junho 29, 2010

O olhar estrangeiro

"Com um olhar crítico, e não menos apaixonado, sobre seu próprio país, o escritor, professor universitário e jornalista português Francisco José Viegas, é autor de diversos livros de poesia, de livros de viagem e de romances traduzidos para o alemão e o francês.

Através de romances de sucesso como Lourenço Marquês, Longe de Manaus, Viegas leva seus leitores a grandes histórias policiais, aventuras, seja em Guiné, Angola, Portugal ou Brasil. Sempre acompanhado de seu protagonista, o detetive portuense Jaime Ramos.

No Brasil, onde tem livros publicados pelas editoras Record e Língua Geral, Viegas mantém forte relação afetiva. Já morou em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de ter viajado o país afora descobrindo e se encantando com os brasileiros.

Francisco José Viegas conversou com SaraivaConteúdo sobre a proximidade cultural entre Brasil e Portugal, fazendo um paralelo crítico-afetivo entre os dois países, principalmente no universo literário. O encontro ocorreu no escritório da revista Ler, onde ele trabalha como editor."

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fevereiro 03, 2010

Entrevista de João Pereira Coutinho

Ilustração de Luís Silva

Se a memória não me atraiçoa, és o primeiro escritor português a vencer o prémio de Romance da APE com uma obra assumidamente policial ("Longe de Manaus"). Achas que a "intelligentsia" literata ainda olha para o género com desprezo?

Acho que tem inveja. Passámos de um estado em que a chamada "literatura policial" era desprezada e negligenciada para um em que é invejada, copiada, imitada. Mas o problema é que é mais difícil copiar e imitar a literatura policial do que qualquer outro género. Em Portugal vive-se de exageros, como se sabe... O "Balada da Praia dos Cães", de Cardoso Pires, era um romance policial e ganhou o prémio em 1983. Mas houve um esforço enorme para dizer que não era policial, que era uma análise da oposição ao regime, por aí fora. Lembro-me de o José Cardoso Pires se desinteressar do assunto. Ele sabia que não havia volta a dar-lhe. Foi o primeiro escritor português a dizer que toda a literatura era policial...

Regressas ao género (e ao teu personagem fétiche, Jaime Ramos) com "O Mar em Casablanca" (Porto Editora). Mas tenho notado - e corrige-me se estiver errado - que os teus livros, sobretudo a partir de "Longe de Manaus", têm menos de "policial" e mais de "existencial". Concordas?

Toda a literatura é policial, em alguma medida, coisa que essa "intelligentsia" ainda não percebeu. Porque o policial nunca deixou de escolher como temas aquilo que é essencial nos problemas literários - a morte, a culpa, o desaparecimento, o enigma, o mistério, a procura... O José Cardoso Pires preferia destacar os métodos do policial, de que ele se serve abundantemente em "O Delfim", um dos grandes romances da nossa literatura do século XX. Mas eu alargo essa influência até aos temas propriamente ditos. A questão é, aí, a do detective Jaime Ramos (tenho cá uma pontaria para nomes, fui logo escolher este...), que não segue o modelo do detective dos anos setenta - alcoólico, problemas com a droga, relativamente marginal dentro da própria polícia, solitário... O meu Jaime Ramos é um personagem banal, um pequeno-burguês do Porto, ligeiramente conservador (embora com um passado comunista), embora os seus problemas existenciais se resumam a saber envelhecer, a tentar dar alguma dignidade à vida, a coleccionar os discos de boleros mexicanos, a procurar boa comida... Não é um herói, digamos, substantivo. Há duas histórias, bom, três, em que ele se recusa a identificar o criminoso. Numa, por preguiça... Nas outras duas por solidariedade com o "estatuto existencial" dos personagens, uma striper que estudava filosofia, e uma balzaquiana do Porto, uma mulher... O problema é que, em "O Mar em Casablanca", o passado inteiro veio ter com ele - a militância no partido comunista, as relações com os serviços de informação, um caso amoroso... Isso só acontecia com os seus personagens, com os criminosos ou as vítimas, e desta vez isso aconteceu com ele. Ele, que se vê como um biógrafo dos que vêm à rede das suas investigações, transforma-se em personagem. Está à beira da depressão, à beira da morte... O país dá cabo dele. O Jaime Ramos é uma espécie de sismógrafo pequeno-burguês desta coisa toda... Do país. Sem nunca falar dele. Sem fazer filosofia, sem fazer da literatura uma coisa programática, que é o mais aborrecido da literatura portuguesa, quando o escritor se põe a dar lições de política ao leitor, ensinando-o a votar à esquerda, a ser responsável, a fazer sexo seguro, a não maltratar os animais, uma merda. Por isso é que eu digo que não me interessa nada a sociologia dos crimes, os motivos sociais... Jaime Ramos limita-se a reconstituir crimes e eu limito-me a escrever histórias sobre o meu país, quer dizer, que se passam no meu país. E a viajar... a viajar muito. Sabes porquê?

