá mal chego aos Açores. Depois, sobrevém uma alegria intensa. E é a vida.
Assim me despeço.

À Lupa
Vinhos: ***
Digestivos: ***
Acesso: ***
Decoração: ***
Serviço: ***
Acolhimento: ****
Mesa: ****
Ruído da sala: ** *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 47
Vinhos brancos: 16
Aguardentes: 14
Colheitas tardias & moscatéis: 8
Portos & Madeiras: 12
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: sim
Estacionamento: relativamente fácil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: à noite
Preço médio: 18 euros

Espaço Açores
Largo da Boa Hora (Junto ao Mercado da Ajuda)
1300 – 098 Lisboa
Tel. 21 364 08 81

in Revista Notícias Sábado – 5 Janeiro 2008

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dezembro 22, 2007

Ponto e vírgula, o Tejo


De memória, o cronista acha que já chegou mesmo o frio do Inverno. Mesmo assim, o rio é o rio.

O que acaba, acaba – o Outono, por exemplo, para não mencionar desgraças menos ocasio­nais. E os passeios crepusculares junto do Tejo. E o que vai por essa lista fora. Tendo saído recentemente uma edição da "Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin (tem o prefácio de Alfredo Saramago), entretive-me a anotar pági­nas, a separar citações, sublinhados, devaneios – sabemos tão pouco, distraímo-nos tanto, julgamo-nos tão acertados quando emitimos uma opinião. E, na verdade, se tudo vem em Aristóteles, e se tudo vem em Homero, e se tudo vem no passado, meditemos sobre o refogado, por exemplo - a arte de preparar a cama dos ali­mentos, de os receber com uma breve fritura para realçar as texturas e não deixar que percam substância no seu interior. Coisa tão antiga e tão inovadora todos os dias.

Mas hoje não me puxem pela imaginação, que está pobre. Acontece. Nem sempre o delírio do cronista segue a caminho do restaurante, ou do restaurante para casa, com aquele ademane do toureiro que acaba a 'faena' e não sabe se triun­fou. Ventos há, como escrevia o saudoso Nuno Bragança, que empurram outros ventos, recor­dações, memórias, traições, epifanias. O cronis­ta tem o direito de ser um romântico em busca de redenção e de uma originalidade que não tem a ver com a realidade propriamente dita. Pede-se-lhe rigor absoluto, uma espécie de prática científica, um resto de aprendiz de alquimista ou, pelo menos, alguém que revele os segredos das fusões químicas, mencionando legumes no ponto, carnes suculentas, peixes que permitem conversa. Mas há sabores que nos traem. O de uma terrina de foie gras com queijo de figo, por exemplo, se eu fosse voraz e não pen­sasse noutra coisa. Penso. O VírGula obriga-nos a pensar noutras coisas, mesmo diante do Tejo, seja Inverno ou Verão, haja luz ou neblina: na delicadeza e no prazer.

A mim lembra-me também Agustina Bessa-Luís e um dos seus títulos, ‘Prazer e Glória’, gente que passa e se enternece diante dos choquinhos com raviolli negros, da abrótea arrepiada com xerém de amêijoa, tanto como pode escolher a bochecha de vaca estufada em vinho tinto, com boletos e espargos ou o entrecôte de novilho, milho frito e esparregado. Há, na cozinha do VírGula, uma tentação do abismo que não larga as suas margens, a derradeira amarra que nos impede de sucumbir e saltar das alturas.

O que se pode dizer diante de croquetes de beringela, de queijo da ilha assado com pão alentejano, molho virgem e maçã bravo de esmolfe com cogumelos e espargos, ovo trufado e pata negra? Que de seguida se há-de escrever um soneto, uma alegoria cheia de intuições. As escolhas sucedem-se, a lista é vasta mas con­densa o espírito da própria estação do ano, abandonando pratos frescos e reenviando-nos ao frio do tempo: onde o bacalhau fresco fez as delícias do Verão, há agora costela de leitão com puré de castanhas com aquela massinha de abóbora que se desfaz na língua, na companhia de um dos quase duzentos vinhos à disposição – uma "carta eleita", mais do que uma carta escolhida.

Esperemos pela sobremesa, nem que seja para a citar de memória, a começar pelo fofo de chocolate amargo com maçã caramelizada e gelado de café ou do creme brûlée de abóbora com gelado de nozes e da amostra daquela outra massa, brilhante e sinfónica, dos cinco chocolates disponíveis para a nossa gula, sem vírgula. O parfait de maracujá, provado em outra oca­sião, é excelente.

Depois, vem a visão do rio, espaçoso e livre, cheio de ondulação. A terra equilibra-se, mesmo depois de pagar a conta, porque a experiência foi boa e pecaminosa, cheia de tentações. Muito bem, aplaudo.

À Lupa
Vinhos: * * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 115
Vinhos brancos: 54
Vinhos verdes: 6
Porto e Madeiras: 20
Uísques: 16
Aguardentes portuguesas: 18
Colheitas tardias e moscatéis: 8

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: relativamente fácil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 45 Euros

VírGULA
Rua Cintura do Porto, 16
Armazém B (ao Cais do Sodré)
1200-109 Lisboa
Tel: 21 343 20 02
Encerra aos Domingos

in Revista Notícias Sábado – 22 Dezembro 2007

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dezembro 15, 2007

Saudades do Brasil


O cronista, quando se lhe fala do Brasil, tem um problema: escreve, escreve, escreve...

Deviam proibir-me de escrever sobre o Brasil, porque uma comoção qualquer toma conta de mim e a idade não perdoa. Desculpem a formulação, mas é assim. A comida brasileira é uma dessas alíneas, uma espécie de pequena explosão que invoca coração, estômago, dedos, papilas, memória, o que quiserem – mas é a conjugação desses factores que deixa ferver a imaginação.

Recentemente, fiz uma incursão pela comida minei­ra, justamente numa das suas capitais, a vetusta Ouro Preto (se bem que em Tiradentes exista uma das maiores concentrações de excelentes chefes por metro quadrado). Foi um festival absoluto, com o simples frango com quiabos; a monumentalidade do tutu de feijão (que não é apenas paulista) e do feijão tropeiro (com ovo frito sobreposto ao barroco de carnes e legumes); a textura suculenta dos seus enso­pados (o de frango ou de aba de costela) e doces fatais. Pessoalmente, provei de tudo: os pratos de boteco no Rio de Janeiro; os excessos novecentístas da culinária paulista; o império de pratinhos baianos de mar e terra, com as suas moquecas, feijões, cozi­dos, mocotós, seja o que for; a especiosa moqueca capixaba, do Espírito Santo; a cozinha de inspiração portuguesa do Rio Grande do Sul; os peixes do Amazonas, fritos (tambaqui, pirapitinga, aruanã, pirarucu, bicuda, jacundá, traíra, pirarara, ou tucunaré), ou os do Araguaia; as carnes do Sul em fogo de chão, na serra gaúcha, ou os seus galetos "al primo canto"; as farinhas e fusões pernambucanas.

Por isso, quando alguém me diz "esta é a verdadeira cozinha do Brasil", ou "esta é a verdadeira música do Brasil", ou "esta é a verdadeira feijoada brasileira", digamos que tremo de indignação. Não existe Brasil, propriamente dito - mas Brasis, como ficou escrito em parte da literatura portuguesa do século XIX: os Brasis, esse continente de extensões e declives, de chapadas e de planaltos, do pampa às florestas, como escreve o grande Euclydes da Cunha, um dos grandes mestres da nossa língua. Vejam como começa "Os Sertões": "O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que des­camba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior."

E fomos ao Comida de Santo, uma casa histórica de referência para o Brasil e para a comida baiana, a dois passos do Príncipe Real, evocando a memória da paixão brasileira de António José Pinto Coelho, o seu criador nos anos oitenta. E desfilam, então, as moquecas de camarão ou de peixe, fervilhando no seu molho de azeite dendê, os ensopadinhos de camarão e de peixe com leite de coco, o vatapá bem baiano, enlaçado com o bobó de camarão, o virado paulista (com o tutu de feijão, evidentemente), o camarão com catupiry e (ah!, senhores e senhoras!) a mais brutal saudação à cozinha doméstica e histórica dos lares brasileiros, tão gabada por Nelson Rodrigues, o ensopadinho de abóbora com carne de sol (o meu prato brasileiro preferido, se for bem preparado) - além da carne de sol acebolada, da feijoada, do xinxim de galinha ou do picadinho à mineira. Todos estes pratos são, para mim, música celestial – tradicionais, intensos, perfumados, evocativos, triunfais, terminando com uma prova de quindim, de bananada ou de pudim de aipim.

A minha opinião está toldada pela saudade e não é um alto momento do meu julgamento porque, além do mais, aparecem, juntamente com as comi­das, lembranças das cervejas locais, da Bohemia Weiss à Baden-Baden, da Schmitt à La Brunette, da Devassa à Eisenbahn e à Cerpa. Infelizmente não se apanham cá.

É preciso dizer que o Comida de Santo não é "um restaurante de comida brasilei­ra", partindo do princípio de que a comida brasileira não existe (em seu lugar, um carrossel de designações: paulista, baiana, gaúcha, mineira, etc.) – mas o seu, digamos, "paradigma", transporta o ideal de uma culinária caseira e intensa, verdadeira, que terá os seus detractores e os seus amadores fiéis. Considerem-me entre os segundos.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 47
Vinhos brancos: 16
Vinhos verdes: 6
Portos & Madeiras: 4
Uísques: 14
Aguardentes portuguesas: 10

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: à noite
Preço médio: 25 Euros

COMIDA DE SANTO
Calçada Engenheiro Miguel Pais, 39
1200-172 Lisboa
Tel. 21 396 33 39

in Revista Notícias Sábado – 15 Dezembro 2007

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dezembro 08, 2007

Viajar e comer em Dezembro


Um restaurante que evoca as nostalgias das grandes viagens de Verão é o que convém nesta entrada do Inverno.

A vida está cara. Nero Wolfe, o detective de Rex Stout, aquele imenso detective de 140 quilos cujas histórias são narradas pelo seu adjunto Archie Goodwin, acordou um dia com essa impressão: a vida está cara. Ele queria simular um estado tran­sitório de loucura de modo a não ser detido pelo sargento Cramer, o detective-chefe da NYPD. "A vida está cara", murmurava ele, e enumerava os preços da cerveja, do pão, do faisão, do caviar, das ovas de sável, do esturjão inteiro que vinha do Cáspio. A vida está cara.

