dezembro 31, 2007

O regresso da Santa Aliança

Finjamo-nos de desentendidos e de inocentes e agradeçamos a Luís Filipe Menezes o facto de ter lembrado um dos pactos obrigatórios que tem vindo a garantir a existência do Bloco Central. Com aquela candura fingida que usa nas suas declarações, o líder do PSD lembrou que estava decidido dividir, entre os dois maiores partidos do regime, o Banco de Portugal e a Caixa Geral de Depósitos. Convenhamos que não é exactamente assim. O bolo a repartir não eram as instituições, propriamente ditas, mas sim as suas presidâncias. Há uma diferença, evidentemente, mas agora sabemos que o pacto existia, e isso é importante.

Finjamo-nos de ainda mais inocentes (como se a candura de Menezes não nos impressionasse), para nos perguntarmos se é mais importante ter um representante partidário na presidência de cada um dos bancos do regime, ou, pelo contrário, colocar lá gestores acima de toda a suspeita.

Estes pactos não são originalidade portuguesa; existem como um contrato subterrâneo em vários países onde o Estado desempenha um papel essencial na economia. Mas a reivindicação desse pacto, da forma pública e cândida como Menezes a mostrou, é que parece uma novidade. Parece – mas não é. Os cargos públicos são normalmente distribuídos como uma espécie de garantia da sobrevivência do Bloco Central, o político e o dos interesses.

Simplesmente, é tal a conivência entre aquilo que devia ser o debate político, e o que se tem visto ser a lógica dos interesses do “centrão”, que já não há diferenças entre uma coisa e outra. Ou seja, para o que nos interessa: a política morre às mãos dos interesses dos dois partidos do regime. Para quem pensava na política como uma arte nobre, um lugar de debates, um território de causas e de ideias – o retrato não é edificante.

Isto acontece, não nos esqueçamos, por causa do BCP, o principal banco privado português, a que a lógica de outros interesses conduziu à subserviência e à irrelevância como instituição, a ponto de os seus principais accionistas estarem dispostos a entregar a sua direcção ao presidente da CGD, positivamente conotado e ligado ao PS. Convenhamos que não é exactamente assim: não foi o Estado nem o governo (entidades misteriosas que se confundem cada vez mais, à boa maneira latino-americana) que impuseram o presidente da Caixa ao BCP. Foram os accionistas do BCP que, manietados e cercados (pela ameaça de investigações policiais, pela descoberta de fraudes e de manipulação, pela evidência de actos de gestão que podem ser criminalizados), recorreram ao presidente da Caixa, convidando-o a livrarem o banco de mais trapalhadas. Em outros países, um convite desta natureza seria amplamente discutido. Em Portugal é apenas o sinal de um “capitalismo menor”, subserviente e incapaz de existir sem os favores do Estado, colocando-se sempre a jeito e para melhor absorver favores, simpatias, influências e até negligências – como a do Banco de Portugal diante das operações irregulares que o BCP terá cometido desde 2000.

O ano termina desta maneira: com o Estado fortalecido e com os cidadãos indefesos. Os interesses dos grupos financeiros coincidem com os interesses do Estado; é uma santa aliança que deixa os cidadãos ainda mais desprotegidos, incapazes de reagir diante do encerramento de centros de saúde e de blocos hospitalares, indefesos diante do autoritarismo da máquina do Estado, abandonados às extravagâncias fiscais, sitiados pela vida difícil que se anuncia para 2008. É nisso que coincidem indecorosamente os partidos do regime, transformados em auxiliares do Estado em vez de se colocarem do lado dos cidadãos. Só isso explica o comportamento vergonhoso de eleitos que não se manifestam e aplaudem tanto o encerramento de hospitais como as perseguições políticas a que assistimos durante o ano de 2007. Estamos bem entregues a esta gente, não há dúvida.

in Jornal de Notícias – 31 Dezembro 2007

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dezembro 24, 2007

A hipocrisia que bate à porta

Vamos ao problema, para abreviar. O senhor director-geral da Saúde, Francisco George, ameaçou demitir-se caso “a lei do tabaco”, que entrará em vigor no próximo dia 1 de Janeiro, não seja levada à prática. A ideia é nobre, mas o processo é questionável. Trata-se de uma espécie de chantagem emocional: ou cumprem a lei ou o director-geral da Saúde vai imolar-se, não pelo fogo, mas retirando-se do cargo que tão bem desempenhou até agora.

Digamos que eu aprecio bastante a figura do Dr. Francisco George: ao contrário de muitos dos seus pares, que têm uma tendência evangelizadora e se mostram arreliados com o mundo, o nosso director-geral da Saúde inspira confiança, com a sua barba mal aparada, o seu ar ligeiramente apopléctico, de quem tem uma boa relação com a mesa ou o riso, ou o seu papel desdramatizador várias vezes repetido na televisão.

O meu caso é este: como fumador, apoio a lei. Já a cumpro há muito. Acho, aliás, que esta lei não faz muito mais do que repetir pressupostos e princípios já presentes noutras leis anteriores sobre o fumo em espaço público. Eu também espero que a lei se cumpra e que haja bom-senso e liberdade de escolha.

Acontece que a ameaça de demissão de Francisco George parece bastante – desculpe-me, sr. Director-Geral da Saúde – despropositada. Não sei se leu a reportagem, publicada pelo semanário “Expresso” de há duas semanas, sobre a vida nocturna dos adolescentes, ou seja, de crianças com 12, 13 ou 14 anos (a idade da adolescência baixou um tanto, como se vê). Nada que não saibamos. Simplesmente, escondemos. Muito conveniente esconder esse retrato de rapazes e raparigas de 12, 13 e 14 anos que entram em coma alcoólico, que ingerem “shots” e uísques, que fumam charros, que passam fora de casa as madrugadas até às sete ou oito da manhã. Mas é hipócrita esse silêncio.

Nas semanas mais recentes toda a gente se preocupou muito com a “noite do Porto” e com a violência da “noite de Lisboa”. Mas essa violência é que deveria levar os vários responsáveis públicos a demitirem-se. Quem passa pela rua das Janelas Verdes por volta das três da madrugada vê o espectáculo de crianças alcoolizadas, caídas no chão, embrulhadas em vómito. O Dr. Francisco George deveria demitir-se, isso sim, caso não consiga impedir os “empresários da noite” de vender “shots” a um euro às crianças dessas idades. Isso sim, seria heróico e chamaria a atenção para o fenómeno do alcoolismo nessas idades. São bares e discotecas com polícias à porta para proteger esse negócio fora-da-lei, mas não para prender os proprietários de bares que toda a gente conhece e que “empregam” crianças de 13, 14 e 15 anos como “relações públicas”.

O director-geral da Saúde deveria demitir-se caso não consiga impedir o negócio do álcool vendido a crianças no Saldanha, no Bairro Alto ou em Santos (estou a falar apenas de Lisboa), anunciado em plena rua, perante a indiferença da ASAE e das autoridades que gostam de punir o que é fácil punir, mas que deviam ter dificuldade em olhar-se ao espelho, se tivessem um nadinha de pudor e de brio. Isso sim, seria heroísmo, e eu estaria aqui para aplaudi-lo.

O Dr. Francisco George não acha que isto é um problema de saúde pública? Eu pagaria uma multa se fumasse num restaurante; mas nada vai acontecer aos criminosos que vendem álcool a esses adolescentes, aos traficantes de “pastilhas” e “bolota” ou “pólen” (ah, não conhecem?) nas escolas e nesses bares, aos criminosos que aliciam jovens para funções de “relações públicas” em bares onde se sabe que há demasiados casos de coma alcoólico, nem aos fornecedores de ilusões (essas sim, verdadeiramente ilegais) a crianças que entram na noite diante do encolher de ombros da Direcção-Geral de Saúde e das polícias. Isso sim, é uma vergonha.

in Jornal de Notícias – 24 Dezembro 2007

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dezembro 17, 2007

O mundo perfeito

O presidente da República sonha, como todos nós, com um mundo perfeito. Por isso, neste fim-de-semana, não só defendeu que os governantes devem ouvir o povo (está em causa a relação entre o Ministério da Educação e os professores), como insistiu que os problemas da educação não se resolvem com a baixa dos critérios de exigência e rigor na avaliação. O exemplo da matemática serviu-lhe que nem uma luva: “A resposta a esse problema não pode ser a desculpabilização do insucesso nem tão pouco dizer que a matemática é fácil e divertida.”

Em linhas gerais, é esse o caminho que tem sido seguido: ou se alargam as estatísticas para servir os propósitos de “inclusão”, ou se alargam os métodos para que todos brinquem na sala de aula e ninguém se aborreça. É um método conhecido de todos os que se interessam pelas coisas da educação. Se as notas andam muito baixas, levantam-se as médias; se os alunos não se interessam, aligeiram-se os conteúdos e introduz-se a variante “divertimento na sala de aula”. E o mundo ficaria muito mais perfeito.

O governo tem, como todos os outros, os anteriores e os que lhe seguirão (lamento informar o senhor primeiro-ministro, mas haverá mais governos depois deste), um problema com as estatísticas. Geralmente, e muito surpreendentemente, as estatísticas atrapalham os números e, sobretudo, os bons números. Um dos processos para contrariar esta desobediência das estatísticas é o de impedir que elas “excluam”; pelo contrário, devem “incluir”. Se há notas muito negativas a matemática, ou a, digamos, física-química, um dos processos que pode ser usado é o de subir as notas ou moderar os critérios de classificação. Logo, fica muito mais gente “incluída” e as estatísticas melhoram. Se há “abandono escolar”, acabar-se com os chumbos por faltas pode ser um processo “facilitador”.