Não faço ideia...

Porque os portugueses só são bons quando vão para fora. Só são felizes quando vão para fora, quando deixam o país. No "Longe de Manaus" o Jaime Ramos descobre essa multidão de portugueses que deserta e não quer regressar. A única grande utopia portuguesa é partir, sair, procurar a felicidade lá fora. Há uma maldição na terra deles e têm de livrar-se dela.

O que existe de biográfico nos teus livros? Ou seja: és um escritor essencialmente de imaginação ou de rememoração?

Há duas ou três passagens autobiográficas. Não podia livrar-me disso. Mas não se dá por elas, são passagens. Escrevo sobre os outros, sobretudo. Bom, de cada vez que preciso de falar de mim, de ir ao analista, escrevo. Mas não sobre mim. Conto uma história. Não vale a pena ir lá, aos livros, e procurar saber com quem dormi ou como é que me visto. Do que eu gosto realmente é dos personagens... De desenhar os personagens. Um escritor tem de gostar dos personagens, mesmo dos maus, daqueles que fazem os piores papeis. O mais difícil, aliás, é desenhar um "mau", um filho da puta. Sobretudo quando tem de ser um filho da puta com muito talento.

Mas o que usas da tua vida para compor o quadro?

Nunca escrevi sobre lugares que não conhecia. Desde o Brasil à Indonésia, da Guiné à Venezuela e à Argentina ou ao México, Cuba, Moçambique, Galiza, etc., que são lugares dos meus livros, estive lá. Vi, tomei notas, fotografei, escolhi os lugares, as ruas... É uma coisa que ficou do trabalho de jornalista, mesmo se escrever romance não tem nada a ver com jornalismo. O resto, uso como toda a gente. Tenho caixas com mapas, fotos, recortes, ementas de restaurantes, muitos dicionários, tudo isso.

Sempre acreditei na ideia de que um escritor é, primeiro que tudo, um leitor. Como leitor, quais foram os autores (e as obras) que te fizeram (ou desfizeram) a cabeça?

Lawrence Sterne. "Tristram Shandy" é essencial, porque é a destruição da literatura, a capacidade de não ter medo, o modo de destruir todo e qualquer politicamente correcto. É um livro fundador da literatura europeia. Se fosse mais lido, evitavam-se "coisas moderninhas" como tem havido nos últimos cem anos. Mas nos últimos cem anos a ignorância foi triunfando, a pouco e pouco. Na literatura, na política, no dia-a-dia... Só assim se explica que tenhamos chegado a este ponto da vida europeia, com uns trastes, uns biltres a ocupar os governos. Gente sem elegância, sem inteligência... Voltando ao tema, Sterne foi o grande autor, tal como Cervantes, o "Quixote", que foi o mais revolucionário. Depois, o seu inverso, Samuel Johnson, o grande conservador, o padrão dos padrões. Johnson foi o homem que inventou o sistema literário europeu, o seu esquema de valores e de sensibilidades. Depois, Borges, claro. Gosto muito de alguns brasileiros da minha língua - Rubem Fonseca, claro. Érico Veríssimo. Dos actuais, Tabajara Ruas. Gosto de alguns latino-americanos, Vargas Llosa, Bolaño, Rulfo, Saer, mas aborrece-me aquela coisa do "fantástico obrigatório", onde os generais enlouquecidos voam pelas florestas e vão às putas e há sempre um truque para lixar tudo. Mas, sabes, para ler, ler, ler mesmo... Bom. Há Shakespeare, sem snobeira, há Shakespeare, ninguém escreveu como ele. Eu gosto muito daqueles clássicos ingleses, Jane Austen, "Orgulho e Preconceito" é imortal, tal como "Monte dos Vendavais", da Brontë, nunca se conseguiu escrever sobre o amor como elas fizeram. E há Chesterton, o primeiro Le Carré (até ao "Alfaiate do Panamá"), Evelyn Waugh, Somerset Maugham, Graham Greene, Kingsley Amis... Mas estas listas nunca são definitivas, claro. Nem fechadas. Gostar destes não quer dizer que não goste de Camus, por exemplo, ou de Tolstoi, ou de Torrente Ballester.