Muitas vezes apetece-me vestir a pele de Nero Wolfe (sou ligeiramente mais magro) e enumerar patetices caras. Por exemplo, não compreendo como é possí­vel certos restaurantes serem tão caros como de facto são. Há restaurantes onde vamos uma, duas vezes por ano. Há outros onde gostamos de ir mais amiúde, e podemos. Mas não é legítimo acreditar que, digamos, uma família com rendimentos médios (médios, eu escrevi médios) possa frequentar os restaurantes do seu agrado com a frequência que também seria legítima. A vida está cara. Restaurante que ultrapasse os 15 euros de preço médio ainda não é restaurante com preços médios; os preços de um restaurante onde valha a pena ir (para ser bem servido, para comer razoavelmente, para que não lhe entornem estricnina nas ostras, para que não lhe sirvam 'sundaes' do McDonalds e para que suba um nadinha o padrão do dia-a-dia) começam na tabela dos 20 euros. O leitor que leve a família a um jantar de sába­do, desses que começam na tabela dos 20 euros, e depois me conte como passa o resto do mês. Tenha coragem e escreva sobre o assunto. Escreva-me a mim e ao senhor primeiro-ministro, já agora. O leitor desculpará que eu diga estas coisas na aber­tura da quadra natalícia, porque a fila para as lojas e para o supermercado já está a engrossar.

E, para espai­recer, nada melhor do que comer uns lombinhos de porco ibérico marinados em pimentão, ou um caril de camarão, ou uma cachupa, ou um polvo à bordalesa, ou uns fofíssimos sonhos de bacalhau com arroz de feijão, depois de uma entrada de farinheira com ovos mexidos. Tremeu alguma coisa aí, onde ficam as papilas? Ou mais acima, no cérebro? Ou mais abaixo, no estômago? Estes são os pratos principais do Maria Moranga, um novo restaurante lisboeta, ali paredes meias com a Calçada da Estrela e o caminho para as colinas que descem do Príncipe Real (é uma maneira de dizer).

Os tons do restaurante são muito acolhedores, em laranja, vermelho, madeiras, enfim, agradáveis à vista e ligeiramente africanos, pelo comprido, sem prometer cozinha de ultrapassagem pela esquerda. O caril de camarão é, de facto, muito bom, e os sonhos de bacalhau, como eu escrevi, são fofos, pataniscas suaves, com bacalhau verdadeiro - o arroz de feijão precisa de um caldo mais cremoso, mas até é muito aceitável no clima geral de incompetência que grassa nos nossos restaurantes quando se trata de servir os arrozes tradicionais (tomate, feijão, grelos, couve...).

A proposta é muito luso-tropicalista, de influências viajantes, entre Portugal e o Brasil (camarão na moranga, aboborinha, por exemplo, que terá de pedir com antecedência, ou picanha fatiada), entre Cuba e o Mediterrâneo (espetada de frango com cuscuz), entre Cabo Verde (a cachupa ficará para a próxima) e Portugal de novo (bacalhau com crosta de broa), passando pelo entrecote à parisiense, e até pelas bebidas, que apresentam a proposta de sangria e de caipirinha. Boa ideia, portanto, para nostálgi­cos dessas viagens - sem abdicar de uma cozinha saborosa e suculenta, que nunca é desajeitada nem deselegante. O petit gateau, formosura de chocola­te, era muito acima do razoável, e as duas mousses da minha eleição (a de manga e de maracujá) estavam lá, ombreando com a de chocolate, muito boa. Lá iremos de novo. Com a família inteira.

À Lupa
Vinhos: * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 40
Vinhos brancos: 16
Portos & Madeiras: 8
Aguardentes portuguesas: 10
Uísques: 14

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável ao jantar
Preço médio: 18 Euros

MARIA MORANGA
Rua Cruz de Poiais, 89
1200-001 Lisboa
Tel: 967 825 023

in Revista Notícias Sábado – 8 Dezembro 2007

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dezembro 01, 2007

Fartar a memória


Ainda no Bairro Alto, um lugar saboroso para evocar as coisas de antigamente.

Parece uma manhã tranquila – e é. Mas, ao meio-dia e meia, se não fosse estarem abertas as portas de muitas lojas e de muitos restaurantes, dir-se-ia que era manhã bem cedo. O Bairro Alto já não tem “o bulício de outrora”, pelo menos a esta hora. Para mim é Inverno, digam o que disserem: sinto o primeiro frio do ano, verdadeiramente, quando subo do Cais do Sodré para o Largo de Camões e, daí, procuro a Rua das Gáveas e, depois, a Rua do Norte. Os adolescentes da noite anterior deixaram o bairro de madrugada, entregue à depredação, mas há lugares castiços que resistem.

Pepe Carvalho, o de Vázquez Montalbán, sentiria isso na sua Barcelona, percorrendo as velhas ruas dos mercados e todo o Bairro Gótico – mas aqui não vejo grande sinal de limpeza. Lisboa continua relativamente suja e a pergunta faz sentido: Lisboa está suja porque não a limpam ou porque os lisboetas a sujam?

Ao contrário de Carvalho, não tenho a nostalgia dos velhos bairros, nem dos velhos vícios, nem dos velhos cheiros, nem das coisas que terminam. Terminam e pronto, chegam ao fim. Velhas tabernas são substituídas por restaurantes chinfrins ou por bons restaurantes, oficinas de reparação de móveis são tomadas por lojas de roupa em segunda mão, por lojas de discos, por “lounges” (tudo é “lounge”, desde a música à sala de estar e aos bares minimais), mas não se me aguça a nostalgia. Há, simplesmente, coisas que acabam. Procuro as que sobrevivem, como um pesquisador que vem à velha cidade com as memórias dos outros.

Por exemplo, a de José Saramago – que neste restaurante negociou com Fernando Meirelles o essencial do filme “Ensaio sobre a Cegueira”, enquanto comiam bacalhau à Braz e bacalhau no forno com pimento e azeitonas. E a de José Cardoso Pires, que neste restaurante apreciava as “costeletas de sardinha”; tempos antes de morrer, numa noite de felicidade, esteve aqui o mágico criador de “O Delfim” e de “Alexandra Alpha”, até depois das quatro da manhã, festejando a vida que iria marcar-lhe um termo de identidade e residência. Enquanto escolho os pratos, mostram-me (com um gesto de grande ternura por José Cardoso Pires) o autógrafo do escritor, a sua letra e o desenho que gostava de praticar. Recordo um jantar tardio com ele: os vinhos, a inteligência, a malandrice, o desprezo pela literatice, o prazer das coisas substantivas, essenciais, humaníssimas.

A sala é relativamente pequena mas acolhedora, e o Farta-Brutos colecciona, nas suas paredes, memórias dos seus amigos. É a sua família. A do Tavares Pobre. Honremo-la. É a sua família. Gosto de restaurantes que têm a sua família, os clientes que reservam a sua garrafa, que são informados sobre a ementa do dia seguinte, que tratam o Sr. Ramiro por Ramiro e que deixam o jornal sobre a mesa quando se vão embora.
Primeiro, vem um queijo gratinado no forno; há ali um excesso de ervas, e eu ganhei um cansaço pelos orégãos – mas a proposta é generosa, e o pão é saboroso. Pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, filetes de polvo, arroz de pato, um cabrito no forno, rojões, arroz de marisco, iscas e cabidela, coelho frito com açorda. Vamos nisso, como nos fadinhos de Hermínia: vamos nisso. Primeiro, as costeletas de sardinha, em homenagem a José Cardoso Pires: os filetes foram temperados com limão, panados suavemente, fritos no ponto – e acompanhados de arroz de tomate, que está bom e não é, como hoje em dia, ou devorado pela massa de polpa de tomate, ou pontilhado de pedaços de tomate que não quis desintegrar-se. Não: é um bom arroz de tomate, feito com tomate, para ser comido às garfadinhas. Segue-se, na ordem de chegada, um prato excêntrico: coelho frito. Bem frito e bem temperado, e bem cortado, enlaçado com a travessinha de açorda, que vai bem e merece aplauso. Hoje em dia, há uma crise nos acompanhamentos, com arroz de grelos sem grelos, açorda que passa por ser pão embebido em água fervente, batata cozida que parece arrancada ao caldeirão, pingando.

Finalmente, só por pudor não ataco os papos d’anjo, que vêm num carrinho onde há leite-creme e arroz doce, cousas fatais para o cronista. O café soube a café neste princípio de tarde luminoso de Inverno (é Inverno, já disse). Até o Bairro Alto melhorou quando saio e encontro a luz de Novembro.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: ***
Decoração: * * *
Serviço: ** *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 72
Vinhos brancos: 36
Aguardentes portuguesas: 18
Portos & Madeiras: 12
Uísques: 22

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável ao jantar
Preço médio: 27 euros

Farta-Brutos
Travessa da Espera, 20
1200-176 Lisboa
Telefone: 213 426 756
Encerra aos domingos

in Revista Notícias Sábado – 1 Dezembro 2007


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novembro 24, 2007

A esperança mantém-se


Depois de uma jornada de fúria contra as autoridades alimentares, o cronista foi ao Bairro Alto. E regressou vivo.

Tiram-nos cada vez mais coisas. Não é por maldade, mas por vício e distracção. Como referiu Gonçalo dos Reis Torgal (numa saborosa interven­ção intitulada "Quem não comeu já não come", apresentada na Figueira da Foz sob os auspícios das confrarias do Sável e da Lampreia e da Vitela Barrosã), nós não dissemos nada quando começa­ram a roubar-nos o que não devíamos ter deixado que nos roubassem. Digo-vos que é um texto notá­vel, onde se faz um levantamento dos assaltos que as autoridades (e, entre elas, a ASAE) fazem ao nosso estômago e à nossa liberdade.

Se Camilo José Cela lembrava que os motores da acção humana se relacionavam sempre ou com a vontade de poder, ou com o estômago ou com o sexo, pois concordemos que estamos numa encru­zilhada civilizacional. Explico porquê. A ideia de poder (que Cela enunciava de modo mais cru, como "vontade de mando") já nos não pertence; o que o nosso estômago vai trabalhando, há-de ser decidido cada vez mais pelas autoridades e pelos dietistas ou pelos estetas; o sexo, ah, o sexo, há-de vir a ser regulado superiormente – basta esperar – para que não seja selvagem. Riam, riam de mim; mas mostrem-me a lampreia de antanho, a que subia os rios e não era criada em viveiro (importa­da do Canadá, senhores), mostrem-me o velho bacalhau de cura amarela secado ao vento, mos­trem-me os pães onde o pequeno guiço de pinhei­ro, carbonizado, lembrava o vetusto forno onde a farinha levedada ganhava carácter e era sacrificada.

