Outubro 01, 2007

Afinal, quem votou em Menezes?

Paula Teixeira da Cruz anunciou que, caso Menezes vencesse as eleições internas do partido, as elites iriam abandonar o PSD. Ora, as elites já o tinham abandonado. Estavam na sala-de-espera, aguardando por 2011, a meio do segundo ciclo de Sócrates. A eleição de Menezes é, por isso, uma surpresa para os bons espíritos.

Por isso, há lições fatais a retirar destas eleições. A primeira delas: as “elites” estavam convencidas de que o partido iria perder as eleições de 2009 e que, portanto, não valia a pena contrariar uma lei do destino; o melhor seria ir aguentando as coisas, fazendo negócios com o regime, seguir a lógica do bloco central (agora tu, depois eu), uma vez que José Sócrates fez pelo PSD aquilo que o PSD não foi, no poder, capaz de fazer pela sua base eleitoral: tomar iniciativas importantes na área das finanças, do ensino, da reforma da administração. Para quê incomodar-se a enumerar princípios, se Sócrates e os socialistas tinham tomado para si uma parte do programa da direita? A resposta seria simples: deixemos que Marques Mendes se ocupe do partido, de mansinho, trate das quotas, vá equilibrando as distritais, vá perdendo e ganhando no parlamento, até chegar a hora. Os “notáveis” do PSD iriam tratando da vidinha, reservando lugar na sala-de-espera, acenando uma vez por outra quando a crise batesse à porta de Sócrates. As “elites” estavam convencidas de que existe uma ordem natural das coisas e de que o eleitorado acabaria por se cansar de Sócrates e dos socialistas (mesmo que mais cedo se canse dos socialistas do que de Sócrates). Nessa altura, eles acenariam mais alto e regressariam. Limitar-se-iam a agradecer a Marques Mendes os serviços prestados, mas segredar-lhe-iam que o seu tempo tinha passado.

A segunda lição a retirar é que há uma diferença acentuada entre o eleitorado do PSD e a sua base de militantes. Tal como acontece no PS, o eleitorado flutua, retrai-se ou entusiasma-se, empresta a crédito o seu voto – mas não quer compromissos. Compreendo-se. Parte substancial do eleitorado do PSD votou Sócrates nas últimas eleições. Quando o PS julgava que tinha o negócio garantido, conferiu a dura realidade: o eleitorado tinha concedido apenas um empréstimo; por isso o PS perdeu as autárquicas e as presidenciais. Esse eleitorado flutuante, inteligente, que não vê grande saídas profissionais no sistema, nem garantias à esquerda, vota PS ou PSD consoante lhe convém e consoante aprecia, ou não, o líder do momento. Sócrates caíra-lhe nas graças; era preciso esperar por outra figura. Esse eleitorado, ao contrário do que se pensa, compara, faz contas, toma notas, dispõe-se a ser cativado, conhece o seu valor. Sabe que o seu voto conta e está disposto a negociá-lo. Mas esse eleitorado pouco se confunde com a base de militantes do PS ou do PSD. Cavaco compreendeu-o quando, em 1994, começou a estar cansado das distritais, das concelhias e dos barões do seu partido – porque o seu apoio era mais vasto. Se os socialistas ainda não o compreenderam, trata-se de burrice.

Por isso, compreender eleição de Menezes, explicá-la, é entrar nesse mundo conturbado que está para além das nobres ideias das “elites”, que aguardavam na sala-de-espera do partido, emolduradas ou adormecidas nos pedestais. As “bases” desse PSD profundo perceberam o cenário e viam em Marques Mendes uma liderança irrisória – o que é pena mas é a vida; e arriscaram. O “risco Menezes” deixa-os disponíveis para depois de 2009; se as “elites” querem futuro para depois de 2009, que apareçam. O eleitorado espera. Mas as “bases” têm pressa e não gostam de ser enganadas.

PS – O Dr. Mário Soares, que é um homem cheio de visões, diz que a eleição de Menezes é uma desgraça para o PSD. Todos estamos habituados às suas desgraças. O paraíso e o inferno estão cheios delas.

in Jornal de Notícias – 1 de Outubro 2007

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