Acontece que o papel das autoridades não é o de serem “facilitadores” de coisas que não podem ser facilitadas, sobretudo quando são exaradas lá do alto, dos corredores do Ministério da Educação. Uso a palavra “corredores” porque qualquer responsável do ME sabe que se trata de um labirinto onde tudo se perde.

Os pais sabem, às vezes tardiamente, os bons professores sabem, por muitos anos de experiência, que “facilitar as coisas” pode mostrar um mundo perfeito. Mas o mundo perfeito não existe. Eu entendo bem os pedagogos visionários e utópicos, que prevêm que com divertimento e tolerância tudo se arranja e o mundo ficará melhor. Mas não fica. Não vai ser. Pensamos que basta dar o exemplo, ler, ouvir música, usarmos computadores, sermos tolerantes – e generosos, educados, prestáveis, interessados. Com isso o mundo seria melhor. Mas não basta, infelizmente não basta. Com isso, os adolescentes das escolas seriam pessoas melhores, não usariam aquela gramática de grunhos, não faltariam às aulas, não desdenhariam dos professores que se esforçam e lhes ensinam a diferença entre o culto e o inculto, o cru e o cozido, o bem e o mal. O mundo seria perfeito. As famílias seriam honradas, pacíficas, passeariam ao domingo, fariam piqueniques, todos ajudariam a arrumar a cozinha e dormiriam a horas. Os nossos filhos leriam Dickens e Eça – ou, na pior das hipóteses, arrumariam os livros nas estantes. Interessar-se-iam por ciência e por política. Eu bem os entendo – mas não basta. É muitas vezes necessário ser cruel, usar a autoridade quando não se quer, dizer “não” quando até poderíamos dizer “sim”, pensar no que significa, de facto, a palavra exigência. A vida não é fácil. Não nos basta sermos o que somos. É preciso pensarmos nisso – que a vida não é fácil e que apender exige esforço. A democracia, que transformou as escolas em “estabelecimentos de ensino”, como se fossem “lojas do cidadão”, tem de resolver esse problema. Para ver se a escola volta a ser escola.

in Jornal de Notícias – 17 Dezembro 2007

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dezembro 10, 2007

Direitos de África em Lisboa

Dois temas para esta cimeira. O primeiro, o dos direitos humanos, sem dúvida. Evidentemente que uma cimeira exige a presença de todos – e não pode excluir ninguém à partida; disso está dependente o seu sucesso. Excluir a participação de Robert Mugabe, sem dúvida um ditador responsável por massacres cometidos contra o seu próprio povo, pelo ambiente de corrupção e de perseguição política, pela mais alta inflação de África e pela destruição da economia do seu país, poderia ser defendido caso se tratasse de um almoço entre amigos. O mesmo se poderia dizer de um homem responsável por vários crimes, como Muhammar Khaddafi. Compreende-se que a cimeira seja mais “geral” com a sua presença, mas é bom que a chamada “sociedade civil” proteste contra o facto e que se manifeste quando pode e quando tem oportunidade, até para lembrar que não é surda e, mais importante, que não é muda.

Partimos do princípio de que os direitos humanos são universais e que devem ser respeitados onde quer que seja: no Darfur (e na totalidade do Sudão) e no Zimbabwe, na Líbia e no Brasil, nos EUA e na Rússia, na China e no Irão. A UE, sob todas as presidências (Portugal não é excepção) mantém os direitos humanos na margem da sua agenda; o tema é tratado “caso haja tempo”. Mencionou-se o assunto na Cimeira Europa-África, mas “não houve tempo” para tratar deles, recentemente, na China, com quem participamos em festins. Com a China, respeitinho. Já em relação a África foi bom vermos José Sócrates e Angela Merkel falar do assunto e mencionar, claramente, os nomes.

O que está em causa no Zimbabwe, como no Darfur, como no discurso de Muhammar Khaddafi, não é apenas o emblema maneirinho dos direitos humanos e a miragem do respeito pelos princípios das democracias liberais como nós as conhecemos, com eleições livres e alternância no poder. Robert Mugabe é um criminoso que assassina impunemente os seus concidadãos e elimina os seus opositores com o silêncio cúmplice dos países africanos. O nazi de Harare, Mugabe, é visto como um herói pelos países da «linha da frente», cometa ele os crimes que resolva praticar – ele é o herói africano do ressentimento, conforme pudemos ver nas minúsculas manifestações de apoio ao ditador. Ele expulsou os fazendeiros brancos, ele lutou contra o regime de Ian Smith, coisas que parecem absolvê-lo das indignidades que tem cometido. A verdade é que as vítimas têm cor – e as vítimas de Mugabe, mais do que os fazendeiros brancos, são os negros do seu país. Não são tão importantes. Como não são importantes as vítimas do oeste do Sudão, chacinadas em silêncio e longe das câmaras da CNN.

Gostaria, pessoalmente, de ver no Zimbabwe os autores de blogs que apoiam Mugabe, de ver no Zimbabwe os manifestantes que estiveram às portas da cimeira a gritar o seu apoio ao ditador de Harare. Talvez aprendessem alguma coisa ao estudar localmente o que é a repressão, a violência, o genocídio, a pobreza gerada pela má administração e pela corrupção.
O segundo tema desta cimeira foi engolido pelo folclore de Kaddhafi, Mugabe e companheiros – e foi o discurso do presidente da União Africana. A Europa tem coisas duras para ouvir por parte dos africanos, e é bom que nos habituemos. Mas o tom do seu discurso estava essencialmente correcto: é necessário enterrar o colonialismo e as desculpas que ele providencia para o ressentimento. É bom que tenha sido um africano como John Kufuor a pedir para enterrar o colonialismo, e que tenham sido Kaddhafi e Mugabe a repetir a lengalenga histriónica dos argumentistas do “atraso de África” com base no colonialismo que se retirou há trinta anos do continente. Dirão que é pouco, e que o processo histórico é lento. Sim, é verdade – mas alguém tem de começar a falar do assunto no lado de lá.

in Jornal de Notícias – 10 Dezembro 2007

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dezembro 03, 2007

Reproduzam-se, portugueses!

Desculpem mas o tema é meu. Escusam de protestar e de ironizar, mas não vi muita gente a protestar na altura. Quando o governo quis punir por vias fiscais, creio, os casais sem filhos ou apenas com um rebento – não me lembro de ver a rapaziada a apoiar-me na guerra contra a política de repressão que visava os maus reprodutores. Para o Estado, os portugueses deviam reproduzir-se com mais regularidade e visibilidade. Era esta a mensagem: “Tenham filhos. Reproduzam-se. O Estado precisa de filhos e de contribuintes.” Quem não se entregasse às alegrias da paternidade, com os seus exultantes sacrifícios e as suas passageiras alegrias, estava em condições de ser punido pela máquina fiscal, ou discriminado face às famílias que tinham decidido multiplicar-se como mandam os evangelistas.

Acontece que o Estado gosta muito da natalidade dos seus cidadãos, exercitando-se em teorias sobre a fraca taxa de reprodução do povo, quase sempre em jeito de queixinhas. Que as pessoas já não querem famílias numerosas (fazem elas bem), que não estamos a olhar bem para o problema da taxa de natalidade europeia (sei lá), que precisamos de mais filhos gerais para equilibrar a previdência, as contas do Estado, o que vai por aí fora. Depois, o argumento moral, que não falha: os europeus não se reproduzem e daqui a umas décadas desaparecem. Portanto, resumindo, o que o Estado quer é que os cidadãos se “sacrifiquem” em seu nome, para reequilibrar as contas. Dito assim, parece uma cousa fracturante, do género “toca a reproduzir”.

Depois de ter ensaiado uma forma de discriminação negativa das famílias pouco numerosas ou dos celibatários, o governo decidiu deixar a coisa no capítulo dos ensaios. O presidente da República voltou a falar do assunto recentemente, insistindo “no problema” e, quem sabe, no desaparecimento da raça, perguntando-se se os portugueses ainda sabem como se fazem filhos. Ora, “o problema” é que a vida está como está, e ninguém de cabeça a funcionar com o mínimo de neurónios aceitáveis quer pensar nas suas obrigações reprodutivas em nome do Estado, da pátria e do futuro da nacionalidade. O Estado que tenha filhos onde quiser, mas não aborreça as pessoas com imperativos morais; o Estado é o último da fila quando se trata de questões morais.

Não sei se o leitor sabe, mas a zona onde os portugueses se reproduzem menos é na Serra da Estrela; seguem-se o Douro, Alto Trás-os-Montes, Pinhal Interior Sul e Beira Interior Norte, todas com um índice de fecundidade de 1,1. O presidente da República, vendo o deserto em que o interior das Beiras se está a transformar, lançou o repto sobre a necessidade de nos reproduzirmos. Eu concordo, por conveniência do debate. Mas olhemos para as contas dos cidadãos. Não para as contas do Estado. Insisto: para as contas dos cidadãos, para a carga fiscal, para a indiferença do Estado frente aos cidadãos (e, em especial aos pobres, aos velhos, aos desempregados). Olhemos para o trabalho dramático de Isabel Jonet à frente do Banco Alimentar e das histórias trágicas que ela conta.

Diante disto, alguém de bom-senso tem coragem de pedir aos cidadãos que se reproduzam, que se multipliquem (mesmo que seja a troco de 2500€?) e que traduzam, nas maternidades, o índice de felicidade em que vivem?