"Não há volta a dar-lhe", lembrava um amigo ainda mais céptico do que eu. E citava: "Quem não comeu já não come." Entristecemos os dois. Entristece uma geração cujo estômago ainda foi mimado com molhos ancestrais e vinhos frescos, com queijos comprados em quintas e peixe que desconhecia as paredes do aquário, com arroz do Mondego e centeio do nobre e frio Barroso, com batatas que não vinham da Holanda e bacalhau que não era perseguido pelas autoridades.

E, até, com um Bairro Alto que não estava entregue (aqui começa a minha alarvidade reaccionária) à fauna grotesca que lhe caga as paredes e as ruas, espalhando seringas e beatas de charros de baixa qualidade, entre álcool adulterado e vestuário "gótico" de quem não lava o cabelo nem o buço, misturando cachorros em pão sintético e lixo semeado durante a noite. Não tendo a nostalgia do Bairro Alto, vou pelas suas ruas sem aqueles arrou­bos românticos de cantores vagamente "kitsch", limito-me a procurar o endereço do restaurante Esperança, na Rua do Norte, para um almoço sim­ples "em ambiente sofisticado", como me tinham prometido. Aí vou eu, entrando, para comer um "risotto di funghi porcini", que me apetecia.

O Esperança, aberto num antigo espaço de taberna e mercearia, foi recuperado a preceito e é um espa­ço agradável e sereno, sobretudo à hora de almoço, com poucos comensais. Cardápio curto e apropria­do para digestões simples – com uma lista de pizzas a ocupar uma página inteira, e de que me não ocupo. Prefiro as pastas, ali distribuídas por "penne" com cogumelos, o já habitual e populari­zado "spaghetti nero e gamberi", uns supimpas "penne bresaola, pomodoro e funghi", os "linguini pomodoro zucchine e ricota", os "tagliatelle" com "aglio, olio, peperoncino e pomodoro seco". Diante desta frugalidade, fazer o quê? Comer. O meu apetite estava encalhado logo nas entradas, onde pontificavam um queijos grelhados na chapa, muito suculentos. À minha volta, pós-adolescentes comiam pizza e gabavam-lhe o ar estaladiço, eu compreendo-os: não tinham espinhas. O ambiente tranquilo e a decoração, com mármores e madeiras, convidaram-me a provar o "carpaccio" de polvo, temperado com gosto e suavidade (havia, também, "carpaccios" de mero, de bacalhau, de novilho e de espadarte), para o que usei mais os olhos do que o estômago. Os "tagliatelle" estavam naquele ponto ideal de abertura metafísica, belíssi­mos – o café final era bom. A minha irritação acer­ca do Bairro Alto retrocedeu um pouco.

Para a semana mudo de digestão e entrarei no Farta-Brutos, ainda no Bairro Alto lisboeta, em busca de coisas violentas.

À Lupa
Vinhos: * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * *
Mesa: * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 28
Vinhos brancos: 16
Aguardentes portuguesas: 6
Uísques: 12

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: muito difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável ao almoço
Preço médio: 25 Euros

RESTAURANTE ESPERANÇA
Rua do Norte 95 - Lisboa [Bairro Alto]
Tel: 21 343 20 27
Encerra 2a e 3a à hora de almoço

in Revista Notícias Sábado – 24 Novembro 2007

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novembro 17, 2007

Coisas simpáticas


O cronista em caminhada por Campo de Ourique até regressar a um lugar simpático e carismático do bairro.

Regressado de uma viagem pelos trópicos – curta mas, como convém dizer, incisiva –, retomei o hábito de almoçar cedo. A maior parte dos meus amigos almoça tarde; eu gosto de almoçar cedo. Digamos que entre o meio-dia e meia e a uma hora; é a hora em que o apetite estaciona à porta do estô­mago e as papilas ainda não estão zangadas nem far­tas de nos aturar. Depois de uma semana sem fumar, as papilas estão a realizar um esforço suplementar para reconhecer o seu lugar à mesa. Antes disso, fui à Garrafeira de Campo de Ourique visitar as prateleiras dos vinhos do Douro e das 'grappas' italianas, em busca de um tinto para festejar (não sei bem o quê) e de uma Nonino legítima (desta vez uma 'moscatto', para alternar com a 'chardonnay' habitual, alvíssima e perfumada) – e entrei na Charcutaria às 12h40. É o meu conselho idiota da semana: almoce cedo e indis­ponha-se contra o país que almoça tarde e devora com sofreguidão.

Sala minúscula, chão de calçada portuguesa. Era assim que se devia sentir Alice quando atravessou o espelho, num mundo reduzido mas arrumado, silencioso, antes de chegar a multidão almoçadeira. Na generalidade dos restaurantes olham bastante para os que vão almoçar cedo; não sei se é por prefe­rirmos almoçar cedo, se é porque ainda têm tempo para olhar. No meu caso, bastaram-me as duas empadinhas miniatura de galinha, a tacinha de patê e as fatias de bom pão de forma, caseiro e a cheirar a pão. Pedi uma cerveja para equilibrar os sucos do estôma­go e refrescar a garganta, antes de enumerar a lista dos bacalhaus: assado com batatas a murro, à Brás, espiritual (no caso da Charcutaria, tem uns camarões a coroar o gratinado), com natas e coentros, ou envolvido no 'risotto' (que também pode ser de camarão). Depois dos bacalhaus, uma série de peixes e afins – à Bulhão Pato (tratado como Bolhão), filetes com arroz de tomate e coentros, esparguete com amêijoas, polvo grelhado com batatas a murro (muito suculento, já tinha comido antes, de outras vezes), esparguete negro (de choco) com camarões - e uma lista de sopas: a de tomate com peixe e ovo escalfado, a de beldroegas com ovo e queijo de cabra, a canja de perdiz.

Seja, entremos nas carnes: pezinhos de coentrada, pastéis de massa tenra com arroz de grelos, secretos de porco preto com migas de bata­ta e couve, croquetes de lombo com arroz branco, ensopado de borrego, bife à Marrare, lebre com feijão, arroz de lebre, alheira de caça com grelos salteados, empada de galinha com salada de rúcola, perdiz com lombarda, empada de perdiz, que sei eu – a lista parece interminável numa casa tão pequena, cerca de doze mesas equilibradas com boa frequência, tirando as famílias tradicionais de Campo de Ourique que vêm buscar almoço para casa. Aprecio esse estatuto: vir buscar o almoço, enquanto se espera junto do balcão onde se guardam saladas de favinhas, lombos de rosbife, e se divisam as sobremesas mais tradicionais - além do bolo do chocolate (uma mousse que vai ao forno até garantir a sua carapaça crocante), a sericaia, o bolo de requei­jão, a encharcada, as trouxas de ovos, a bolacha de noz com doce de ovos.

Desta vez, comemos os secretos e os pastéis de massa tenra. A condizer com a casa, as doses também são pequenas mas equilibradas. Os secretos estavam maneirinhos, preferindo o tempero de coentros e alho em lugar da massa de pimentão, muito saboro­sos, mas as migas de batata e couve não passaram no exame, eram uma mistura de ambas as coisas mas sem serem migadas. O mesmo aconteceu ao arroz de grelos, a que faltavam grelos e aquela cor verde e suculenta, aquela orgia de cereal e legumes; acom­panhava os pastéis de massa tenra, cujo recheio era generoso e saboroso, cheio de odores mal se cortava a carapaça, com uma massa frágil, leve, educada.

Bebemos os cafés depois das sobremesas, muito aprazíveis. Reparei que não havia fumadores nas mesas em redor – e eu continuava sem fumar, com a vantagem de (ao contrário do Diogo Infante, meu malandro) não ser pago para isso. Num último momento, não resisti e encomendei uma Ramos Pinto, aguardente de eleição, com o segundo café. Caminhei até ao Jardim da Parada aproveitando o que resta da tepidez do Outono, sonhando com um terraço dependurado sobre as montanhas e um cadeirão para me sentar a fumar um charuto. Uma semana de estoicismo para isto.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 42
Vinhos brancos: 12
Espumantes & Champanhes: 5
Portos & Madeiras: 1
Uísques: 16
Aguardentes & Conhaques: 5

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: há parque público
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável ao almoço
Preço médio: 20 Euros

RESTAURANTE CHARCUTARIA
Rua Coelho da Rocha, 97
1350 Lisboa
Tel. 21 3969724
Encerra aos domingos e feriados

in Revista Notícias Sábado – 17 Novembro 2007


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novembro 10, 2007

Já chegámos à Madeira


O Madeirense, em Lisboa, é um reduto histórico da cozinha da ilha. Mesmo com o passar dos anos, há ali um aroma de simpatia.

O grande problema dos que gostam de cozinha chinesa é a existência de restaurantes chi­neses, se me faço entender: nunca estão satisfeitos. Imagine-se alguém que goste verdadeiramente de cozinha mexicana; pois levem-no a um restauran­te mexicano se querem vê-lo furioso: "Não, este não é o verdadeiro escabeche de Campeche, falta-lhe o 'achiote', falta-lhe aquele cominho." Em cada um de nós, adormecido e refastelado, há um fundamentalista. Nunca estamos satisfeitos. Falta sem­pre aquela coisa, "que só existe lá".

Pior do que isto só o tema "daquele restaurante que ninguém conhece". Aquele, pequenino, escondi­do, na rua tal. Ah, o tal? Não, do outro lado da rua, exactamente do outro lado, em frente a esse. Conheces aquela tasquinha, em – imaginemos -Freixo de Espada-à-Cinta, que serve um arroz de forno? Claro que conheço, é aquele. Não, não é, é uma rua abaixo, logo vi que ninguém conhece, só quem conhece muito bem o lugar é que consegue chegar lá.

Além do fundamentalista, existe, portanto, o geó­grafo de becos. O geógrafo de becos desvaloriza tudo o que esteja numa rua principal e é muito amigo do paleontólogo – que é inimigo de todos os restaurantes que não usem "os ingredientes origi­nais" ou, pelo menos, "aquela receita original". Pois, meus amigos, ninguém é realmente assim. Por detrás desse radicalismo de anedota, existe um ser humano naturalmente mentiroso. À melhor oportunidade encontramo-lo num Kentucky Fried Chicken, como qualquer cidadão que aprecia os 'sundaes' do McDonald’s.