E entre os portugueses?

Eu leio muito Camilo, porque me diverte muito. A "Brasileira de Prazins" é uma obra interminável, prodigiosa, tal como as "Novelas do Minho"... Quase tudo do Camilo, que foi muito prejudicado porque politicamente, enfim... estava à direita, digamos. Leio muito Eça, porque era um prodígio de estilo, de talento, de humor, de cinismo - e não há livrinho que me emocione como "A Cidade e as Serras". Mas Camilo é que era o grande retratista português, o grande historiador literário do século XIX, se tirarmos o "Portugal Contemporâneo", do Oliveira Martins. Dos do século XX, Agustina, José Cardoso Pires, o "Mau Tempo no Canal", de Nemésio, algum Vergílio Ferreira. Agualusa, gosto muito, gosto muito do José Eduardo. Quando estou com angústias literárias, essas merdas de não saber por que é que estou a escrever ou dificuldades em arranjar material, telefono ao José Eduardo, que é um grande amigo e um autor da língua portuguesa actual. Mas boa parte dos melhores autores portugueses do século XX são cronistas e ensaístas: o Vasco Pulido Valente, Vítor Cunha Rego, Abel Barros Baptista, Eduardo Lourenço... Sem falar dos poetas, claro. Mas a família dos poetas é uma coisa delicada...

Não concordas que, na prosa portuguesa recente, há dois tiques particularmente irritantes - o desprezo pela narrativa e um certo bacanal barroco-linguístico?

Já foi tempo em que havia bacanal barroco-linguístico. Hoje escreve-se mal, mal mesmo, mal sem atenuantes. Escreve-se mal sem piedade e sem gramática. Tenho muitas saudades da gramática, de alguém que escreva com sujeito, predicado e complemento directo sem abdicar da criatividade... E a ideia de que tudo é "jovem", "divertido". E "pedagógico". Isso é que lixa qualquer um. Mas que mais me impressiona na ficção portuguesa de hoje é a falta de jeito para o diálogo... Falta absoluta de jeito. Tu lês um romance desses, daí, muito universitário e tal, e os personagens falam empertigadas como se estivessem num verso parnasiano. Ninguém fala tão mal como eles.

Falam mal e, como tu próprio disseste, "fode-se mal na literatura portuguesa". Tens uma explicação para a nossa disfunção literária?

Disse isso porque era verdade. Fode-se muito mal, mesmo. Com muitas metáforas, com metáforas de mau gosto, muita falta de jeito. Não há, digamos, uma queca como deve ser... O problema é a falta de jeito para lidar com a crueza das coisas. Não achamos poesia nas coisas do quotidiano... Sabes, eu acho que o melhor era não se escrever sobre sexo. Chegava-se ali e tal, voltava-se a página e deixavam-se os personagens a foder, entretanto. O Português de Portugal é pouco maleável, não tem aquela musicalidade malandra, doce e amarga, picante... A tradição portuguesa de escrever sobre sexo acaba por desembocar no grotesco, no grosseiro, ou no absolutamente irrelevante. Há autores que também querem explicar aos leitores onde fica o clítoris, como é que se faz a coisa. Isso ainda é pior. E a falta de jeito para construir cenários para um episódio desses, então...