O Estado pode pedir-nos o que entender. Mas meter-se nas nossas contas privadas e nas nossas vidas íntimas?

in Jornal de Notícias – 3 Dezembro 2007

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novembro 26, 2007

Orgulho hetero, orgulho gay

A cerveja Tagus lançou uma campanha publicitária intitulada “Orgulho Hetero” para dar mais visibilidade à sua cerveja. Pessoalmente, tanto me faz que seja heterossexual como homossexual ou bissexual, desde que seja uma cerveja aprazível – o resto é publicidade. O que a campanha “Orgulho Hetero” retoma é o lema “Orgulho Gay”, tentando criar a ideia de uma cerveja para machos. Erro crasso. Como oportunamente lembrou o blogue “A Causa Foi Modificada”, hetero que é hetero não menciona o facto; limita-se a nem falar do assunto.

De resto, as imagens da campanha da Tagus são tendencialmente idiotas, mantendo-se, no entanto, ligeiramente atrás das escolhidas pela Juventude Socialista para dar conta dos grandes progressos nacionais: aparece (o leitor já viu o cartaz?) um rapazola com ar imbecil rodeado de duas teenagers igualmente dignas de fazer os coros de um cantor de feira, loira e morena (para não ofender ninguém). Este escalar do mau gosto é um prenúncio de que raramente saímos do inefável “reino da estupidez”. A Juventude Socialista que se cuide enquanto as atenções estão centradas na campanha da Tagus, cujo conteúdo foi ontem inexplicavelmente retirado do seu site. Seja como for, a ideia era criar “o primeiro espaço dedicado à causa heterossexual em Portugal”, onde era suposto “conhecer pessoas do sexo oposto, trocar experiências e divertir-te”. Idiotice pura. Já o disse: hetero que é hetero não anda em paradas hetero. Isso é coisa para exibicionistas e forcados com problemas de identidade.

O mais importante, no entanto, não foi a campanha propriamente dita, mas a reacção que motivou, chegando ao cúmulo de ver o meu amigo João Teixeira Lopes escrever que a cerveja Tagus se tornou “um signo do poder homofóbico”. “Quem a beber é cúmplice.” Os sites LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) trabalharam bastante, assinalando a concordância de género e número entre a expressão “orgulho hetero” (que foi associada a “opressão e discriminação”) e ódio não sei a quê, mas sobretudo a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Não me parece. Parece-me, antes, que a campanha publicitária não é escandalosa, nem ofensiva, nem homofóbica. Fica na memória pelas más razões, mas eu não a subscreveria nem imaginaria. Simplesmente, a reacção indignada, quase histérica e cheia de exageros, acusando-a de homofóbica, é mais ridícula do que a campanha propriamente dita e configura uma patrulha sobre toda e qualquer linguagem, engrossando a classe dos coitadinhos e das vítimas de tudo e de nada.

Essa patrulha ideológica, vigiando cada distracção, cada frase mal pronunciada, cada piada ou anedota, cada opinião, cada divergência, cada afrontamento, cada violação das regras linguísticas do “politicamente correcto”, é que me parece contraproducente. O ar escandalizado e beatífico com que se condena o humor ou as falhas de humor e se politizam coisas tão banais como uma cerveja razoável, são um sinal dos tempos. Afinal, que mal há na declaração ou na reivindicação de “orgulho hetero”, à parte a irrelevância do próprio conceito?

Como assinalou João Gonçalves no seu blogue “Portugal dos Pequeninos”, “quem é verdadeiramente livre, não tem de se ‘orgulhar’ ou de pedir desculpas por tudo e por nada. E, no limiar do ridículo, de facto a melhor resposta a um ‘orgulho homo’ é um ‘orgulho hetero’.”

Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.

in Jornal de Notícias – 26 Novembro 2007

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novembro 19, 2007

A ginja

O leitor ou conhece ou ouviu falar da Ginginha do Rossio, em Lisboa. De contrário, terá de acreditar na minha descrição: é um minúsculo estabelecimento de bebidas especializado na venda de uma das mais populares bebidas portuguesas, a ginginha; com clientela rápida e despretensiosa, a Ginginha do Rossio é uma referência para turistas que passam pela zona e para várias gerações de frequentadores que, por razões certamente inexplicáveis, continuam a passar pelo seu balcão e a pedir “uma com elas” ou “sem elas”. Uma ginginha. O estabelecimento nunca envenenou ninguém, sendo certo que também não é um modelo de limpeza. Mas é a Ginginha do Rossio.

O meu amigo Paulo Moreiras, romancista, dedicou à ginja dois livros exemplares. De acordo com a sua preciosa investigação, a melhor ginja é a da zona de Óbidos e a Ginginha do Rossio servia um dos melhores exemplares. Seja como for, Óbidos por um lado, e a Ginginha do Rossio por outro, enchem-se de turistas e de apreciadores que vão em busca dessa bebida simpática, comovente e em risco de vida. Como é bom que se diga, Paulo Moreiras começou a investigar a história da ginja depois de lhe terem dito, num restaurante, que não era uma bebida “à altura”.
Desta vez, foi a ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, que partiu em busca da Ginginha do Rossio, encerrando-lhe as portas. O argumento é a falta de higiene, tendo sido capturadas algumas garrafas da bebida.

Ao capturar as garrafas e ao encerrar o estabelecimento, a ASAE estava apenas a cumprir a sua função, que está distribuída pela segurança alimentar, pela segurança de produtos e instalações, pelas questões de propriedade intelectual e industrial e também – naturalmente – pelo turismo. Ou seja, a ASAE zela pelo cumprimento da lei. E zela de forma muito eficiente, apresentando-se ao serviço público de colete à prova de bala e de gorro passa-montanhas. Por aí já o leitor vê como é arriscado o seu trabalho e como é perigoso o mister de fiscal das actividades relacionadas com a segurança alimentar. Ser atingido por uma ginja que não mencione a sua origem é grave e fatal.

Acontece que Portugal é, segundo a ASAE (e depois das suas investidas) «um dos países mais seguros no que diz respeito à higiene e qualidade dos alimentos». Isso é uma vantagem enorme. Hoje já não há castanhas assadas embrulhadas nas Páginas Amarelas nem bolas-de-berlim nas praias. A aguardente de medronho tradicional, que procurávamos na Serra de Monchique, e que já tinha sido atingido pelos incêndios, também foi perseguida pela ASAE. Há duas ou três semanas precisei de negociar uma aguardente tradicional de vinho verde, refrescada, como um americano durante a lei seca.

A Ginginha do Rossio era um monumento nacional. Uma referência que amigos italianos, brasileiros e alemães procuravam para provar uma das melhores ginginhas portuguesas. Aquele espaço tresandava a história e a convivialidade, a sorrisos largos e a um leve ondular de fígados conservados em ginja. Pois que se varrese o seu chão com mais frequência. Que se pusesse um médico à porta. O mal, porém, não é apenas o encerramento da Ginginha do Rossio, esse parapeito da história da cidade e do país. O mal é a onda de lixívia sintética que vai passando por tudo quanto é “segurança alimentar” nas vetustas tascas onde vinhos fatais fizeram literatura e, certamente, doenças hepáticas. Essa onda que prega a normalização dos costumes alimentares acabará com a pequena alma dessas nobres instituições de pecado, como a Ginginha do Rossio. Portugal aplica estas leis melhor do que ninguém. A breve prazo, agentes policiais entrarão nas nossas casas apreendendo bacalhau com excesso de sal e ginja da Beira Alta. Seremos saudáveis e faremos jogging. Tudo o resto será encerrado.

in Jornal de Notícias – 19 Novembro 2007

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novembro 12, 2007

Acordo ortográfico: talvez sim

Ouro Preto (em Minas Gerais, Brasil) até poderia ser o cenário ideal para falarmos do assunto: no fundo, a sede da primeira grande conspiração contra o domínio português e o palco onde foram expostos os restos mortais do supliciado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é uma cidade que mantém a memória desse cruzamento entre Portugal e o Brasil. Foi aí que decorreu mais um Fórum das Letras, e que contou com participações dos vários mundos da Língua Portuguesa, chegados de Portugal, do Brasil e de África. Em várias das mesas e debates que compuseram o encontro o tema (que não fazia parte da lista de assuntos para discussão) aparecia com a mesma volatilidade com que se escondia: deve, ou não, assinar-se um Acordo Ortográfico que unifique a grafia da Língua Portuguesa?

O debate sobre o assunto corre a várias velocidades e a ritmos diferentes. Geralmente, como tive oportunidade de referir num encontro no Rio de Janeiro, quando não há mais nada para discutir, discute-se o Acordo Ortográfico. Não é um assunto de primeira grandeza; mas é um elo diplomático e político no desconcerto linguístico.

A primeira sensação, vivida por escritores brasileiros ou portugueses tem a ver com a sensação, iniludível, de uma perda afectiva – o trema, as consoantes mudas, os acentos nas paroxítonas, o fim do acento agudo nos ditongos abertos, três novas consoantes adoptadas, mais um certo número de casos que mudarão a grafia aqui e ali.

Se no caso brasileiro só 0,45% das palavras mudarão de ortografia, o caso português acrescenta um pouco mais: menos de 3%, suponho. Diante dessa baixa percentagem de mudanças, qualquer posição soará como insignificante. Os políticos assumem que a Língua Portuguesa ficará “mais forte” e que essa unificação levará a uma maior credibilização no domínio internacional. Talvez seja um argumento pífio, mas convém desdramatizar: o essencial do português de Portugal e do português do Brasil não mudará substancialmente. Continuaremos a dizer “autocarro” quando os brasileiros escrevem e dizem “ônibus”, manteremos “talho” onde no Brasil se usa “açougue”. A Língua Portuguesa não sofrerá com isso. Os onze ou doze milhões de falantes europeus, os cento e oitenta milhões da América, e os cerca de vinte milhões de África terão, portanto, uma grafia idêntica. Passaremos a escrever “ação” em vez de “acção”. Os brasileiros deixarão de escrever “acadêmico” e tirarão o trema a “tranqüilo”.