Portanto, como o mundo é mundo, fui ao Madeirense comer pataniscas de bacalhau com arroz de feijão. O fundamentalista, envergonhado e indignado: "No Madeirense? Mas n'O Madeirense come-se espetada em pau de louro!"
Sim, mas os madeirenses, que também são gente, comem pataniscas e sabem fazê-las. Eu fui. O cabri­to assado no forno à moda do pastor é também muito indicado (às terças), tal como os pastéis de bacalhau (às sextas) e o cozido à portuguesa (às quintas, dia tradicional).

Instalado no Amoreiras Shopping, encontra-se lá um resumo da gastrono­mia básica portuguesa; além dos pratos menciona­dos, o arroz de pato (às segundas), o polvo à laga­reiro, o bife à Marrare, o bacalhau no forno – ao lado de sugestões essencialmente madeirenses (além das sopas: a de peixe, a de tomate e cebola e a açorda à madeirense). São elas as inevitáveis variantes dos filetes de peixe-espada com banana e maracujá, em vinha-d'alhos, com frutas e caril, com frutas e natas (hélas!), em cebolada ou com limão, terminando com uns rolinhos de espada com champanhe, que ainda não provei. Os meus preferidos: com cebolada e em vinha-d'alhos, como se sabia antes. Está na cara, não? Sou tam­bém adepto dos bifes de atum, de cebolada ou com molho vilão, desde que a generosidade da casa me proporcione uma quantidade substancial de milho frito. Molhar aqueles pedacinhos de milho frito (a nossa polenta) no molho vilão é – pessoalmente – um espectáculo dantesco. Sou fã. Eles sabem. No capítulo das carnes (passando de alto pelas gambas panadas ou fritas, com arroz - símbolo da simplicidade e da cozinha doméstica), chegamos então à espetada de lombo em pau de louro. Nada a dizer: pureza extrema, carne saborosa, absorven­do os odores de alho e louro. A carne em vinho e alhos com laranja é mais tradicional tal como o lombo assado com mel de cana ou o meu frango frito de vinho e alhos. Há ainda uma dezena de bifes à disposição – desde o simples "do lombo na brasa" até "com cogumelos", "de cebolada", "à portuguesa" ou "com gambas e natas", porque todos temos uma hipótese de errar.

Ao pedir o café, aparece milagrosamente um pastel de nata no pratinho, o que é muito boa lembrança. E dirá o fundamentalista: "E as sobremesas da Madeira?" Estão lá. Estou a pensar nos bifes de atum e nos cubinhos de milho, não me incomodem. Mas, por favor, à entrada sentem-se um pouco e provem um gin daqueles. E agradeçam ao Manuel Fernandes. Ele e O Madeirense são uma e a mesma coisa.

À Lupa

Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 78
Vinhos brancos: 36
Espumantes & Champanhes: 10
Aguardentes portuguesas: 18
Colheitas tardias e moscatéis: 8
Portos & Madeiras: 30
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: fácil, no parque no Shopping
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável ao almoço
Preço médio: 25 Euros

O MADEIRENSE
Centra Comercial Amoreiras - Loja 3027
Avenida Eng. Duarte Pacheco - Lisboa
Tel: 213830 827
Encerra aos domingos

in Revista Notícias Sábado – 10 Novembro 2007


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novembro 03, 2007

Regresso ao Minho


Sobre o vale, espreitando o rio, o cronista terminou o jantar recompensado e passeou pela varanda da Casa das Velhas.

O Minho parece um subcontinente – ou uma espécie de principado, um enclave com bandei­ra própria. Retirem o exagero à afirmação e fiquemos com o essencial. Em matéria gastro­nómica, por mais que os cardápios se repitam, há uma grandiosidade temática que não precisa de variações para se reerguer e merecer entrar no quadro de honra à primeira chamada. Amigos meus sustentam que se trata de uma obsessão e eu vou, paulatinamente, encaminhando este e aquele para este e para aquele restaurante. Meses depois, semanas depois, ainda bradam aos céus. Há uma grande percentagem de restau­rantes aprazíveis; digamos que a sua densidade é muito agradável de registar e que se aproxima muito daquele microcosmos que é a paisagem de restaurantes em Matosinhos: são, em geral, lugares onde se come bem.

Eu sei que o leitor gostava que eu me perdesse agora, e mal, a definir o que é "comer bem". Nessa não caio. Vá lá e comprove.

O Minho tem uma vantagem adicional: nesta altura do ano, quando as paisagens gerais das nossas províncias entristecem, acumulando "les feuilles mortes", as colinas do Minho conti­nuam verdes, as suas montanhas continuam as mesmas. Lembra-se o leitor quando, em 'A Cidade e as Serras', Jacinto e Zé Fernandes sobem da estação de Tormes para o casarão do Príncipe? Pois o Minho tem coisas dessas todo o ano. Com esta vantagem: se o verde o cansa muito, pode olhar para outro lado. Por exemplo, se estiver sentado a uma das mesas da Casa das Velhas, esse cenário varia consoante virar a cabeça da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita, olhando o rio correr ao fundo como uma miragem. Pode começar por um vinho lá fora antes de aproveitar a aragem de Outono na sala do interior. Pode começar por apreciar a paisagem.

E pode, depois, sentar-se a jantar, que vale a pena – bacalhau, supimpa, à lagareiro, muito bem demolhado, com fios soltando-se nesse caminho tortuoso do garfo sobre o lombo gelatinoso, ou suculento, sob um manto de suavíssimo creme gratinado. É uma boa experiência, venha o bacalhau de onde vier, e este vem depois de bem escolhido e bem preparado. Há os amantes do polvo, também grelhado, que, embora me ande a cansar, promete mundos desconhecidos para o cidadão comum, habituado a penar entre polvinhos pré-congelados e mal descongelados. Este é bom e suave, macio. Nota alta. O cabrito à serra de Arga, vindo do forno, rescende – e transcende. Sucumbe-se a esse ar do tempo, a esse perfume combinatório vindo da arte de cozinhar o cabrito desta maneira, com as suas batatinhas farinhentas e uma pequena dose de grelos pedida à parte. Da peça, inteira, sobraram umas pequenas costeletas, que foram grelhadas para nosso benefício, ligeiramente pinceladas, muito apreciáveis, além da sugestão da posta mirandesa, do arroz de pato, dos lombinhos na brasa, da cabidela ou do entrecosto de javali. O cardápio é tradicional mas a beleza do lugar empresta-lhe alguma sua­vidade concentrada; aproveite – e respire aquele ar, veja as cores do rio a desfazerem-se no vale, bordado de choupos, freixos, hortas e da proxi­midade do mar, lá ao fundo.

Enquanto isso aproxima-se a sobremesa; repito a dose da última visita: pudim do abade de Priscos, como seda, perfeitinho; provo o leite-creme vizinho e o pudim de laranja, que me arranca à necessidade de um café e de um álcool terminal, quase soporífero. Na varanda há ainda uma aragem que arrasta consigo a leve tepidez do Outono; como um patriarca abando­nado por instantes pela família, que conversa entretida, saboreio aquele charuto providencial. Murmuro coisas sem sentido, sabendo que isto, às vezes, é o sentido que a vida tem: um lugar, um sabor, uma visão do vale, o arvoredo que renasce na serra. Voltaremos.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 86
Vinhos brancos: 22
Aguardentes portuguesas: 14
Colheitas tardias e moscatéis: 2
Portos & Madeiras: 16
Uísques: 14

Outros dados

Charutos: não
Estacionamento: fácil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: ao fim-de-semana
Preço médio: 18 Euros

Casa das Velhas
Quinta Mineirinhas
4920-217 Vila Nova de Cerveira
Tel: 251 708 482
Não encerra

in Revista Notícias Sábado – 3 Novembro 2007


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outubro 27, 2007

Grande desejo de delicadeza


Um restaurante japonês de Lisboa fornece um bom argumento para falar de Scarlett Johansson. Há argumentos para tudo.

Outono, Outono: as primeiras chuvas vão e vêm, ainda ligeiras, ainda suaves - o céu, de cinza, relembra o de 'Lost in Translation', o filme onde quase todos os homens se apaixonaram por aque­la Scarlett Johansson perdida entre um quarto de hotel, uma noite de pesadelo e um marido idiota, para não falarmos do sempre magnífico Bill Murray, que se esforçava por não morrer de tédio em Tóquio. Escolham outra pessoa qualquer para falar de cinema – eu prefiro as personagens, os cli­mas e os cenários. E o clima de 'Lost in Translation' não tem a ver com meteorologia mas sim com uma ideia do absurdo que se vive quan­do não precisamos nada dele.

Comem nada, no filme. É uma pena. Scarlett Johansson havia de ficar bonita a trincar uma fatia de sashimi.

Outra coisa inteiramente diferente é a experiên­cia de Anthony Bourdain, o chef do luso-nova-iorquino Les Halles, quando vai ao Japão (a experiência está descrita em 'A Cook's Tour', um livro que não me canso de recomendar) e lhe preparam um jantar de duas dezenas de pratos e quatro gueixas, algures nas montanhas – um lugar ligeiramente próximo do paraíso depois de uma jornada cansativa. Alguém nos massaja os ombros, alguém canta – numa varanda de onde ainda se vêem cerejeiras em flor –, alguém nos cede o lugar, alguém nos recebe. E, depois, um prato subtil, um desenho no coração do prato, uma fotografia de anjos descendo sobre lagos onde há flores, sombras, penumbras, que sei eu. Poesia pura. A comida às vezes devia ser assim, apenas um desenho que só a curiosidade permi­te destruir, romper, refigurar, recompor.

Sonho muitas vezes com o Japão. Não com Tóquio mas com a poesia de Bashô, aquelas três intermináveis e curtíssimos versos que imitam o som da clepsidra, o do vento nos bosques, o das nuvens rodeando as montanhas – e lá aparece Scarlett Johansson, saindo de um comboio, entrando num templo. Um dos templos à nossa disposição em Lisboa pode ser o Assuka. Exagero meu. Mas compreende-se: o "sushi to sashimi", um misto de ambos, anda pelos 17 euros, o que não é muito se tivermos em conta que é uma introdução a essa delicadeza oriental do peixe cortado com curial inteligência. Mas quem não gosta de peixe cru? Pois pode ir ao Assuka na mesma. Há magníficas espetadas de frango, de salmão ou de gambas (panadinhas), além das especialidades da casa: "hiyashi chuka", a sala­da de algas, tomate, ovo, pepino, soja e carne; "sukiyaki", as tirinhas de carne de vaga grelhada, e acompanhadas de arros; "tonkatsu", um pana­do com arroz; "yakiniku", tirinhas de vaca para grelhar à mesa ou no balcão; e, finalmente, os fritos, "tempura", de vegetais, gambas e lula. Não há desculpas para não ir a um restaurante japonês, com o argumento decisivo de que se trata de uma cozinha delicada, com uma fritura em tempo rápido, incisiva.