Achas que os brasileiros "trepam" melhor?

Sem dúvida. Rubem Fonseca, por exemplo. É muito cru, mas absolutamente delicioso, poético e obsceno ao mesmo tempo. Vê a quantidade de mulheres com quem anda o Mandrake, em "A Grande Arte"... E ele arranja sempre qualquer coisa de sensual para escrever sobre cada uma delas - até, imagina, sobre "a veia subclávia", sobre o tornozelo, sobre Bebel, a mais gordinha de todas (e, portanto, a que fode melhor)... Mas o problema é que o sexo está banalizado, tudo tem de ter sexo. Com essa banalização desapareceu a ideia de pecado, de transgressão, e sexo sem pecado, sem interdito, sem perversidade, não vale, não dá ponta.

Por falar em Brasil: tens uma relação umbilical com o país. Como vês as nossas relações transatlânticas?

Simpáticas. São simpáticas. Mais nada. As relações políticas não me interessam muito hoje em dia, porque o Brasil está na adolescência das relações internacionais, sobretudo com Lula em Brasília. Acho que nós nunca percebemos realmente o Brasil. Ou achamos os brasileiros uns palermas pegados (às vezes são), ou achamos que o Brasil é um paraíso onde tudo é bom, tudo é perfeito, etc. Na verdade, a vida é mais fácil no Brasil, há aquela leveza, aquela naturalidade com que as coisas são belas... Mas anda por aí uma onda de brasileirofilia que me assusta, porque parece que tudo é bom lá, desde o Lula até ao cantor nordestino mais piroso e manhoso... E não é verdade. A política brasileira é uma coisa de terceira ordem, aqueles complexos pós-coloniais dão enjoo, a falta de qualidade nas relações sociais é terrível, o policiamento ideológico é assustador. Mas eu viveria no Brasil de novo, sim (nunca no Nordeste, evidentemente)... Olha, a "Playboy" brasileira fez mais pela minha formação intelectual do que o Proust. E o Paulo Francis, o Nelson Rodrigues, a leitura do "Estadão" e da "Folha"... O Brasil ainda é o meu país de recurso, onde tenho grandes amigos. Mas sem a "utopia brasileira". Aquela coisa de o pessoal se babar de cada vez que o Caetano Veloso diz um disparate.

Algum escritor brasileiro já merecia o Nobel?

Só vejo o Rubem Fonseca, uma vez que o Erico Veríssimo já morreu. Acho que o Jorge Amado teria dado outro Nobel. Sinceramente. O problema é que o Nobel é escolhido em função do "interesse humanitário" de uma dada obra, por isso Rubem Fonseca nunca poderia ser... Mas Jorge Amado, sim.

Não é novidade para ninguém que o cronista António Sousa Homem é o teu heterónimo. Mas eu vou mais longe: para além de heterónimo, aquele conservador do Minho, respeitador burguês da ordem e da moderação, não é a faceta mais verdadeira de Francisco José "lui même"?

Acho que inventei o Sousa Homem para poder dizer o que penso realmente. O que eu penso de verdade. Isto pode parecer um bocadinho absurdo, mas o António Sousa Homem é quem eu gostaria de ser. Assim mesmo: com aquelas opiniões, aquela visão do mundo, aquela serenidade, aquele sentido da melancolia e da banalidade... Quando escrevo as crónicas dele, não sou eu realmente: é ele. É um heterónimo verdadeiro. É o meu heterónimo verdadeiro.

Então vamos ao ortónimo. Politicamente, como te defines? E sem merdas.

