outubro 27, 2007

Grande desejo de delicadeza


Um restaurante japonês de Lisboa fornece um bom argumento para falar de Scarlett Johansson. Há argumentos para tudo.

Outono, Outono: as primeiras chuvas vão e vêm, ainda ligeiras, ainda suaves - o céu, de cinza, relembra o de 'Lost in Translation', o filme onde quase todos os homens se apaixonaram por aque­la Scarlett Johansson perdida entre um quarto de hotel, uma noite de pesadelo e um marido idiota, para não falarmos do sempre magnífico Bill Murray, que se esforçava por não morrer de tédio em Tóquio. Escolham outra pessoa qualquer para falar de cinema – eu prefiro as personagens, os cli­mas e os cenários. E o clima de 'Lost in Translation' não tem a ver com meteorologia mas sim com uma ideia do absurdo que se vive quan­do não precisamos nada dele.

Comem nada, no filme. É uma pena. Scarlett Johansson havia de ficar bonita a trincar uma fatia de sashimi.

Outra coisa inteiramente diferente é a experiên­cia de Anthony Bourdain, o chef do luso-nova-iorquino Les Halles, quando vai ao Japão (a experiência está descrita em 'A Cook's Tour', um livro que não me canso de recomendar) e lhe preparam um jantar de duas dezenas de pratos e quatro gueixas, algures nas montanhas – um lugar ligeiramente próximo do paraíso depois de uma jornada cansativa. Alguém nos massaja os ombros, alguém canta – numa varanda de onde ainda se vêem cerejeiras em flor –, alguém nos cede o lugar, alguém nos recebe. E, depois, um prato subtil, um desenho no coração do prato, uma fotografia de anjos descendo sobre lagos onde há flores, sombras, penumbras, que sei eu. Poesia pura. A comida às vezes devia ser assim, apenas um desenho que só a curiosidade permi­te destruir, romper, refigurar, recompor.

Sonho muitas vezes com o Japão. Não com Tóquio mas com a poesia de Bashô, aquelas três intermináveis e curtíssimos versos que imitam o som da clepsidra, o do vento nos bosques, o das nuvens rodeando as montanhas – e lá aparece Scarlett Johansson, saindo de um comboio, entrando num templo. Um dos templos à nossa disposição em Lisboa pode ser o Assuka. Exagero meu. Mas compreende-se: o "sushi to sashimi", um misto de ambos, anda pelos 17 euros, o que não é muito se tivermos em conta que é uma introdução a essa delicadeza oriental do peixe cortado com curial inteligência. Mas quem não gosta de peixe cru? Pois pode ir ao Assuka na mesma. Há magníficas espetadas de frango, de salmão ou de gambas (panadinhas), além das especialidades da casa: "hiyashi chuka", a sala­da de algas, tomate, ovo, pepino, soja e carne; "sukiyaki", as tirinhas de carne de vaga grelhada, e acompanhadas de arros; "tonkatsu", um pana­do com arroz; "yakiniku", tirinhas de vaca para grelhar à mesa ou no balcão; e, finalmente, os fritos, "tempura", de vegetais, gambas e lula. Não há desculpas para não ir a um restaurante japonês, com o argumento decisivo de que se trata de uma cozinha delicada, com uma fritura em tempo rápido, incisiva.

Para além disso, há raviolis de gambas em vapor, frango frito ("tori karaage") ou salteado com alho francês, massa fresca salteada ("tori yakisoba") ou legumes salteados com gambas, sopa de algas e tofu ("miso shiru"), além da magnífica beringela grelhada com molho de miso. Saltemos.

Há, nesta cozinha – voltemos ao princípio – uma delicadeza temperamental (penso nisso sempre que vejo os cozinheiros a manejar as suas facas com destreza assassina, muito meticulosa, capazes de cortar uma ervilha ao meio para efeitos decorativos). Deve comer-se com calma, concentração – e tempo. Sabendo que a refeição não termina ali; pelo contrário, ali começa; a digestão é suavíssima e os médi­cos recomendam-na, muito adeptos dos peixes crus, cheios de ómega-3.

No final, terminando o chá (uma escolha acerta­da), o sakê ou a cerveja japonesa, podemos medi­tar sobre a majestade das coisas belas e perfeitas, como esses poemas de Bashô, o mestre dos mes­tres. Ele nunca escreveu com mais de três versos, essa medida essencial de toda a poesia – quer dizer, de toda a vida. Ao Assuka, pois. Ainda por cima, tem take-away.

À Lupa
Vinhos: * *
Digestivos: *
Acesso: * * *
Decoração: * * *
Serviço: * * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * * *
Ar condicionado: * * *

Garrafeira
Vinhos tintos: 15
Vinhos brancos: 6
Portos & Madeiras: 2
Uísques: 6

Outros dados
Charutos: não
Estacionamento: relativamente difícil
Levar crianças: sim
Área de não fumadores: não
Reserva: muito aconselhável
Preço médio: 20 Euros

ASSUKA
Rua São Sebastião, 150
1050-209 Lisboa
Tel: 213 149 345
Encerra aos domingos

in Revista Notícias Sábado – 27 Outubro 2007


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