Para além disso, há raviolis de gambas em vapor, frango frito ("tori karaage") ou salteado com alho francês, massa fresca salteada ("tori yakisoba") ou legumes salteados com gambas, sopa de algas e tofu ("miso shiru"), além da magnífica beringela grelhada com molho de miso. Saltemos.

Há, nesta cozinha – voltemos ao princípio – uma delicadeza temperamental (penso nisso sempre que vejo os cozinheiros a manejar as suas facas com destreza assassina, muito meticulosa, capazes de cortar uma ervilha ao meio para efeitos decorativos). Deve comer-se com calma, concentração – e tempo. Sabendo que a refeição não termina ali; pelo contrário, ali começa; a digestão é suavíssima e os médi­cos recomendam-na, muito adeptos dos peixes crus, cheios de ómega-3.

No final, terminando o chá (uma escolha acerta­da), o sakê ou a cerveja japonesa, podemos medi­tar sobre a majestade das coisas belas e perfeitas, como esses poemas de Bashô, o mestre dos mes­tres. Ele nunca escreveu com mais de três versos, essa medida essencial de toda a poesia – quer dizer, de toda a vida. Ao Assuka, pois. Ainda por cima, tem take-away.

À Lupa
Vinhos: * *
Digestivos: *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 15
Vinhos brancos: 6
Portos & Madeiras: 2
Uísques: 6

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: relativamente difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 20 Euros

ASSUKA
Rua São Sebastião, 150
1050-209 Lisboa
Tel: 213 149 345
Encerra aos domingos

in Revista Notícias Sábado – 27 Outubro 2007


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outubro 20, 2007


Ir ao Nobre (agora no Montijo) é, para o cronista, uma visita ao passado. À melhor parte do passado.

Estendamo-nos um pouco pela metafísica e coloque-se a interrogação: o que é uma coisa que para nós é mais do que ela mesma? Eu respondo: um vinho, a memória de um lugar, um livro per­dido, um rosto, uma palavra, e até um restaurante. Por exemplo, ao beber um certo vinho nada justi­fica que ele seja tão eminentemente caro, tão raro, tão procurado; o que nele se prolonga e nos pro­longa é a sua memória, o que ele evoca na sua his­tória e em nós mesmos (na nossa vida, na nossa perdição). A mesma coisa num restaurante – um restaurante é um restaurante é um restaurante é um restaurante é um restaurante, e por aí fora. Mas, para além disso, é uma memória incerta, vadia, incapazes que somos de o traduzir numa fórmula e numa definição. Em primeiro lugar, por­que nada é igual num restaurante, de um dia para o outro, de uma refeição para outra, de um minu­to para outro. Depois, porque um restaurante (salvo as excepções animais de certas almas) nunca é apenas o restaurante; é o seu chefe de mesa, o seu escanção, se o tiver, os seus criados, o seu 'chef’ ou a sua cozinheira, os seus donos, o que já comemos lá noutra altura, o que comeremos um dia, mais tarde.

Portanto, a minha vida, em certos restaurantes, cruza-se com a minha memória; e, no caso de O Nobre, com a melhor parte da minha memória, naquela zona dela em que estive sentado à mesa, rodeado de um magnífico chefe de mesas, de um grupo de bons criados, de uma cozinha superlati­va, de dois donos de quem sempre gostei muito. Por isso, qualquer referência ao O Nobre há-de vir ter comigo em pontas de pés, silenciosamente, alegremente, festivamente, com o seu rasto de sabores e de desvarios, de devaneios sentimentais e de achados que nunca consegui classificar. Por exemplo, quando dona Justa lançava o aviso sobre a próxima chegada de "cascas" ou "casulos", vindos de Macedo de Cavaleiros, prenúncio certo de almoçarada; e lá íamos em peregrinação. Coisas que só ali, como aquela massinha (macarrão largo, no ponto) cozinhada num caldo de feijão encarna­do, para acompanhar uns lombinhos na grelha. Coisa doméstica e familiar, no velho O Nobre, da velha Rua das Mercês, na Ajuda. Depois da Ajuda, a experiência com o espaço da Expo e das Torres de Lisboa correu mal, matéria que não é da minha conta, mas que não teve a ver com a qualidade das comidas.

Lembro-me de um dos grandes jantares nesse velho O Nobre, da Ajuda, com Manuel Vázquez Montalbán, para quem eu, José e Justa Nobre pre­parámos um menu a propósito, que terminou numa degustação de digestivos amplamente destrutiva. Jantar magnífico em que Montalbán se ergueu num brinde inesquecível: "À liberdade, à beleza e a Sharon Stone." Aplaudamos. Onde quer que Manolo esteja, lembrar-se-á das três coi­sas. Recordam-se do célebre "apagão" que pôs uma parte de Portugal às escuras, por causa de umas cegonhas displicentes? Estava eu no O Nobre (o da Expo), e choveu sobre o rio. Agora, para pôr as memórias em dia, é preciso atravessar o Tejo, jus­tamente, e rumar à praça de touros do Montijo para encontrarmos a mesma mesinha cheia de entrada apetitosas, dos mexilhões aos peixinhos da horta, dos embutidos aos carapauzinhos de escabeche, antes de chegarem as duas sopas do pódio: a de crustáceos em massa folhada e a de santola (que continua a ser servida na própria casca). Sou um saudosista; a seguir, o lombo de robalo "à Justa", uma das glórias de família; depois, outras glórias: a perna de cabrito no forno, a empada de caça, o carré de borrego, o bacalhau em crosta de broa, o pato com azeitonas ou – ah, quem me dera – as saudades da perdiz à convento de Alcântara, momento de paragem no velho O Nobre da Ajuda, um prato de referência do Dr. Mário Soares, seu frequentador em regime de lugar cativo.

Peço desculpa mas sou mau juiz no O Nobre. Reconheço o sabor, o tempero, a dedicação e o ar travesso de dona Justa na sua cozinha – isso basta-me para recordar alguns dos melhores momentos da minha vida. Uma sensação de tranquilidade que nenhum desaire há-de anular ou diminuir. E fico em silêncio. O silêncio dos inocentes.

À Lupa
Vinhos: * * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 115
Vinhos brancos: 56
Espumantes & Champanhes: 10
Aguardentes portuguesas: 18
Colheitas tardias e moscatéis: 8
Portos & Madeiras: 20
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: sim
Estacionamento: relativamente fácil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 30 Euros

O NOBRE
Avenida de Olivença (junto à praça de touros)
2870-108 Montijo
Tel: 212 317 511
Encerra às terças-feiras

in Revista Notícias Sábado – 20 Outubro 2007


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outubro 13, 2007

Lua cheia


O Mezzaluna é um dos bons restaurantes italianos de Lisboa. Gentil, bem-educado, 'cool', com talento e respeito.

Já se sabe que não sou fundamentalista à mesa; apenas mantenho os princípios que me parecem ser os mais agradáveis. Deixem-me ser um nadinha "autobiográfico": um desses princí­pios a que não ligo tem a ver com a presença do vinho à refeição. Por exemplo: sentemo-nos diante de um bacalhau com grão. "Vai tomar vinho, evidentemente." Ou prostremo-nos, em adoração, diante de um cabrito no forno, um dos pontos de excelência da nossa cozinha: "E o vinho, tinto, vai ser qual?" Não mencionemos, já, esse truque de nos ofere­cer vinho tinto como se fosse o único que exis­te (sabemos, "vinho é tinto", frase fantástica num país que já produz muito bons vinhos brancos). Ora, independentemente do gosto por vinhos, acontece comigo que a comida ita­liana, ou as pastas, sobretudo, me levam a beber vinho tinto. Há entre uma coisa e outra uma ligação certamente fortuita na minha memória visual ou gustativa (e que suspeito que tem, também, a ver com o cinema), que me leva a associar um vinho tinto para as massas suculentas.

No Mezzaluna caí na tentação – e fiz bem, porque as massas são boas, porque a cozinha não tem arrebiques nem arrogâncias, porque o ambiente é bonito, porque, enfim, se come muito razoavelmente e porque, ao conhecer esta cozinha, somos transportados para o universo de um 'chef pouco pretensioso, viajante, com raízes napolitanas e nova-iorquinas (entre Itália e Long Island), capaz do mais simples e do mais atrevido. Não há, na verdade, muita complexidade – basta qualidade e espírito crítico, inteligência e atrevi­mento. São esses factores que estão presentes na escolha ou do 'penne' com 'radicchio', alho, porco preto e vinagre balsâmico, ou da incursão lusitana da farinheira que recheia as coxinhas de frango.

A generalidade dos cozinheiros estran­geiros tenta sempre uma aproximação à cozinha portuguesa, o que resulta muito bem quando se trata de provar o cosmopolitismo da nossa cozinha "mais mediterrânica", ou mais vinda do sul; Michele Guerrieri abstém-se de dar lições nessa matéria, preferindo deter-se na vasta gramá­tica, também ela mediterrânica e levantina, da cozinha da sua infância e adolescência, com a contribuição do talento para inventar e dispor os ingredientes. Tanto nos rolinhos de beringelas recheadas com queijo como nos 'penne all’ arrabbiata' com cogumelos se nota essa fusão (essa sim, verdadeira fusão) entre a memória e a experiência, entre o cânone e a vontade de agradar sem fugir à obrigação de uma cozinha séria, feita de alguma exigência. Já dei exemplos dessa simplicidade e desse talen­to – para mim, o suficiente. Mas convém recitar mais um pouco dessas sugestões do Mezzaluna, como as folhas de alho francês recheadas de morcela de arroz, mozarella e tomate com grelos salteados, o peito de pato com molho de ameixas, a costeleta no forno, os medalhões de lombo, e os excelentes risotos, que recomendo; alguns deles são um primor de preparação e de condimento, de textura e daquela pastosidade cheia de pecado, queijo e tentação (peça aqueles que mais vão com o seu estômago e paladar, e não se arrependerá). Os risotos permitem inven­ções quase delirantes (recentemente, no Fasano, em São Paulo, assisti ao delírio de uma carta que apresentava exemplares de abóbora com lingui­ça, de feijão com fios de carne-de-sol, ou de espi­nafres com enchidos do Venetto, todos eles exce­lentes).