Sem merdas não consigo. O único partido em que fui militante foi o PS, justamente quando a AD ganhou. Tinha medo da vitória da AD a toda a largura do país. Hoje, acho que foi uma reacção um nadinha... trotsquista. E, depois, apoiei Cavaco, porque acho que Cavaco foi fundamental para retirar o peso da hereditariedade de esquerda à Presidência. Estas foram as minhas posições políticas mais ou menos públicas. Por princípio, um escritor, etc., é logo um tipo de esquerda, não é? Mas eu estou um bocado farto de ver sacanas de esquerda, medíocres de esquerda, hipócritas de esquerda. Sou uma espécie de liberal, sim. À moda antiga, como eu costumo dizer. Acredito que há um papel social do Estado em duas ou três áreas essenciais, além da segurança e da justiça. Mas a ocupação do Estado pelas clientelas políticas é um dos nossos males, esta dependência que gera medo de falar, medo de fazer, medo de criar...

Costumas dizer que vivemos num país sem liberais. Por que será?

Porque é assim. É um país liberal sem liberais. Lê-se o "Portugal Contemporâneo" e compreende-se logo: a "liberdade" de D. Pedro foi imposta de fora, à força, com um punhado de mercenários recrutados entre o que havia de pior nas tabernas de Londres e com o dinheiro dos agiotas menos recomendáveis... Temas como os direitos civis, a defesa da privacidade, a recusa da inversão do ónus da prova, a liberdade de imprensa, etc., são matérias pouco interessantes para os portugueses. Uma das coisas mais absurdas é quando alguém diz que "quem não deve não teme", como se todos devêssemos, de facto, favores ao Estado. A facilidade com que o cartão único passou, com que os chips das matrículas de automóveis vai passar, tudo isso é assustador. Depois, o chamado, até me dá vontade de rir, "o tecido empresarial" com empresários que não sabem viver sem apoio do Estado e sem negócios com o Estado. E o Estado aproveita e enriquece os fornecedores de obras públicas, não é? Esta rede de cumplicidade entre o Estado e as grandes empresas deixa os cidadãos indefesos, à mercê dos abusos políticos, da corrupção, dos favores, do desleixo... E depois o medo. O medo do trabalho, o medo do risco, o medo do debate, o medo da opinião contrária... Em Portugal os ditadores têm vida fácil.

Como vês a primeira parte do consulado Sócrates?

Sócrates fez um grande serviço à direita, na primeira parte do primeiro mandato, com aquelas reformas esboçadas logo de início. À direita em geral, não aos partidos de direita, que foram queimados no terreno. Se Sócrates fez aquilo que o PSD e o CDS queriam fazer e nunca fizeram, eles ficaram sem programa e sem argumentos... O problema, o grande problema de Sócrates foi a tentação de aumentar o poder a todo o custo, com a rede partidária a servi-lo e a servir-se dos recursos do Estado. Tudo valeu. Teria sido diferente se Sócrates se tivesse livrado daquela tralha papista que o venerou até à abjecção. Mas não. E, depois, Sócrates tem aquela visão geracional do país, um país que é preciso modernizar, transformar, etc., de onde é preciso afastar a má imagem, o provincianismo, o ruralismo... Quem é que vai fazer isso? Nós, os iluminados, os que estão do lado certo da história, com o dinheiro do Estado, o poder do Estado. Ele quis ser um iluminado. Por isso, o segundo mandato é um castigo para Sócrates, que terá de aprender a negociar, a gerir o monstro da "esquerda moderna" (uma mistificação) que ele criou, e que só sobrevive com mais impostos, sem crítica, com poder absoluto. Além de ter de gerir uma economia despedaçada. E eu tenho dúvidas sérias sobre se ele é capaz. Ele e a rede que construiu.

Tens sido um crítico desta direcção do PSD. Pedro Passos Coelho é a solução?