Perder-se-á muito? Ganharemos em comunicabilidade? É legítima essa mudança? Ou seja: pode um grupo de linguistas, iluminados ou não (geralmente tenho dúvidas), decretar essa mudança?

Acontece que nós não somos donos da nossa língua. Ela é mais falada fora das nossas fronteiras do que em Portugal. Acontece que a maior parte das inovações, rasgos de originalidade e de criatividade que têm sido acrescentados à nossa Língua, têm chegado de fora – e do Brasil mais do que de outro lugar.

Infelizmente, chegámos a um momento, na história da nossa Língua, em que manter o fechamento e a inflexibilidade pode acabar por custar-nos caro no futuro (o Português é, actualmente, a quinta mais falada do mundo em termos absolutos – e a terceira no Ocidente, atrás do Inglês e do Espanhol). Certamente que perderemos uma parte da nossa “excentricidade” linguística; mas é muito provável que ganhemos alguma vantagem na uniformização do padrão linguístico ou ortográfico. Não é verdade que os “manuais escolares” e os “livros didácticos” passem a ser os mesmos nos três continentes – mas se abrirmos esse corredor de comunicação entre as diferentes formas de falar e de escrever o Português, talvez prolonguemos a sua vida e o horizonte da sua existência. Cedendo aqui, ganhando ali, empatando mais tarde.

in Jornal de Notícias – 12 Novembro 2007

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novembro 05, 2007

É mau demais para ser verdade

Acho que está a fazer-se uma grande tempestade num copo de água a propósito do Estatuto do Aluno e da subsequente trapalhada que foi a votação do diploma no parlamento. Na verdade, já estava previsto que tudo isto acontecesse. Os ministros da educação, depois de resolverem os assuntos prementes da matéria administrativa da sua casa, raramente conseguem alterar o essencial; e o essencial é a qualidade do ensino; e combater pela qualidade do ensino é lutar pela elevação do grau de exigência e de rigor em todos os graus de frequência escolar. Os professores e os sindicatos estão fora dos corredores da 5 de Outubro, e acaba por ser fácil penalizar e humilhar professores. Já os pedagogos, os ideólogos do edifício escolar e os teóricos que se têm encarregado de embrulhar o suistema de ensino, esses, estão instalados no ministério.

Todos os conhecemos. Têm, antes de mais, um discurso muito próprio, cheio de metáforas e de ditirambos que nunca se referem a coisas práticas, que dificilmente estão relacionados com a escola e as suas dificuldades em existir e que, no fundo, vivem de experiências pedagógicas e vagamente científicas.

Maria de Lurdes Rodrigues encontrou o caminho facilitado; tratou de introduzir alguma racionalidade na administração escolar e na vida dos sindicatos, na “operacionalidade” e no mapa escolar. Mas, quando se esperava que essa coragem fosse transposta para a área fundamental, que é o ensino propriamente dito, entrámos no mundo do puro delírio.

Com as críticas ao processo de avaliação de professores a avolumarem-se, aconteceu a polémica da TLEBS, terminologia linguística para o Básico e o Secundário. Depois de demonstrados os erros científicos metodológicos de grande parte da sua formulação, o ministério dividiu-se; um secretário de Estado prometeu (e comprometeu-se) suspender a TLEBS; um director-geral reconheceu erros mas defendeu que o ministério devia continuar a dá-los e a ampliá-los. Vendo bem como as coisas estão, verifica-se que continua tudo igual e que a política do ministério continua a aprofundar o ruinoso caminho aberto pelos delírios ideológicos que transformaram o ensino do português numa banalidade e que vandalizaram o ensino da matemática.

Geralmente, o ministério acha que está munido de excelentes ideias. Um grupo cada vez mais numeroso (porque se acumulam as suas assinaturas ao longo dos anos) de técnicos e burocratas dessa ideologia passa incólume no meio da asneira. Eles acham que estão munidos de excelentes ideias. Mas, mesmo depois de se ter provado que essas ideias dão péssimos resultados, aqui ou no estrangeiro, mesmo depois de terem recebido críticas demolidoras, tudo continua na mesma, ou pior.

O ensino – nomeadamente a ideologia que está por detrás de todas as decisões do ministério em matéria pedagógica e científica – está entregue a esse monstro corporativo que supõe ter toda a verdade do seu lado. O estatuto do aluno e o seu regime de faltas é apenas mais um episódio lamentável a acrescentar a tantos outros. É, geralmente, gente que não conhece a escola real, que não tem contacto com o dia-a-dia das escolas, que imagina os professores como meros instrumentos ao seu dispor para as experiências mais descabidas. As vítimas dessas experiências descabidas são os nossos filhos – e é o seu futuro. Por isso, o sinal dado pelo Ministério é definitivamente mau e constitui um erro grave, desculpabilizando os alunos faltosos, penalizando os alunos cumpridores e sobrecarregando os professores e as escolas com outra categoria de “desprotegidos”: os que, deliberadamente, faltam às aulas. Tudo para adulterar e manipular as estatísticas, o que é grave demais.

in Jornal de Notícias – 5 Novembro 2007

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outubro 29, 2007

O terror em Angola

O nascimento de uma nação regista sempre um rasto de crueldade e de horrores. Quando a independência está ligada a um processo revolucionário e a uma guerra civil, o número e o género de barbaridades têm tendência a aumentar – aprendemos bastante com eles acerca do género humano.

A década de setenta foi pródiga em estatísticas dessa natureza. Angola não foi excepção, por outros motivos que não têm apenas a ver com a guerra colonial ou com a guerra civil. O livro “A Purga da Angola”, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (edição Asa), é um documento impressionante sobre os acontecimentos que se sucederam ao “27 de Maio de 1977”, e abre com esta declaração chocante: “Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.”

Não está em causa saber da bondade ou da “pureza de ideais” dos chamados fraccionistas ou “nitistas” (referência ao papel de Nito Alves, dirigente do MPLA, fuzilado pelo próprio partido); o que impressiona no livro, como já impressionava no conhecimento dos factos antes de eles terem sido coligidos em livro (mas murmurados na imprensa, reunidos em depoimentos avulsos e em memórias e testemunhos pessoais publicados aqui e ali), são a natureza, o alcance e o método com que o assassínio, a tortura, os fuzilamentos sumários, as prisões arbitrárias foram praticados durante os dois anos que durou a purga que envolveu o partido no poder em Luanda. Números são coisas vacilantes, mas é fácil chegar aos mais de 30 000 mortos que resultaram da perseguição aos “fraccionistas”.

As mortes de José Van Dunem, Nito Alves, Sita Valles (e do seu irmão Ademar), João Jacob Caetano e de muitos e muitos outros, estão rodeadas – ainda hoje e apesar dos testemunhos existentes – de mistério e de surpresas que se acumulam. A matança ordenada pelas autoridades não poupou inocentes que se sabia serem inocentes e que nunca estiveram implicados em qualquer tipo de conspiração; testemunhos orais (que eu próprio conhecia e que este livro menciona com a correspondente gravidade documental) falam de famílias chacinadas, do chão das prisões coberto de sangue onde chapinhavam presos que não sabiam de que eram acusados, de presos enterrados vivos ou metralhados junto às valas onde os seus cadáveres seriam escondidos, de angolanos decapitados ou golpeados à catanada. O registo menciona de tudo um pouco, desde homens lançados de aviões ou de ravinas, de fuzilamentos arbitrários, até sessões de tortura aplicada com crueldade indescritível. Sita Valles, ex-militante comunista portuguesa, é um dos nomes dessa lista, abandonada pelo seu partido de origem e fuzilada pelos vencedores de 27 de Maio. A sua história dramática, bem como a do seu marido, José Van Dunem, encontra ainda o pormenor dramático (publicado neste livro) de ter sido morta depois de dar à luz um bebé de que não se conhece o paradeiro – e depois de ter sido obrigada a abandonar um filho com apenas quatro meses de idade.

Passados trinta anos não está em causa enumerar a lista dos culpados, dos criminosos ou dos seus cúmplices. Algum género de justiça deve ser feito para que a crueldade tenha um nome e a história não se contente em justificar as atrocidades. Não se trata de apontar um dedo acusador; esse está apontado há muito. Trata-se, também, de não esquecer.

Na época, em Portugal, em nome da ideologia e da “razão de Estado”, os crimes e as perseguições foram silenciados e, até, apoiados. Apenas Natália Correia, solitária e heróica, em plena Assembleia, chamou a atenção para esse imenso “gulag angolano”. São trinta anos de silêncio conveniente.

in Jornal de Notícias – 29 Outubro 2007

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outubro 22, 2007

O telemóvel do procurador

A entrevista do senhor Procurador-Geral da República ao semanário “Sol” é digna de ser lida. Tenho por ele grande simpatia – nasceu no interior, foi estudar na universidade, subiu a pulso, toda a gente sabe que gosta de coisas decentes como comer, ler ou viajar (nos tempos que correm e com as “figuras públicas” que temos, não é nada mau). É um percurso sério, e o procurador-geral também tem um currículo sério.