Finalmente, duas palavras para o essencial da sala, não sem mencionar uma carta de vinhos plausível e correcta, e uma lista de sobremesas onde o chocolate e o tiramisu se podem aplaudir. A sala é simples, como a cozinha do Mezzaluna; e, tal como a cozinha do Mezzaluna, é bonita, 'cool', de tons suaves, e apetitosa. Depois, a clientela é vasta; às vezes, não merece o lugar, porque pode ser ruidosa. A culpa não é de Guerrieri nem do Mezzaluna, mas da cidade, que é assim. Vale a pena o sacrifício.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 64
Vinhos brancos: 23
Colheitas tardias, moscatéis e aperitivos: 8
Portos & Madeiras: 20
Uísques: 14

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: necessária
Preço médio: 25 Euros

MEZZALUNA
Rua Artilharia 1, n.º 16
1099-061 Lisboa
Tel. 21 3879944
Encerra aos domingos e sábados ao almoço

in Revista Notícias Sábado – 13 Outubro 2007


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outubro 06, 2007

Regresso a Espanha


Que haja Galiza, Catalunha, Andaluzia, Castela, Astúrias – é problema deles, dos espanhóis. No Mesón Andaluz, isso não tem grande importância. É tudo bom.

Sou do tempo em que a Parede ainda tinha mais aspecto de "pequena vila" do que hoje – em que mantém felizmente esse aspecto. Ser "do tempo" de seja o que for é muito saudável, ao con­trário do que manda a ideologia oficial, que rotula essa expressão como própria de há dois séculos. Nesses anos de "pequena vila", entre o Limo Verde e a Ribeiro, a Casa dos Queques e o Eduardinho (vão lá, para entenderem), o centro da Parede ador­mecia muito cedo e o Mesón Andaluz, estacionado no primeiro andar de uma rua que descia (ou subia) rente ao mercado local, era um oásis por diversos motivos. Retenho o principal deles: era o restaurante de cozinha espanhola onde se ia comer não apenas o que Ilídio de Almeida apresentava – mas também tudo o que nós imaginávamos que poderia ser a cozinha espanhola, antes das autono­mias, dos regionalismos e das suas saborosas dife­renças. Era Espanha. E nós tínhamos vivido de cos­tas voltadas para Espanha durante muito tempo. Não nos importávamos com as diferenças entre o tempero andaluz e os pratos suculentos do Norte, conquanto as sevilhanas que se ouviam ininterrup­tamente nos despertassem para esse mundo de gado, bodegas silenciosas ou festivas, alhambras e planícies, touros e tapas servidas na "barra".

Pessoalmente, a minha adolescência foi passada em terras de fronteira. Desde criança, muito cedo, o espanhol foi a minha segunda língua – e o gale­go a seguir, uma contingência. Pouco se me dá que não seja correcto dizer "o espanhol" e que eu deva dizer "o castelhano". Problema deles. Espanha, isso sim, interessa-me: dos picos das Astúrias e do seu litoral, ao azul triunfal do Mediterrâneo andaluz ou valenciano, passando pela velha Castela, pelo silêncio devastador da Extremadura, pelas eleva­ções catalãs – é Espanha. O resto é problema deles. Que se entendam.

Volto – numa noite de final de Verão, já tardia – ao Mesón Andaluz, instalado já não na Parede mas no CascaiShopping. A curiosidade pelo "pulpo de feira" da minha adolescência foi satisfeita: rode­las generosas de polvo, macio e sedoso, com umas pedrinhas de sal, colorau e azeite, o zénite de uma simplicidade comovente. Muito bom. O "pulpo de feira" é uma arte que convém realçar porque assenta numa cozedura simples do polvo, que deve conservar a sua pele gelatinosa, ser cortado dose a dose, e o único tempero permitido é esse: sal, colo­rau e azeite. Por menos do que isso, uma persona­gem de Fernando Assis Pacheco tornou-se assassina, se bem que preferisse as "empanadas" no forno. Torradinhas, mexilhões e calamares vieram a seguir. Outro aplauso. Os calamares, sem aquela gabardina obesa e desnecessária que vemos por aí, apenas passados no ligeiro polme de farinha e fritos em óleo claríssimo, perfeitos. São cerca de quarenta tapas suculentas, amostra da cozinha de "barra" e das suas possibilidades, desde as pataniscas de gambas ao presunto cortado como convém e é exigível, dos pimentinhos Padrón às saladas e almôndegas.

Abreviemos. Veio então a empada de perdiz: a massa estava estaladiça e saborosa, os legumes salteados sabiam a legumes, o recheio de perdiz era generoso, estava "de chuparse los dedos". Um bife inteiro e carnívoro afastou-nos por ins­tantes do convívio com os mortais, porque rescendia e conservava todos os sucos. Umas costeletas de cordeiro encaminharam-se então para a nossa mesa, pezinho ante pezinho, arras­tando batatinhas salteadas. Não houve tempo para 'callos a Ia madrilena', para uma favada, para uma paelha ou para o 'cochinillo' – há tempo. Nas sobremesas, eu sou conservador e tinha saudades das 'natillas' do Mesón: esta­vam iguais, perfeitas, cremosas, desenhadas naquele amplo prato cheio de promessas.

Por instantes, voltei aos meus sabores ibéricos de outros tempos. Diz-se que o amor adolescen­te é feito de repetições, do regresso ao mesmo lugar; talvez – já não me lembro. Mas se isso é verdade, e falando de estômago, o Mesón continua a ser esse lugar. Ah, esquecia-me: e com uma carta de vinhos que sugere a união ibérica, fantástica.

À Lupa
Vinhos: * * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 316
Vinhos brancos: 56
Espumantes & Champanhes: 16
Aguardentes portuguesas: 114
Colheitas tardias e moscatéis: 14
Portos & Madeiras: 20
Uísques: 24

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: fácil, no Shopping
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: não é necessária
Preço médio: 20 Euros

MESÓN ANDALUZ
CascaiShopping, loja 1089 - Alcabideche
Tel. 214 600 659
Não encerra

in Revista Notícias Sábado – 6 Outubro 2007


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setembro 29, 2007

Coisas solarengas, fatais


No centro de Lisboa, recordações de um restaurante tradicional: a satisfação do cronista nota-se nestes parágrafos.

Mesmo não sendo um segredo, convém recordar o sítio: perto da Avenida da Liberdade, em Lisboa, há uma carta de vinhos com cerca de duas cente­nas de tintos e praticamente setenta portos. Se o dado não o impressiona, passemos à frente, mencionando a sua cabidela, a lampreia (que, quando vem o tempo, leva a peregrinações dedica­das), o bacalhau à Gomes de Sá (o prato tradicional dos restaurantes clássicos de Lisboa à segunda-feira, vale a pena dizer) e os pratos de sustância que desequilibram a balança a meu favor: a panela especial com feijão, uma longa epifania sobre tudo o que é comentário dietético, servida nas quintas-feiras, e, às quartas, o cozido à minhota, verdadeira sinfonia barroca de carnes, enchidos e legumes a que só por rapacidade de estilo poderíamos subtrair o elogio fatal: é de marcar na agenda.

Ora, acontece que o Solar dos Presuntos é um dos restaurantes que merecem estar na agenda – a sua clientela habitual dispensa-o, porque gostaria de mais intimidade, mas a verdade é que convém passar por lá. O que tem assim de tão grandioso o Solar dos Presuntos para ser considerado mais ou menos incontornável? Em primeiro lugar, a história da casa, fundada em 1974 – ano bendito para a abertura de restaurantes, como se sabe – por Evaristo e Graça Cardoso, onde se comeu sempre acima da média. Em segundo lugar, a garantia dada pela quantidade de gente que tem o número de telefone do Solar na sua agenda – de primeiros-ministros gulosos a jornalistas boémios, de administradores que escapam ao seu horário a famílias que festejam uma data, de músicos e actores com apetite a futebolistas que dão um ar das suas maneiras à mesa, de presidentes da República em escapadinha a dignitários estrangeiros que vão aprender qualquer coisa sobre a nossa gastrono­mia. Em terceiro lugar, pela cordialidade. Há quem não o ache um valor a ter em conta; eu tenho-o na mais elevada consideração, como se diz nas cartas comerciais: ser tratado com cordialidade é quase tão bom como ser cordial. No Solar dos Presuntos, somos tratados com cordialidade – e oxalá não lhes suba, nunca, a presunção aos modos.

Já vos falei da lampreia; já mencionei a feijoada e o cozido, bem como a cabidela e o bacalhau à Gomes de Sá. Esqueci, de propósito, o cabrito no forno por­que merece referência à parte com mais uma linha a acompanhar, para gabá-lo na sua travessa, com­posto com batatinhas, com verduras a pedido. Há uma tradição que manda enumerar, a propósito do Solar, a lista dos seus pratos essenciais de marisco (o arroz de gambas e lagosta, muito bom e que é um dever aconselhar, a paelha, a feijoada de marisco, a açorda de gambas ou a mariscada especial da casa, entre outros), mas tenho receio de que o espaço destas duas páginas não seja suficiente para falar dos pratos de peixe, que são bons (e já não estou para ir atrás cortar quatro ou cinco frases): desde o bacalhau à Narcisa, uma herança bracarense, aos filetes de peixe-galo com arroz de tomate, às pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, à variedade de peixes na grelha, servidos com ar suculento, até ao bacalhau à lagareiro ou aos camarõezinhos panados com arroz de tomate. Um peixe cozido com todos, verdadeiro exemplo de frugalidade e de amor às cousas do mar, também não está excluído porque o "com todos" significa "com todos", quando se chega a acordo. E, para finalizar, o destempero das carnes, colossais e magnânimas: o cabrito no forno é um cartaz do Solar, e merece, quando chega bem tostado, rodeado do que deve acompanhá-lo; a perdiz (estufada) tem os seus adep­tos triunfais (quis o Criador afastar-me de grande parte dos pratos de caça, mas de vez em quando depenico); os medalhões do lombo com bacon; os mimos de porco preto com batata frita e legumes salteados; o caldo espesso e cremoso, saltitante, a pedir só uma gotinha de vinagre, que envolve o arroz de cabidela; ou a generosa costeleta de vitela no carvão, que convence os mais carnívoros.