Pode ser uma solução. A outra solução era dar um segundo fôlego a Marcelo Rebelo de Sousa, mas acho que Marcelo só avança em caso de insanidade irremediável, porque aqueles apoiantes são todos falsos apoiantes, que estão de facas afiadas. O Passos Coelho tem uma vantagem: trabalha, sabe quanto vale um salário, não é funcionário do partido, não quer discutir minudências, faz política fora das horas de trabalho, não tem um lugar no parlamento... Falei com ele algumas vezes e pareceu-me bem intencionado, inteligente, ponderado, enérgico, liberal. Até era bom que fosse um pouco menos ponderado, que fosse mais agressivo no debate político, mas penso que está a guardar-se para o combate com José Sócrates. Eu gosto muito da Dra. Manuela, que é uma pessoa boa e com sentido de humor, uma mulher à antiga... Acho que foi uma injustiça terrível pô-la na campanha eleitoral, para o que ela não tinha jeito nenhum. E a ela sim, tentaram um assassínio político. Vejo o primeiro-ministro queixar-se de ser alvo de um assassinato político, de um ataque ao carácter... Mas isso foi o que eles fizeram à Dra. Manuela. Gozaram com os cartazes, chamaram-lhe dona de agência funerária, meteram-se com a roupa que usava, com os tiques de linguagem, com a idade, com o penteado. Deixaram-na sozinha, à mercê da tropa de choque socialista, muito à espreita de cargos políticos mas na reserva, como acontece no PSD ultimamente. Espero que o Passos Coelho assuste aquela gente.

Entrevista de João Pereira Coutinho, in GQ – Janeiro 2010

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março 21, 2008

Palco das palavras


Depois dos 'milagres' na Casa Fernando Pessoa, onde, malgrado o magro orçamento, conseguiu manter uma programação dinâmica quase graciosa, Francisco José Viegas, o jornalista, escritor, andarilho, gourmet, radialista, bloguista, poeta (aqui, de mão rara e feliz), literato omnívoro e dos mais fecundos promotores culturais, retorna à «Ler» «para fazer uma revista para os tempos que correm», isto é, saudáveis para a edição. Uma conversa, justamente, sobre estes tempos de hoje.

Quais as razões que a razão conheceu para deixar a Casa Fernan­do Pessoa?
Razões simples, com cer­teza, e nem vale a pena – como geralmente se faz — alimentar teorias conspirativas. Foi uma proposta do Círculo de Leitores para regressar e retomar a Revista «Ler». É um projecto ao qual estive ligado durante catorze anos, sinto-me muito ligado a ele ainda hoje, e achei a proposta muito convincente e honesta. Hoje em dia há muitas propostas convincentes e fascinantes mas poucas se­rão honestas. Honestas, francas e amáveis.

Sai com uma impressão negativa do funcionalismo público e da gestão autárquica?
Da forma de funcionamento das autarquias, sim. Do funcionalismo, não. Pelo contrário. A minha equipa, que era toda de funcionários públicos, era fabulosa, de gente empenhada e muito entusiástica. As pessoas precisam de apoio, de serem ouvidas, de serem chamadas à elaboração de projectos, de participar. Foi isso que se fez na Casa Fernando Pessoa, e acho que se conseguiu. O que foi um bálsamo, no meio das dificuldades naturais com que se debate a Câmara de Lisboa...

Ainda assim, o Francisco conseguiu ter uma programação regular sem dinheiro...
Porque conseguimos um bom espírito de equipa, porque houve boa-vontade de muita gente e porque nem tudo se consegue com dinheiro. Dinheiro não é tudo; é preciso entusiasmo, criatividade e abertura de espírito. Por outro lado, estar na Casa Fernando Pessoa tem de ser encarado como "serviço público" - eu sempre o disse. A Inês Pedrosa, que dirige hoje a Casa, é uma pessoa com esse perfil e acho que vai fazer um bom trabalho.

Esta passagem da «Ler» a mensal é um indício feliz da popularidade do objecto-cultura ou uma opção de risco?
Ambas as coisas. É um risco, naturalmente. Mas o mercado mudou muito nos últimos cinco ou seis anos, e neste último ano sobretudo, e precisa de uma revista como a «Ler». Pelo menos, como a «Ler» que vamos publicar.

Haverá concorrência directa com publicações e suplementos culturais ou vão manter os anteriores conteúdos para elites?

Vamos fazer uma «Ler» para os tempos que correm. Não temos problema com a concorrência, porque acho que há espaço para todos, para mais publicações até.

Que se passou realmente na sua chefia de edição fracassada na ASA? Foi vítima do fenómeno canibal das editoras?
Não. Foi um projecto que teve a sua história e que precisa de mais tempo para se desenvolver, para crescer, talvez de outra maneira, com outras condições. Eu nem sempre acerto, mas acho que tenho a virtude de reconhecer rapidamente os erros.