O essencial da entrevista é muito positivo, sobretudo quando dá conta de algumas das suas e nossas inquietações, nomeadamente sobre a violência na escola e a violência sobre os velhos. Não é admissível que as autoridades continuem a mostrar tamanha passividade acerca das agressões a professores ou a estudantes, perpretadas por alunos que poucas vezes são denunciados ou por medo ou por inércia diante da passividade e indiferença gerais. É bom, aí, que Pinto Monteiro cite o antigo mayor de Nova Iorque a propósito da “tolerância zero”: tolerância zero diante do intolerável. A violência sobre os velhos é outro capítulo silencioso dessa vergonha clandestina e doméstica, sobretudo porque se trata de pessoas que não se podem queixar, que poucas vezes são ouvidos pela imprensa e pela televisão, ocupadas com “a juventude” e os imbecis. Os maus tratos a velhos são intoleráveis, como a violência sobre crianças, como a violência sobre os indefesos. Mesmo quando, diante desse quadro, o Procurador-Geral desvaloriza a violência sobre as mulheres (porque se podem queixar e porque é um assunto em relação ao qual a imprensa está, felizmente, atenta), ele é sensato. E mostra ser um homem atento. Outro dos pontos positivos da entrevista é, evidentemente, a condição de “arguido”, assunto a que já se tinha referido numa entrevista à RTP – o país está cheio de arguidos inocentes. E a condição de arguido pôde estender-se por anos, sem que o processo judicial seja concluído e sem que a máquina judicial acelere e divulgue resultados e conclusões.

No entanto, de toda a entrevista resultaram mais públicos dois pontos: primeiro, quando o Procurador-Geral revela existirem “condes, viscondes, marqueses e duques” no Ministério Público e no aparelho judicial; depois, quando diz desconfiar que o seu telemóvel possa estar sob escuta. Naturalmente, a corporação protestou: se há condes, viscondes, marqueses e duques, convinha que soubéssemos quem são. Problema de corporação.

Agora, a questão das escutas telefónicas parece-me intrigante. Repare-se: não se trata de um cavalheiro qualquer a referir arbitragens de futebol nem de um anónimo a falar de corrupção. Foi o Procurador-Geral da República a declarar que, provavelmente, está sob escuta. Isso é preocupante. Deve indignar-nos e a PGR deve entregar o telemóvel do seu responsável máximo para ser devidamente inspeccionado (se possível, por um laboratório estrangeiro).

Todos os portugueses de boa-fé querem saber quem pode estar a escutar o Procurador-Geral da República; porque quem pôs sob escuta o PGR, pode colocar sob escuta o presidente da República, o primeiro-ministro, os inspectores da Judiciária ou – o que é pior, muito pior, absolutamente pior – qualquer um de nós. Defendemos, como pessoas decentes, que as escutas só podem ser ordenadas por um juiz; algum juiz autorizou que o senhor Procurador fosse colocado sob escuta? Com que pretexto? Saber se ele, afinal, vai à caça ou come bacalhau? Naquele contexto, da entrevista, o episódio parecia inocente. Mas não é. Os magistrados querem que o procurador se desdiga por razões profissionais; é com eles. Eu só quero ser esclarecido porque acho que as escutas telefónicas, o segredo de justiça e a posse de demasiadas informações são coisas perigosas. Porque se nenhum juiz ou MP ordenou essas escutas, então é porque elas foram possíveis por ordem de alguém superior. Isso é tremendo. Temos de saber tudo sobre o assunto.

in Jornal de Notícias – 22 Outubro 2007

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outubro 15, 2007

"Fascismo nunca mais"

O episódio da Covilhã merece mais do que reflexão; merece um nadinha de riso. Certamente que não estão de todo explicadas as inconvenientes regras do relacionamento interpessoal entre os sindicalistas a os polícias locais, que parece terem optado, há muito, por manter uma certa informalidade no modo como combinam os espaços para cada uma das entidades: os sindicatos fazem os seus protestos e organizam as suas manifestações de acordo com uma lei restritiva e “repressiva” promulgada por um dos governos de Vasco Gonçalves, e a polícia mantém-se no seu lugar ou, pelo menos, avança dois ou três passos inofensivos.

Seja como for, não parece “legal” que os agentes da autoridade, no seu caminho para a Câmara da Covilhã, a pé, paulatinamente, se tenham decidido por uma paragem na sede do sindicato para beberem um café e trocarem umas palavras sobre a anunciada e prometida manifestação de protesto contra o primeiro-ministro. Mas é assim que as coisas se passam; na Covilhã e em outros lugares portugueses. Em declarações publicadas pela imprensa, uma testemunha dos factos insistiu nessa informalidade: “A Covilhã é uma cidade pequena, toda a gente se conhece.” Em Portugal também. Os polícias devem ter avisado os seus conhecidos do sindicato: “Vejam lá, não desatem a insultar o primeiro-ministro, isso só dá problemas.”

Para os responsáveis do sindicato, como para alguns constitucionalistas citados a propósito, o aviso revestir-se-ia de algum condicionamento da liberdade de expressão dos sindicalistas que aguardavam o primeiro-ministro à porta da escola Frei Heitor Pinto. Eles não deveriam ter sido avisados. Fiquemos por aí, porque é comovente.

É evidente que há sempre a história de Pedro e o Lobo. Ao fim de alguns alarmes, que se revelaram falsos, ninguém acreditava que vinha aí o lobo a sério. Com o caso da Covilhã passa-se coisa semelhante. Os manifestantes gritaram “fascismo nunca mais”, pretendendo aludir às ameaças à liberdade de expressão e de manifestação. Em Lisboa, durante essa manhã, políticos da oposição e dirigentes sindicais ocuparam os fóruns da rádio e as páginas da internet clamando alto e bom som contra a ameaça. A liberdade estaria em perigo e era preciso ir para a rua; no mínimo, subir à serra para combater na Covilhã. Cavalheiros que consideram Cuba um prodígio de democracia pluralista e que têm a Coreia do Norte na conta de um regime democrático, ou que acham que na Venezuela não se passa nada (é apenas o “socialismo do século XXI”), apareceram na televisão a bradar contra “a ameaça” que estaria a sitiar os sindicalistas da Região Centro.

Desculpem regressar à história de Pedro e o Lobo, mas é semelhante. O caso da Covilhã não tem a ver com o procedimento vergonhoso da directora da DREN (a tal que atende denúncias por SMS e vigia blogues e jornais), que deveria ter sido desautorizado pelo primeiro-ministro ou, pelo menos, por um ministério da Educação envergonhado. É um caso de província devidamente aproveitado pelo sindicato. A “grave intimidação” não passou de uma novela de costumes provinciana, tal como a situação de José Rodrgues dos Santos é bem capaz de não atingir a condição de escândalo – e de se ficar por um combate de egos desavindos.

No fundo, o desenlace é risível e constitui uma quase derrota dos que se preocupam com a causa da liberdade de informação, de expressão e de opinião. A história deste protesto fica com um ar folclórico. O que se fez foi aproveitar justas e fundadas preocupações sobre a tomada do aparelho de Estado por diligentes denunciantes e pequenos inquisidores, para valorizar a acção dos profissionais do protesto. É uma pena. Eles nunca aprenderam nada com a história de Pedro e o Lobo.

in Jornal de Notícias – 15 Outubro 2007

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outubro 08, 2007

O fim de Bush e o campo liberal

Estão a terminar anos de suplício para a consciência liberal; o fim desse período concluir-se-á com o adeus ao consulado de George W. Bush nos EUA. Durante os últimos sete anos, depois do 11 de Setembro, essa consciência liberal ficou refém de um terror que não podia negar, do terrorismo que aumentou as suas actividades e de uma reacção desajustada cujas consequências não pôde prever, além de ter sido prisioneira das atitudes do presidente americano e dos delírios de uma série de ambiciosos conselheiros que viam o mundo como um laboratório para o seu fundamentalismo cristão.

A invasão do Iraque constituiu um momento crucial da história contemporânea. Todos aqueles que viram nos atentados do 11 de Setembro um sinal da barbárie e uma ameaça à coexistência pacífica, acabaram por ser traídos pelas sucessivas mentiras da administração americana sobre o “arsenal” de armas de destruição massiva ao dispor de Saddam Hussein. Se a retórica de George W. Bush era sobretudo defensiva, a quantidade de erros acumulados durante a invasão do Iraque e no restabelecimento de um estado de direito no Afeganistão não podem ser desculpados de forma leviana. Tanto a actual administração americana como os seus ideólogos têm de ser responsabilizados por esses equívocos e por terem abusado da boa-fé de milhões. É uma lei da história e da política. E foram esses erros, equívocos e desleixos que mais contribuiram para atacar o campo liberal nos últimos anos.

George W. Bush é um empecilho à afirmação da democracia e da consciência liberais – e um instrumento acessível para o anti-americanismo primário. A direita e o centro-direita precisam de livrar-se desse empecilho para recuperarem a credibilidade que saiu beliscada do confronto com os velhos fantasmas do anti-americanismo, o único pilar que sobrou à esquerda tradicional depois da queda do império soviético. Precisam, também, de se livrar dos neo-conservadores e da sua tralha religiosa para regressarem ao cânone do liberalismo tradicional e do conservadorismo europeu; e precisam de livrar-se da tralha neo-liberal para voltarem a ser liberais, intensamente liberais, livremente liberais.

Chegou a hora de assumir que as doutrinas de George W. Bush para o seu país são antiliberais – e, para o mundo, mostraram que são desleixadas.