Nisto, como em outras coisas, vale tudo pela com­panhia, pela circunstância, pelo serviço, pela convivialidade apetecida ao ver a carta de vinhos. E pelo ar ligeiramente febril de toda esta comida. Depois de ir ao Solar, fico um conservador empedernido. Fatal como o destino. Com isto tudo, esqueci-me dos presuntos.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 208
Vinhos brancos: 24
Espumantes & Champanhes: 4
Aguardentes portuguesas: 34
Colheitas tardias e moscatéis: 3
Portos & Madeiras: 64
Uísques: 26

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: parque de estacionamento perto
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável
Preço médio: 32 Euros

SOLAR DOS PRESUNTOS
Rua das Portas de Santo Antão, 150
1150-269 Lisboa
Tel: 21 3424253
Encerra aos domingos e feriados

in Revista Notícias Sábado – 29 Agosto 2007


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setembro 22, 2007

Milagre de uma rosa só


Frente ao Douro, num lugar belíssimo do Porto, o Uma Rosa abre o apetite e leva a devaneios. O cronista cede a ambos.

Há aquele aroma, não sei se me entendem. Uma espécie de arranque para que as papilas comecem a fazer o seu trabalho de recensea­mento, a distender as suas válvulas (eu sei que não há válvulas naquele lugar, mas a imaginação é delirante e sempre empurrada pela necessidade), a iluminar o caminho (aí está outra imprecisão, porque as papilas não têm luz). Desculpem-me a entrada irónica, mas é preciso libertar a lin­guagem com que às vezes se escreve sobre cozinha – e dito isto voltemos atrás: há aquele aroma, não sei se me entendem.

Sempre o disse, cada restaurante tem o seu momento. E cada experiência pode ser fatal. A minha filha, a mais nova, viu três vezes "Ratatui", o filme; eu vi uma, e gostei muito. Recomendo – há ali passagens antológicas. Uma delas é a apresentação que Colette faz da cozinha e dos seus profissionais diante de um Linguini igno­rante e pateta, ao melhor nível de "Confidential Kitchen", de Anthony Bourdain; outra, é a ida do crítico (Ego) ao restaurante, sobretudo quando se processa a sua reconversão às memórias de infân­cia, aos aromas que vêm do fundo do passado, à substância que assalta - vinda do passado, igual­mente - o momento da prova. É nesse momento que o crítico se revolta finalmente, separando o alquimista do químico. O alquimista vive do eterno; a sua corporação deriva do poético, do per­manente, da repetição minuciosa de uma fórmula que permite a devolução do ouro na sua forma tentada; o alquimista vive do cânone, da experiên­cia metodologicamente secreta e presidida por uma natureza sagrada. O químico vive de cada gesto; vive em cada instante, renasce para cada ensaio, cruza os elementos por amor à experiência e não por dedicação ao produto final.

O momento ideal de um restaurante, bem como de cada visita, ocorre quando o alquimista e o químico se encon­tram e se sentam à mesma mesa, dispostos a tudo. Raramente se consegue, o que é uma pena. Para me sentar à mesa do Uma Rosa não precisei de tanto; bastou-me o apetite, coisa que me tem arruinado a dieta que prometi ao leitor. Por exem­plo, como actuar diante da carta de vinhos que aguça os apetites, triunfais ou delicados? Como resistir às tripas à moda do Porto, enfeitiçadas e pecaminosas, cremosas, com o seu grão esmaecido e pedindo que o dissolvamos entre língua e pala­to? Como resistir ao arroz de garoupa ("à moda da Ilha de Luanda"...), com o seu tom de pecado moreno, africano, marítimo, encostado à minha própria memória de Luanda e da suavidade da res­tinga? Desconheço.

Os amantes da carne que não se preocupem: é deles o monumento mais apreciado da casa, um verdadeiro achado que espero que a monotonia não estrague nem lhe diminua a intensidade e a novidade: o novilho arouquês, um autêntico elemento de combate para apetites carnais e a necessitar de proteína. Na grelha, o arouquês é – que me perdoem as carnes de outras origens, incluída a valente amostra maronesa ou a barrosã – quase imbatível. Falta-lhe apenas o pormenor que os cortadores gaúchos (uruguaios, argentinos, ligeiramente brasileiros também) man­têm para conferir perfeição à peça: aquela tirinha de gordura, a fibra de gordura que alimenta a alma e dissolve as impurezas. Fica a nota, bem no prato.

Agora, que se aproxima o Inverno – saltita o Outono entre temperaturas agradáveis e horas tépidas para refeição –, o Uma Rosa regressará em breve aos cozidos de carne e verduras, outra das tradições que não se podem perder na casa, aos pratos suculentos, às dedicatórias barrocas e a certas incursões de tempero alentejano.

Fica para o fim a nota de intensidade: o pudim de ovos. Trata-se, simplesmente (ah, confissão arrancada a ferros!), de bom pudim. Aquilo que o leitor encontra nos cardápios como "pudim francês". Enfim, pudim. Gemas de ovo, colesterol puro, fornecido em abundância. Pois aqui os ovos levam o contributo do vinho do Porto. Quem não aprecia ou teme o desafio, compreensivelmente, pode optar pelo bolo húmido de chocolate com cobertura de chocolate quente. E que vá aguar­dando pela digestão, pois o Douro, mesmo em frente, é propício ao devaneio. Assim se conserve, com uma rosa para nos comover.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 98
Vinhos brancos: 24
Aguardentes & Conhaques: 18
Portos & Madeiras: 12
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: acessível
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável ao almoço
Preço médio: 20 Euros

UMA ROSA
Passeio das Virtudes, 33-35 – Porto
Tel: 223 403 915
Encerra aos domingos e feriados

in Revista Notícias Sábado – 22 Setembro 2007


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setembro 15, 2007

A ordem natural das coisas


O cronista, com saudades do Outono e do princípio do Inverno, foi ao Rogério do Redondo, no Porto, para confirmar que a vida tem sentido. E tem.

Tenho saudades da chuva. Desculpai-me, leito­ras e leitores, mas tenho saudades da chuva; não tanto da chuva, mas da chuva do Porto, daquele molinhar irmão da 'morriña' galega, coisa de gente do Norte, como se vê pela pronúncia. Chego a esta altura do ano e olho melancolicamente para a roupa de Inverno, para a gabardina escondida atrás da porta de um armário, para o céu nublado - cheio de esperança. Prometem-me um Verão tardio e extemporâneo e eu penso em queixar-me ao senhor Provedor: não é justo que as autoridades prolonguem o Verão. Um pouco de frio, agora. Um nadinha de (ah, como eu gosto desta linguagem!) neblinas matinais a norte do cabo Carvoeiro, com acentuado arrefecimento nocturno e ondas de dois a três metros na costa atlântica, sem falar na forma­ção de geada e de chuva que pode ser neve nas terras altas do interior.

Mas não pensem que sou um fanático do Inverno; por mim, o mundo poderia ter o clima e as tempe­raturas da Costa Rica ou, digamos para efeitos urbanos, do Rio de Janeiro (naquele pontinho minúsculo da Gávea, exactamente). Faço-me entender, julgo eu. Simplesmente, nesta colina diante do Atlântico, distante do Mar dos Sargaços e da Guanabara, então prefiro que venham as temperaturas e chuvas da época. Para quê? Pois, simplesmente, para regressar aos restaurantes que não mentem e que se recusam, por razões eviden­temente sérias, conquanto discutíveis, a "mudar a lista por causa da estação do ano". O Rogério do Redondo, bem no centro do Porto (fundado por Rogério Vieira de Sá e Manuel do Redondo).

Trata-se de uma casa que engana raramente: isto é isto, sável de escabeche é sável de escabeche, tripas à moda do Porto são mesmo tripas à moda do Porto e, para que conste, filetes de pescada com arroz de feijão malandro não é a mesma coisa que filetes de peixe-galo com açorda de mílharas.

Chegado aqui, o leitor (e a leitora, a quem digna­mente pisco um olho, o direito) já sabe ao que me refiro: à honradez da mesa, ao brilho pecaminoso do hóspede que toma assento à sua mesa e não espera alterações na ordem das coisas, porque – enfim – sentado à mesa e rodeado de aromas fortes e substantivos, a ordem das coisas está bem assim mesmo. Explico como, para que não julguem que me fico pela teoria: cabrito assado à sexta-feira e tripas à quinta; cabidela (galo de cabidela, precavei-vos, sentimentais!) e costela mendinha em havendo; Inverno com sopas de nabos e de penca, ou com uma sublime sopa de favas de outros tem­pos; rabanadas no seu tempo, triunfais e douradas, dulcíssimas, escorrendo. Os filetes de peixe-galo, com açorda de mílharas (tremei, leitores do Sul!, trata-se de ovas), são sempre bons, suculentos até, mesmo tratando-se de peixe; as postas de pescada frita muito suaves, tingidas de limão, brancas com a alvura da espuma do mar de Vigo, mas envolvidas num polme tranquilizador como uma gabardina que se usa contra a 'morriña'; o bacalhau à facho (uma tentação do barroco portuense de primeira água, com forno em dois tempos, cebolada e arroz) é para lhe seguirmos o rasto; o rancho (outra forma de sucumbir ao barroco dos artesãos, com o seu grão amaciado, o macarronete, a couvinha, a bata­ta rareando, as carnes a borbulhar num caldo ameno e alaranjado) para matar saudades e pecar contra os elementos naturais; a mãozinha de vitela com feijão vermelho, uma das primícias da cozinha familiar e doméstica da cidade; e, depois, comida de que temos saudade de vez em quando - petingas fritinhas com arroz de tomate, pataniscas com arroz de feijão (o leitor já sabe como eu sou arrozeiro), e a monumental morcela com grelos (atenção, que no Rogério do Redondo seguem o bom preceito e servem-na como deve ser: cozida, natural, para que se perceba como é feita - e não é uma morcela envergonhada, sem carnes, não).

Continuando a piscar o olho à leitora (agora o esquerdo, por causa do astigmatismo, que me exige o colírio nestas circunstâncias), menciono os Matateus, uns folhadinhos de abóbora (gila, ou chila) e, se for senhora séria, pois acrescento o pudim do abade de Priscos, coitado, tão comido.

Querem ver que está a chover na rua? É por isso que o Rogério do Redondo é um dos meus restaurantes de Outono. Chove mesmo.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * *
Serviço: * * * *
Acolhimento: * * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 65
Vinhos brancos: 21
Espumantes & Champanhes: 2
Aguardentes portuguesas: 14
Portos & Madeiras: 20
Uísques: 16

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: condicionado
Levar crianças: sim, absolutamente
Área de não fumadores: sim
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 18 Euros

ROGÉRIO DO REDONDO
Rua Joaquim António de Aguiar, 19
4000-311 Porto
Tel: 225 379 533
Encerra aos domingos

in Revista Notícias Sábado – 15 Setembro 2007

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setembro 01, 2007

O Douro na moda


Na vetusta Régua, ou Peso da Régua para fazermos cerimónia, o Douro In merece uma visita.