Esta aparente opulência do meio editorial encobre a realidade penosa do que é a cultura inculta em Portugal?
Às vezes penso isso, mas depois comparo os nossos dados com os da edição estrangeira, e verifico que nos estamos a aproximar bastante de alguns níveis de qualidade. O problema é o da tradição, o das elites, o dos hábitos. Quando chegamos à Feira de Frankfurt vemos que os políticos vão lá. Os políticos, os ricos, o star system brasileiro frequentam a FLIP de Paraty ou o festival de Ouro Preto. As feiras de Barcelona recebem visitas da população inteira e das elites catalãs. Em Portugal é muito raro isso acontecer. Temos falta de exemplos vindos do alto. Isto (isto, o país) às vezes é um desconsolo. Que livros lêem os deputados? Como se formou a classe dirigente? Que gostos eles possuem e divulgam? Interessam-se por música (não falo de ir a um espectáculo num casino ou uma coisa pop, falo mesmo de música)? Duvido muito. Se há culpas a atribuir, elas
recaem nessas pequenas elites, promovidas como figuras de televisão ou da imprensa cor-de-rosa, mas que não deram nada ao país, não contribuíram com uma ideia sobre a nossa vida cultural. É uma pena.

Continua a ser válida a imagem de disfunção cultural do português de cultura média?
O português de cultura média é uma personagem interessante e capaz de algum esforço. Ia à Festa da Música, interessa-se pêlos livros que saem, preocupa-se com o estado de degradação do ensino humanístico e científico em Portugal, vai ao cinema... Eu acho que teremos de reabilitar essa imagem do "português de cultura média", as pequenas e médias burguesias com algum interesse pelas letras e pelas artes. No final do século XIX, o português de cultura média sabia línguas, lia os clássicos, ia ao teatro, lia a imprensa. A democracia popularizou a indigência. Volto aos exemplos dos políticos: já reparou como são os seus discursos? Já comparou o grau de instrução efectiva dos políticos portugueses do século XIX com os de hoje? Acho que há uma diferença abissal. Esta gente, quando envelhecer, não vai escrever as suas memórias, pela simples razão de que não sabe escrever... Há excepções, que são saborosas, naturalmente, mas a média é muito fraquinha. E há políticos de uma cultura notável, como o Medeiros Ferreira, o Mota Amaral... E uma nova geração, claro, tanto à direita como à esquerda...

Como se explica, por exemplo, o paradoxo do cancelamento da Festa da Música quando terá sido dos maiores fenómenos culturais do pós-25 de Abril (a Festa do Avante não conta)?
Não sei, mas foi uma pena. A Festa da Música era um momento de beleza pura.

Acha que foi uma complacência administrativa com o todo-poderoso comendador Berardo, sendo esta ideia do incómodo Dr. Mega Ferreira?
Não faço a mínima ideia.

Enquanto raça, o medo é o nosso pior defeito genético (a par da inveja)?
É bem capaz de ser. O medo, sim, no sentido em que o respeitinho nos impede de afrontar, de dizer o que pensamos, de entrarmos no debate...