Não se percebe como, na história das ideias do último quartel do século XX, um termo tão expressivo e tão belo, “liberal” (reproduzo as palavras de Bernard Henri-Levy no seu último ensaio sobre a América), pôde ser tão enxovalhado pela esquerda e pela direita; ele diz respeito a uma consciência livre da cidadania, a uma independência de carácter que é herdeira dos cavalheiros e das ideias que no século XIX forjaram as nossas sociedades democráticas; diz respeito ao primado da liberdade, dos direitos dos cidadãos e do rigor republicano sobre o interesse absoluto do Estado e o prolongamento dos interesses de casta. Isso é ser liberal no nosso velho mundo.

O fim do consulado de George W. Bush não colocará um ponto final no anti-americanismo. Novos fantasmas se erguerão para mitigar a fome de totalitarismo e de horror. Mas é uma oportunidade para que o campo liberal procure novas soluções para problemas inteiramente novos colocados pelas sociedades contemporâneas: comportamentos individuais, atitudes colectivas, liberdade de escolha. Com o fim do neo-conservadorismo americano é provável que possamos falar de novo do que nos importa: ser conservador, ser liberal. Recuperar-se-á, provavelmente, uma parte da liberdade de crítica, hipotecada na conjuntura que dominou os dois mandatos de George W. Bush.

Ou seja: não se podem combater os fantasmas antiliberais com recursos que lembram o antiliberalismo clássico da direita.

in Jornal de Notícias – 8 Outubro 2007

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outubro 01, 2007

Afinal, quem votou em Menezes?

Paula Teixeira da Cruz anunciou que, caso Menezes vencesse as eleições internas do partido, as elites iriam abandonar o PSD. Ora, as elites já o tinham abandonado. Estavam na sala-de-espera, aguardando por 2011, a meio do segundo ciclo de Sócrates. A eleição de Menezes é, por isso, uma surpresa para os bons espíritos.

Por isso, há lições fatais a retirar destas eleições. A primeira delas: as “elites” estavam convencidas de que o partido iria perder as eleições de 2009 e que, portanto, não valia a pena contrariar uma lei do destino; o melhor seria ir aguentando as coisas, fazendo negócios com o regime, seguir a lógica do bloco central (agora tu, depois eu), uma vez que José Sócrates fez pelo PSD aquilo que o PSD não foi, no poder, capaz de fazer pela sua base eleitoral: tomar iniciativas importantes na área das finanças, do ensino, da reforma da administração. Para quê incomodar-se a enumerar princípios, se Sócrates e os socialistas tinham tomado para si uma parte do programa da direita? A resposta seria simples: deixemos que Marques Mendes se ocupe do partido, de mansinho, trate das quotas, vá equilibrando as distritais, vá perdendo e ganhando no parlamento, até chegar a hora. Os “notáveis” do PSD iriam tratando da vidinha, reservando lugar na sala-de-espera, acenando uma vez por outra quando a crise batesse à porta de Sócrates. As “elites” estavam convencidas de que existe uma ordem natural das coisas e de que o eleitorado acabaria por se cansar de Sócrates e dos socialistas (mesmo que mais cedo se canse dos socialistas do que de Sócrates). Nessa altura, eles acenariam mais alto e regressariam. Limitar-se-iam a agradecer a Marques Mendes os serviços prestados, mas segredar-lhe-iam que o seu tempo tinha passado.

A segunda lição a retirar é que há uma diferença acentuada entre o eleitorado do PSD e a sua base de militantes. Tal como acontece no PS, o eleitorado flutua, retrai-se ou entusiasma-se, empresta a crédito o seu voto – mas não quer compromissos. Compreendo-se. Parte substancial do eleitorado do PSD votou Sócrates nas últimas eleições. Quando o PS julgava que tinha o negócio garantido, conferiu a dura realidade: o eleitorado tinha concedido apenas um empréstimo; por isso o PS perdeu as autárquicas e as presidenciais. Esse eleitorado flutuante, inteligente, que não vê grande saídas profissionais no sistema, nem garantias à esquerda, vota PS ou PSD consoante lhe convém e consoante aprecia, ou não, o líder do momento. Sócrates caíra-lhe nas graças; era preciso esperar por outra figura. Esse eleitorado, ao contrário do que se pensa, compara, faz contas, toma notas, dispõe-se a ser cativado, conhece o seu valor. Sabe que o seu voto conta e está disposto a negociá-lo. Mas esse eleitorado pouco se confunde com a base de militantes do PS ou do PSD. Cavaco compreendeu-o quando, em 1994, começou a estar cansado das distritais, das concelhias e dos barões do seu partido – porque o seu apoio era mais vasto. Se os socialistas ainda não o compreenderam, trata-se de burrice.

Por isso, compreender eleição de Menezes, explicá-la, é entrar nesse mundo conturbado que está para além das nobres ideias das “elites”, que aguardavam na sala-de-espera do partido, emolduradas ou adormecidas nos pedestais. As “bases” desse PSD profundo perceberam o cenário e viam em Marques Mendes uma liderança irrisória – o que é pena mas é a vida; e arriscaram. O “risco Menezes” deixa-os disponíveis para depois de 2009; se as “elites” querem futuro para depois de 2009, que apareçam. O eleitorado espera. Mas as “bases” têm pressa e não gostam de ser enganadas.

PS – O Dr. Mário Soares, que é um homem cheio de visões, diz que a eleição de Menezes é uma desgraça para o PSD. Todos estamos habituados às suas desgraças. O paraíso e o inferno estão cheios delas.

in Jornal de Notícias – 1 de Outubro 2007

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setembro 24, 2007

Kate

Nesta altura, o número de portugueses que não emitiu uma opinião definitiva sobre o caso Madeleine McCann é muito reduzido, mesmo que a “opinião definitiva” seja apenas passageira. É natural e inevitável: estão presentes, no caso Madeleine McCann, quase todos os ingredientes do drama – o rapto ou o homicídio, a criança que é raptada por um criminoso ou a Medeia que mata os próprios filhos, a campanha por Maddie e as suspeitas sobre os pais. Mais do que o drama, no entanto, o caso transformou-se numa trama policial que alimenta várias teorias da conspiração, todas elas capazes de abalar a nossa fé no género humano. Seja como for, a história está longe do epílogo.

Um dos epicentros desta tragédia aconteceu, no entanto, quando a polícia resolveu apreender – dando-lhe existência – o diário de Kate McCann. No extraordinário mundo do segredo de justiça português há sempre formas de os documentos chegarem à imprensa para proteger um dos lados do conflito – porque se trata de um conflito entre duas trincheiras armadas da sua fé. Quando a imprensa veste a pele de moralista, faz figuras ridículas; ao tentar um assassinato de carácter na figura de Kate McCann, o retrato foi absurdo. Não ocorreu apenas nos jornais portugueses. Os ingleses, espanhóis, franceses e brasileiros, davam largas à sua capacidade de indignação subtil ao afirmarem que, preto no branco, no segredo do seu diário, aquela mãe achava que as crianças eram histéricas, que Maddie era hiperactiva e que o marido não ajudava a tratar dos gémeos. Daí se inferia, na alma popular incitada pelos jornais, que estava tudo escrito e que a polícia ia deitar a mão (com base em quê?) àquela mãe cruel. Ora, todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles eram hiperactivos. Todas já acharam que os maridos não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora, puericultora ou educadora de infância. O que os jornais quiseram fazer com a “caracterização psicológica” de Kate McCann a partir de fragmentos escolhidos do seu diário é, francamente, uma filha da putice. O leitor conhece a expressão.

A multidão ulula, querendo justiça, sangue e castigo. O rosto de Kate McCann, aparentemente impassível, convida as multidões ululantes à gritaria; as “multidões do sul” sofrem ruidosamente com os seus coros de carpideiras e ficam indignadas quando o “instinto maternal” não se manifesta em lágrimas ou em expressões delicodoces. Kate McCann não chorou o suficiente – é crime. Segundo um outro jornal, ela “teria problemas de relacionamento e dificuldade em controlar os seus filhos”. Um outro informa-nos sobre os vícios de Kate: ela frequentava “esplanadas, charcutarias e lojas de roupa, decoração e produtos de beleza”, e não dispensava o seu cabeleireiro. Coisas terríveis que uma boa mãe não devia fazer.

A “hora e meia fatal” daquele dia 3 de Maio será estudada ao minuto. Fica claro que existe, por parte dos McCann, algum tipo de negligência e de comportamento duvidoso. Para a polícia, é evidente a necessidade de o fazer; até porque, se não se provar a culpabilidade de Kate no destino de Madeleine, prova-se pelo menos a sua negligência, o que os satisfaz bastante aos olhos do machismo ululante. O caso Madeleine transformou-se, assim, no caso Kate. Como dizia o blogger Bruno Sena Martins (“Avatares de desejo”), espero que eles estejam inocentes. De contrário, o seu sofrimento é incomensurável.

in Jornal de Notícias - 24 Setembro 2007

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setembro 17, 2007

Computadores na escola

Uma das grandes apostas deste governo em matéria de educação é a entrega de computadores nas escolas. Uma série comovente de reportagens televisivas e fotográficas mostra o primeiro-ministro e a ministra da Educação entregando portáteis a escolas igualmente comovidas e agradecidas. A generalidade das pessoas acredita, piamente e cheia de boa-fé, que este é um passo decisivo para a melhoria do aproveitamento escolar e para que o país mostre níveis superiores de rendimento científico.

Longe de mim criticar a iniciativa. O conhecimento da rede (net), o seu manuseamento, o trabalho de pesquisa, o incentivo à partilha de informação cosntituem valores modernos e essenciais – e, certamente, um passo para a democratização do acesso à informação. Simplesmente, ao mesmo tempo que os computadores são entregues nas escolas, ao mesmo tempo que a sua vulgarização é apadrinhada pelo próprio ministério da Educação, é necessário criar alguns mecanismos de defesa. E uma série de aversativas não é prejudicial; convém estarmos avisados.