O rio é um vício. Na semana passada desci do Pinhão para a Régua e fiquei na Folgosa – uma parte de mim pertence àquele mundo feito de água, escarpas, vinhedos, ciprestes erguidos a meio das colinas, miradouros e pequenos santuários isolados no meio das montanhas, histórias de naufrágios e de heróis, ou simplesmente, terra iluminada pelo rio.

Deixemo-nos de metafísicas. Nesta matéria, não há muito a acrescentar que não tenha sido escrito pelos mestres. O resto é invenção pura. Há uns tempos – regresso, estou sempre a regressar –, com aquela doçura de clima que obriga a Régua a debruçar-se sobre o rio para refrescar-se e ouvir o silêncio, entrei no Douro In. Levaram-me, aliás. Depois choveu, depois veio uma brisa afastar as nuvens, depois veio a digestão, saborosa.

Sou de um tempo em que os restaurantes do Douro eram quase todos modestos, pobres, ou banais e sem interesse. A gastronomia do Alto Douro (se bem que um dia hei-de falar dessa "ilha" que é o Douro Superior, a pátria dos melhores vinhos), tirando umas páginas dispersas, não teve a sua monografia de glória – passa por ser um entremez, diluído em referências aos peixes do rio, à aplica­ção de ervas, às cozinhas influentes das suas mar­gens (de um lado, os monumentos fatais de Trás-os-Montes; do outro, a invasão da Beira).

Teremos sempre essa dificuldade em aceder à gramática pro­funda da sua cozinha. Há quem pense que no Douro só se bebe; que o Criador os ilumine. Seja como for, o Douro In foi, nesses tempos, já lá vão dois anos, um dos primeiros momentos de excepção – era, como o nome indicia, um lugar 'in', seja lá o que isso for. O Douro precisa dos seus lugares 'in', antes reduzido ao isolamento das suas quintas. E embora eu torça o nariz a quase todos os restaurantes – das brancas estradas do Algarve às escuras colinas do Nordeste – que sugerem vieiras gratinadas como entrada (juntamente com o "porco preto", trata-se de urna invasão cansativa e de um fenómeno a estudar pelos sociólogos e pelos psicanalistas), soube resistir: havia um folhado de queijo 'brie' com compota de pêssego que veio para a mesa, protegendo-me da intempérie que, lá fora, lavava as ruas da Régua (infelizmente não as limpava de excrescências arquitectónicas). Com ele compareceu um pratinho de míscaros salteados, enquanto fazíamos a revisão da carta de vinhos, opulenta e dando mais do que preferência, como seria legítimo esperar, aos lagares da região. Cobiçados foram também os cannelloni recheados com alheira e agridoce quente de maçã, além da salada de cuscuz com pimentos e enchidos – a minha avó materna, em pleno Nordeste, cozinha­va cuscuz superlativos.

Depois disto, havia as plu­mas de porco preto (eu não dizia?) marinado em vinho tinto do Douro, um joelho de porco, um polvo assado no forno e um outro servido com vinho, com migas de feijão, um risoto de cogume­los, um bife do lombo com queijo da Serra e molho de vinho do Porto, costelas grelhadas de borrego com batatas assadas a murro, umas bochechas de bísaro com tagliatelli de legumes, um bacalhau com broa. Tentei-me: fui ao bacalhau, de posta ele­gante, formatada, branca e alta, de cobertura crocante, muito bom. De seguida, um cabritinho no forno com batatinhas – que costumam ser o coro­lário dessa presença no calor, douradas e farinhentas. Não se queixaram, nenhum deles, até porque os vinhos eram bons.

A decoração do Douro In é bonita à noite; de dia nunca a vi, mas basta-me imaginá-la, evocando adegas, recantos íntimos, xistos, com mesas volta­das para o Douro ou refugiadas num cantinho para conversa. Pensava nisso quando apareceram as sobremesas: uma tarte de maçã com sorvete de baunilha e um bolo de laranja com frutos verme­lhos onde pontilhava também uma espuma de morango. Com o café – e uma velha aguardente do Douro, que competiu com um 'tawny' servido a boa temperatura (o que é raro hoje em dia) – deci­di que um lugar daqueles fazia falta à Régua, mas também ao viajante e aos geógrafos amadores que passam pelo lugar. Há ali uma tentativa séria de fazer um bom restaurante. E, já agora, um bar bem divertido.

À Lupa
Vinhos: * * *
Digestivos: * * *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 100
Vinhos brancos: 32
Espumantes & Champanhes: 8
Aguardentes portuguesas: 10
Colheitas tardias e moscatéis: 8
Portos & Madeiras: 26
Uísques: 20

Outros dados
Charutos: sim
Estacionamento: relativamente fácil à noite
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: aconselhável
Preço médio: 35 Euros

RESTAURANTE DOURO IN
Av. João Franco
5050-226 Régua
Tel. 963 928 050 / 916 946 870
Encerra às segundas e almoço de terças

in Revista Notícias Sábado – 1 Setembro 2007

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agosto 25, 2007

Viagens na minha terra


Num dos mais belos percursos do Douro, entre a Régua e o Pinhão, o D.O.C, é uma revelação.

O leitor sabe que não sou imparcial, que frequen­temente sou injusto quando se trata de fazer comparações e que não acho graça a novidades. Dito isto, viajo ao longo do rio da minha infância, o Douro, para visitar um dos novos restaurantes da região.

Falhei, até agora, escrever sobre o Cepa Torta, em Alijo, que já há alguns anos se transformou numa espécie de santuário da gastronomia regional do Norte do Douro – mas não quero deixar de assinalar o D.O.C., o novo restaurante de Rui Paula (que, com a mão decidida e séria da sua mulher, Cristina Canelas, continua a manter o Cepa Torta), estaciona­do junto de um pequeno cais na Folgosa do Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão.

Não sei se conhecem esta estrada, a marginal do Douro, mas esclareço que se trata de uma das mais bonitas de Portugal. Seja como for, o crepúsculo desta marginal, rente à água, é matéria de romance. O D.O.C, tem, além de um cais fluvial, uma esplana­da que oferece uma das melhores paisagens do rio – e quando a noite cai é um espectáculo incompará­vel. Por isso, não o comparo com nada. Quem sabe do que falo, recorda; quem não sabe, pois que vá.

O cardápio do D.O.C., que nasceu em Abril passado, é cuidado, sazonal e apetitoso. Refiro, para abrir, o seu 'carpaccio' de polvo, os milhos de camarão, o recheio de sapateira com salada de tomate, o papo d'anjo de 'foie gras' de vinho do Porto e maçã, o 'magret' de pato fumado com salada de requeijão, amêndoa e mel e ainda o creme de espargos verdes com vieiras e azeite trufado.

Apaixonado que sou pelos milhos (a nossa "polenta"), foi essa a minha opção como entrada, dividida com uma chamuça de alheira e moira, e um 'carpaccio' de polvo. Os milhos eram excelentes, suculentos e molhadinhos, onde alguns camarões tinham adormecido com verduras a fazerem a cama. Cinco estrelas. A chamuça veio crocante, com uma massa muito bem definida, e o polvo, laminado, apareceu na companhia de uma salada cheia de sabor e uma fatia de queijo gratinado. A opção seguinte seria ainda a dos milhos, ao deparar com eles na companhia de bacalhau e rodovalho, além de um bacalhau com broa e um cherne em crosta de legumes. O novilho maronês, das encostas da serra do Alvão, cativou-me em duas amostras: pri­meiro, com isca de 'foie gras' e uma caminha de pi­nhões e feijão verde, muito, muito bom; depois, um medalhão de boa carne com creme de queijo da Serra (suavíssimo, nada do que se come por aí), acompanhado de um arroz de três cogumelos, fritinho e sabo­roso com polvilho final de cebolinho; fantástico. É necessário, aqui, um 'intermezzo': tínhamos come­çado com um espumante de Cabriz, para aligeirar apresentações – que é servido a copo, juntamente com outros vinte vinhos –, e seguira viagem com um outro tinto do Douro, ligeiramente refrescado, como se exige.

Houve ainda um polvo a passar pela mesa, grelhado com azeite, tenríssimo. Para trás ficaram o 'magret' de pato com arroz de frutos secos e figos em vinho do Porto, o cabritinho no forno, a perdiz do Douro com dois purés (geralmente, o de abóbora e o de castanhas), o 'risotto' de sapateira, a bochecha de porco bísaro com torrada de azeite, ou o cachaço de bísaro (cozinhado a baixa temperatura por doze horas).

Antes de pedirmos as sobremesas, veio a von­tade de repetir o 'foie gras', e pediu-se uma amostra da terrina, puríssima, odiada por vegetarianos e médicos do colesterol: perfeita, com uma torradinha auxiliar. Para facilitar, veio também um 'late harvest' do Douro. E as sobremesas chegaram então, devasta­doras: uma chamuça de queijo 'chèvre', com gelado de mel, requeijão, doce de abóbora e amêndoa, arrepiante; o queque de chocolate era um 'petit gâteau', ou 'demi-cuif, com o seu caldo interior de chocolate quente, servido com sorvete de framboesa; e então, culminando, com dois tipos de Porto para acompa­nhar (um 'tawny' Vista Alegre e um 'vintage' Noval), o vulcão: crepe de leite-creme crocante com frutas exóticas e molho de framboesa, primeiro. Seis estre­las em cinco. O vulcão e o 'tsunami' a seguir: tarte de maçã com queijo de cabra e gelado de azeite.

Ainda tive tempo para verificar que há 140 tintos muito bem escolhidos e apresentados, cerca de 70 portos à disposição, 20 moscatéis e colheitas tardias – e um menu de azeite que hei-de provar da próxima vez. Ao sair para a varanda sobre o rio, verifiquei que era noite de Lua nova, e que as estrelas continuam a favorecer o grande Douro. Com D.O.C. Parabéns.

À Lupa
Vinhos: * * * *
Digestivos: * * * *
Acesso: * * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 146
Vinhos brancos: 48
Espumantes & Champanhes: 16
Aguardentes portuguesas: 16
Colheitas tardias e moscatéis: 20
Portos & Madeiras: 74
Uísques: 18

Outros dados
Charutos: sim
Estacionamento: fácil, tem parque
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 35 Euros

RESTAURANTE D.O.C.
EN 222 - Folgosa do Douro
5110-204 Folgosa
Telefone: 2S4 858 123
Não encerra

in Revista Notícias Sábado – 25 Agosto 2007

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