Suponho que qualquer um tem o direito de duvidar sobre o argumentário novitecnológico que está a ser usado. Por exemplo, aquele que dizia “às vezes os professores desenhavam um losango e não se percebia muito bem, porque não tinha jeito para o desenho; agora, com computador, está tudo resolvido”. Deixamos de usar a mão, de apreender “o processo”, de esperar pelo desenho – tudo aparece no computador; é uma gravíssima perda antropólogica. Como já deixámos de convencer os meninos a estudar a tabuada e a exercitar a memória. É hoje frequente ver alunos do 9.º ano de escolaridade incapazes de efectuar operações matemáticas simples sem o apoio de calculadoras – somar, multiplicar, dividir, subtrair.

Há uma excessiva preocupação com “o aspecto que as coisas têm” e a facilidade com que se estuda. Pode haver erros de percurso sérios se não mostramos que “o aspecto que as coisas têm” é resultado de um longo processo de maturação e de experiência, de tentativas e de erros; da mesma forma, estudar não é fácil – implica participar nesse processo de tentativas, erros, sacrifícios (não ir ao cinema para ficar a praticar equações), coisas absurdas (decorar fórmulas essenciais, como a tabuada, os elementos químicos, as declinações – ou seja, as ferramentas). Ou seja, pode haver recompensas. Recompensas imediatas, por que não? Mas a recompensa pode ultrapassar a dimensão de prazer puro – pode significar que se ultrapassou um ritual de iniciação (ao conhecimento dos números, da métrica ou das dinastias).

Grande parte destas guerras estão perdidas (por exemplo, a utilização de calculadoras no Básico, onde fazer cópias, ditados e decorar a tabuada é crime). Por isso, a fase seguinte, a utilização de computadores portáteis para os trabalhos escolares deve, simplesmente, ser acautelada. 1) A net fornece o melhor e o pior, o erro e o verdadeiro, o complexo e o lugar-comum; ver multidões de alunos a plagiar a Wikipédia e dados incorrectos dos blogues não me parece um avanço. 2) A pesquisa na net substitui, para todos eles, a frequência dos livros e das bibliotecas, bem como a leitura dos textos originais; 3) A proximidade entre a “pesquisa” na net e o mundo lúdico e desviante da internet pode constituir um perigo fatal: é como procurar dados sobre “estudo do meio” e, ao mesmo tempo, entrar no MSN. 4) A promiscuidade entre aquilo que é trabalho e aquilo que é jogo e divertimento acaba por prejudicar, naturalmente, o que é trabalho. 5) É fácil plagiar na internet; a maior parte dos trabalhos escolares que eu vi não passa de um conjunto de cópias descaradas de patetices, e os professores vão perder muito do seu tempo a detectar esses plágios (eu sei que basta o Google...).

Seria interessante ouvir os professores. Eles sabem mais do que os “técnicos de educação”.

in Jornal de Notícias - 17 Setembro 2007

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setembro 10, 2007

A noite chique não está sozinha

O ministro da Administração Interna foi ao Parlamento dizer que a GNR deu o corpo às balas em Viana do Castelo, para responder às acusações de laxismo e de aumento do “clima de insegurança”, vindas do PSD. Periodicamente, diante de uma vaga de assaltos e de homicídios, o país parlamentar desaba sob o insuportável peso do ridículo. Não que o assunto não seja importante, mas quando se trata de “insegurança”, o melhor é exagerar e chamar pelo pior que há em nós; no caso dos políticos, esse pior chama-se demagogia.

Ora, de vez em quando a euforia regressa e o país é comparado a um faroeste; simplesmente, há um cruzamento de dados que convém estabelecer. Essa relação tem a ver com “a noite”. Quando se fala na “noite” há toda uma indústria que se evoca, incandescente e explosiva: bares, discotecas, consumo de drogas e de álcool, carros em alta velocidade, adolescentes iniciando uma carreira promissora na matéria, espancamentos tiroteios, negócios obscuros e ilegais, ruas povoadas de enrgúmenos, invasões dos subúrbios.

Há aqui uma mudança: as cidades, que até aos anos setenta viviam com relativa tranquilidade e protecção policial, deixaram “a noite” para uma fauna interclassista e poderosa, violenta e organizada. Evidentemente que o fascínio das burguesias urbanas pela “noite” (essa promessa de aventura, de sexo e de evasão) não contava, como sempre, com a democratização acelerada do seu espaço de diversão. A “noite”, que tinha o seu “glamour” e os seus nomes gravados a ouro e pérola, passou a ser perigosa; o pessoal dos subúrbios e dos bairros pobres ou remediados também tem direito a esse “glamour”, vivido à sua maneira, mesmo que lhe estrague o arranjinho e lhe retire o brilho. Claro que a noite é violenta; claro que é o reino da transgressão; claro que alberga o crime muito mais facilmente; claro que contribui para “dissolução moral” e para que os adolescentes “ganhem experiência”. É a vida e não é só de agora.

Nós (eu, sim), os burgueses desenganados, na nossa placidez e desejo de conforto, ficamos em casa, vemos televisão, lemos livros e compramos DVDs, jantamos com amigos, jogamos dominó e levantamo-nos relativamente cedo. Se saímos à noite, protegemo-nos em lugares tranquilos. Somos pacatos. É (para o discurso “jovem” das televisões e do cinema) um ideal de vida medíocre e desprezível. Aceito. Simplesmente, o género humano quer tudo ao mesmo tempo, e a “burguesia moderna”, então, exagera: quer recusar esse modelo de vida “medíocre e desprezível” e, ao mesmo tempo, exige segurança nas ruas para se proteger dos arruaceiros; quer policiamento à porta dos bares mas, muito avançada, acha que os polícias são inoportunos; escandaliza-se com os bairros vizinhos minados pelas drogas mas snifa a sua coca de luxo; quer melhor aproveitamento escolar nos liceus e, ao mesmo tempo, discotecas abertas até meio da manhã.

Ora, não se pode querer tudo ao mesmo tempo. Quando ocorreu a primeira grande vaga de crimes pelas províncias fora (de que o caso Meia Culpa, de Amarante, foi um exemplo mortal), descobriu-se que Portugal não era uma paisagem cheia de melros nas oliveiras e de gente pacata que trabalhava das nove às cinco e economizava para o futuro. Para grande parte desse país nocturno e adequado para o cinema, a vida começa quando quase tudo é permitido e a vigilância real abranda.

A histeria é escusada: os chamados “níveis de insegurança” são relativamente pacatos. O chamado “bas-fond” existe como existe a “noite”, onde não só todos os gatos são pardos como toda a tentação é fatal. Não se pode querer apenas o “chique da noite” e tratar a polícia como se fosse uma entidade pária e incómoda. Infelizmente, é mesmo isso: todos os gatos são pardos.

in Jornal de Notícias – 10 Setembro 2007

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setembro 03, 2007

O mau estado dos cidadãos

O Presidente da República vetou a lei de responsabilidade civil extra-contratual do Estado. O assunto passa ao lado das preocupações da maioria dos cidadãos ou entre os outros dois vetos que ocuparam mais espaço nos jornais – o do estatuto dos jornalistas e o da lei orgânica da GNR. Acontece que as dúvidas levantadas pela chamada lei de responsabilidade extra-contratual do Estado estendem-se muito para lá da natureza da própria lei, cujo princípio parece – ao Presidente – essencialmente correcto. Mas, se tanto no caso do estatuto dos jornalistas (um nó górdio que o governo há-de ter dificuldade em desatar) como no da lei orgânica da GNR, o parecer presidencial é rigorosamente fundamentado e demonstradas as lacunas, os perigos e os atropelos dos diplomas (cujos textos tinham sido aprovados no parlamento apenas com o voto favorável dos socialistas), já no caso da responsabilidade civil extracontratual do Estado (que no Parlamento obteve a unanimidade das bancadas) o problema da lei está, digamos, nas consequências. O Presidente tem medo do que possa acontecer ao Estado.

Essencialmente, esta lei tem como função proteger o cidadão dos arbítrios cometidos pelo Estado, responsabilizando este pelos seus contratos, decisões, processos, danos causados, atrasos, erros e outros pecados administrativos que todos conhecemos. A lei que está em vigor coloca o Estado no centro da vida da sociedade e corresponde a um modelo autoritário e a uma visão desajustada da vida actual; a lei que o Presidente vetou pretendia responsabilizar o Estado e proteger os cidadãos nas suas relações contratuais com o Estado. Uma das consequências desta lei, caso entrasse em vigor, seria o aumento das reclamações e da legitimidade dos cidadãos para pedir indemnizações ao Estado ou entidades públicas. O argumento do Presidente insiste no perigo das consequências financeiras para o Estado e na sobrecarga dos tribunais com eventuais processos.

Há, evidentemente, uma justificação para o veto presidencial: o diploma foi elaborado sem serem apreciadas as suas consequências para o bem-estar do Estado “e a estabilidade das finanças públicas”. Como é habitual nas hostes parlamentares, legislar é barato e fácil – e legislar de forma “politicamente correcta” é ainda mais fácil e mais irresponsável. Mas, ao vetar o diploma da forma que o fez, o Presidente não só abriu a caixa de Pandora onde se esconde o periclitante mecanismo que regula as relações entre o Estado e os cidadãos, como reconheceu que o Estado ficaria em maus lençóis se houvesse justiça. Vamos e venhamos, há aqui uma contradição: o Presidente concorda com o princípio mas teme o resultado, preferindo salvar o Estado e a sua máquina (mesmo que ela proceda mal, mesmo que aja com má-fé, preguiça, má-vontade, desleixo e irresponsabilidade) do que colocar-se ao lado dos cidadãos que não têm defesa contra os arbítrios da Administração. O sinal dado é péssimo: em caso de dúvida, o Estado e a sua máquina saem beneficiados porque uma indemnização, mesmo que justa, não pode colocar em perigo a “estabilidade orçamental”.

Sabemos, também, que o Parlamento devia ter ponderado melhor. Para quem vive exclusivamente à conta do Estado, o único remédio para financiar as contas traduz-se no aumento dos impostos. Nisso, o Presidente tem razão. Mas, nesse caso, não lhe custava nada insistir no carácter absolutamente justo dos direitos dos cidadãos diante da máquina e da geringonça do Estado, e na necessidade de o Estado melhorar os seus serviços e o seu tom de voz. É uma maneira de dizer, claro. Mas ficava dita uma coisa semelhante. O Presidente não pode é associar-se aos que tratam os cidadãos e os seus direitos individuais como um empecilho para as contas e para a felicidade do Estado.

in Jornal de Notícias – 3 Setembro 2007

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agosto 27, 2007

O tempo em que havia mestres

Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Há frases assim, descritivas, banais, que são o retrato mais fiel de uma comoção. Hoje não temos grande respeito pelos professores – ou pelo menos pela própria noção de “respeito pelos professores”. Durante os meus tempos de faculdade, íamos aqui e ali, ouvi-los, aos professores. Assisti à última lição de Vitorino Nemésio, às derradeiras aulas de Jacinto do Prado Coelho, aos últimos seminários de António José Saraiva, por exemplo, com a sensação de estar diante de três das grandes figuras da universidade. O que esperávamos desses momentos não era propriamente a revelação de um saber que nos redimisse ou salvasse no meio da nossa própria ignorância, mas que se confirmasse essa comoção – o “grão da voz” que subia mais alto.

Alterávamos horários e sacrificávamos horas de lazer para atravessar a cidade e escutar António José Saraiva, que nos interrogava e deixava surpreendidos a cada lição dos seus seminários – sobre Vieira, sobre o sebastianismo, sobre a Geração de Setenta. Eu apreciava-lhe o sentido de humor, mas também o sarcasmo, que era uma explosão de fúria num homem generoso e bom. Eram cruéis, os professores. Estes e outros. Os mestres. Nós também éramos diferentes e tínhamos prazer em ouvir, em aprender e em sermos desafiados para outras leituras e recordações.

Às vezes olho para as estantes e vejo os seus livros – títulos que se conservam sempre por mais que mudemos de casa e rearrumemos a biblioteca. E um halo de respeito regressa, uma comoção, qualquer coisa que só se comunica verdadeiramente a quem pode compreender a sensação. O respeito pelos professores. Óscar Lopes, Saraiva, Nemésio, Prado Coelho, Aguiar e Silva, Helena Rocha Pereira, David Mourão-Ferreira, Mário Dionísio, Luís Albuquerque, Vitorino Magalhães Godinho, Serrão, Oliveira Marques, Lindley Cintra. Podíamos não frequentar as suas aulas, mas íamos ouvi-los uma vez por outra. Esse era, aliás, um dos princípios da Universidade: estarmos ali para ouvir, para testar a nossa disponibilidade.

Mas esses eram os nomes de outra geração. Cresci na dúvida sobre o saber, o conhecimento, o ensino, a palavra dos mestres. Um dos nomes derradeiros era Eduardo Prado Coelho, que – repito a menção ao meu orgulho pessoal – foi meu professor. Foi, depois, meu amigo. Por vezes, num artigo, numa declaração, Eduardo referiu-se a mim e dizia: “... que foi meu aluno.” Eu também tinha orgulho nisso. Também alterei os meus horários para, depois de um ano em que fui seu aluno, poder frequentar um dos seminários que dirigia, naqueles fins de tarde comuns, quando os corredores da faculdade se esvaziavam e as pessoas estavam cansadas ou queriam, apenas, voltar para casa. Íamos ouvi-lo como, antes, o líamos: para ver o que dizia EPC. Com o tempo, a maturidade, a vaidade e até a coragem e sobretudo o trabalho, pôde ter desaparecido o fascínio pelo seu discurso, pelas suas citações e leituras, pelo seu brilho, pelas suas opiniões – mas o respeito mantinha-se.

Hoje discorda-se muito antes de estudar, de trabalhar, de guardar silêncio. Nessa altura sabíamos que só se podia discutir sobre o que se tinha estudado verdadeiramente. Só se podia duvidar dos mestres – que tinham duvidado dos seus mestres – depois de ter estudado aquilo que eles ensinavam ou pensavam ou escreviam. Esse era o segredo das “humanidades”. Parte da minha geração teve muito trabalho para duvidar de Eduardo Prado Coelho ou para discordar dele. No momento em que a sua morte gera todo o tipo de excelentes elogios, gostava de guardar esta imagem de EPC. Ele era brilhante, eufórico, fascinante, um leitor infatigável. Eu não concordava com ele em muitas coisas, da política à literatura. Éramos amigos. Mas sobretudo foi meu professor. Íamos ouvi-lo, o que constitui uma homenagem viva. De certa maneira, foi um dos últimos grandes mestres do nosso século.

in Jornal de Notícias – 27 Agosto 2007


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agosto 20, 2007

A credibilidade do anonimato

Tudo começou quando o presidente do Benfica anunciou, com a compreensiva cobertura da imprensa, que tinha descoberto à porta de sua casa um dossier “anónimo” com “informações relevantes” sobre o fantástico mundo do futebol e, em especial, sobre o “apito dourado”. Os “incertos”, como se usa escrever nos autos, não quiseram entregar o seu documento à polícia, aos tribunais ou ao governo; confiavam mais no presidente do Benfica, que lhes oferecia mais garantias. Assim vai o mundo.

Seja como for, e munido de uma delegação à altura e devidamente empertigada, o cavalheiro entregou o dossier “anónimo” às autoridades, exigindo esclarecimentos, investigação, fuzilamentos, moral nas ruas, paz nos balneários, castigos, açoites, castidade no lar e denúncias públicas. As autoridades fizeram-lhe a vontade e o novo procurador-geral da República, que conhece bem a imprensa, mencionou a vontade de fazer justiça por todos os meios. Pôs a polícia a ler.

Ora, como se sabe, um dossier “anónimo” é um dossier que não tem assinatura: ou lhe falta assinatura, pura e simplesmente, ou a apagaram para que seja “anónimo”. Por exemplo: alguém pode elaborar um dossier “anónimo” e, para lhe dar credibilidade (imagine-se!), é necessário retirar-lhe a assinatura; imagino que, se a tivesse, ninguém ligaria. Sem assinatura (esse sinal infame que indica o nome do acusador, do denunciante, do queixoso, do mentiroso, da vítima ou do interessado), o documento ganha muito mais credibilidade.

Entretanto, apareceu um novo dossier “anónimo”, agora em papel timbrado da PJ; a sua origem pode, portanto, ser diferente do primeiro, mas nada o garante porque anonimato é anonimato. De qualquer modo, as autoridades, postas diante dessa evidência, têm de apreciá-lo, porque não é possível desprezar um dossier “anónimo” e apaparicar o outro. Há, como se sabe, uma ética do tratamento do dossiers “anónimos”; faz parte da originalidade portuguesa – se ligas a um, tens de ligar a outro; se lês um, tens de ler o outro, e assim por diante, até não haver espaço nos arquivos da Procuradoria ou lugar nas primeiras páginas dos jornais.

O que eu faria e o que o leitor faria é, provavelmente, diferente do que está a ser feito, mas há pormenores que nos ultrapassam. Evidentemente que na base do “anonimato voluntário” poisam mais facilmente a mentira, o interesse, o embuste, a pataratice, a impostura e até o medo. A assinatura não está lá; mas a marca do forjador permanece, o albardeiro deixou-a.

Simplesmente, procuradores, polícias, investigadores anónimos e diligentes funcionários dos departamentos criminais, em vez de chamarem o pessoal do CSI de Las Vegas, para encontrarem impressões digitais, manchas de uísque, pingos de sardinha e de caldeirada, ou cabelos sujos, sentam-se nos seus gabinetes (vá lá, é uma imagem literária), ajeitam os óculos, empilham uma série de blocos para apontamentos ao lado de uma dúzia de lápis afiados, e iniciam a leitura. Fazendo a vontade aos autores dos dossiers “anónimos”, ou a quem lhes retirou a assinatura, deixam na opinião pública a ideia de que a denúncia anónima, a falta de escrúpulos, a chantagem pessoal e a literatura de vingança mais abjecta são instrumentos da justiça ou da procura da verdade.

É evidente que este exemplo pode frutificar. Ele pode trazer benefícios evidentes quer à indústria de entretenimento, quer ao negócio do papel impresso. Centenas de autores de dossiers “anónimos” estão disponíveis para continuar este trabalho e para exigir leitores na polícia e nos gabinetes de investigação criminal. Romancistas falhados, burladores profissionais, delatores de vizinhos, mentirosos encartados ou patifes banais estão agora autorizados a escrever os seus textos. Vinte, trinta páginas bastam para aceder à glória. É uma alegria. O dossier “anónimo” está na moda. Convido-vos à escrita.

in Jornal de Notícias - 20 Agosto 2007

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