Já lhe contaram a anedota do pescador indiano de caranguejos portugueses? [O homem estava a pescar na praia de Anjuna, Goa, e punha os caranguejos num balde sem tampa. Quando passou alguém e disse: «Ó homem, tape o balde senão os caranguejos fogem», ele respondeu: «Não há problema, são caranguejos portugueses. Quando um estiver a chegar lá acima, vem outro e puxa-lhe as patas»]. Há muito de verdade nisto?
Bastante. Mas temos de procurar as excepções. Temos sempre de procurar as excepções, senão entramos em depressão. Eu não sou um optimista - sou um céptico que acredita vagamente. Fico orgulhoso quando um português consegue fazer qualquer coisa que o distingue. Fico orgulhoso pelo Gonçalo M.Tavares, fico muito orgulhoso pelo sucesso do José Eduardo Agualusa (que é angolano, eu sei), fico orgulhoso com o bom trabalho reconhecido. Fico muito orgulhoso com o trabalho do Pedro Mexia, da Dulce Cardoso... Fico muito orgulhoso com os emigrantes que tiveram êxito, com os portugueses que são felizes por terem trabalhado. Mas esse é um hábito portuga, sim. Sabe porquê? Porque há demasiada gente preguiçosa, que vive na sombra do trabalho dos outros e explora o mérito dos outros. Esses nomes que citei, os do Pedro Mexia, a Dulce, o Gonçalo, o Zé Eduardo, por aí fora, são pessoas que se esforçaram e que trabalharam muito, que merecem o nosso respeito até só por isso. As pessoas invejam tudo. Até invejam o êxito dos livros da Margarida Rebelo Pinto, mesmo sem terem lido uma linha do que ela escreveu. Acho graça à Margarida, ao escândalo que ela provoca, àquele ar de tempestade que leva para onde vai...

Tem ideia de um livro recente que tenha mexido com as consciências (o ensaio do José Gil não conta)?
Vários. Olhe, a autobiografia da Maria Filomena Mónica, que afrontou o provincianismo português, a pequena moral. Ela foi muito corajosa, pôs muita gente a pensar nas suas experiências de vida. Veja o caso das memórias do Raul Miguel Rosado Fernandes, um personagem fantástico, sempre detestado pelas pequenas burocracias da esquerda e da direita, um cavalheiro que viveu intensamente. Mas não sei se mexeram com as consciências, isso não sei. O livro do José Gil é um retrato do medo banal, que é aquele que leva os portugueses a serem invejosos, medrosos e caricatos.

Leu «A Ponte Submersa», do Ma­nuel da Silva Ramos?
Li. O Manuel é um tipo com coragem. Este ano vai ser publicado de novo Os «Três Seios de Novélia», que era o anúncio de um tipo especial de narrativa em finais dos anos sessenta.

O Saramago dos últimos anos perdeu o viço?
Não faço a mínima ideia. Para mim, basta-me ele ter escrito o «Memorial do Convento», o «Manual de Pintura e Caligrafia» e «O Ano da Morte de Ricardo Reis».

E o Lobo Antunes, ainda anda a es­crever o grande livro-terapia?
Também não faço ideia. Ele é o autor do «Manual dos Inquisidores», um grande livro. E é um cronista exemplar, um género em que temos pouca gente. Gosto dele, gosto daquele ar melancólico, que é muito profissional.

Quando este (LA) diz que é o maior escritor português (vivo) é para ser levado a sério?
É. Se calhar é o que ele pensa.

Concorda com o Lobo Antunes quando este diz que a maioria dos «romances» que se publicam em Portugal são abjectos e intrinsecamente desonestos?
Não fiz as contas. Há muitos romances que não me interessam absolutamente nada e paro a leitura a meio, são uma chatice. Há outros que gosto de ler. Mas nem todos têm de ser geniais. Nem tudo o que lemos tem de ser comparável a Camilo.

Ainda é actual a frase do ilustre vate Camilo quando este dizia que «os portugueses não se ajeitam com o romance»?
Acho que há uma herança confessional na ficção que é capaz de atrapalhar um pouco, sim. Mas o José Cardoso Pires não tem nada a ver com isso, nem o Nuno Bragança, a Maria Velho da Costa, o Mário de Carvalho, a Hélia Correia... Sim, o Mário de Carvalho é um dos nossos melhores escritores. «Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde» é uma obra-prima.

José Luís Peixoto é um exemplar honroso da nova geração de escritores?
É. E eu gosto que ele tenha sucesso. Ele é um tipo muito profissional, muito atento, sério naquilo que faz. Com uma dedicação extraordinária à literatura, ou ao seu trabalho. Isso acho comovente.

E o Senhor Gonçalo M.Tavares: entra na categoria dos génios ou é apenas um metro-criador, um rei em terra de manetas?
É o Gonçalo. Puramente, é o Gonçalo, o que já não é pouco. As pessoas hoje dizem: ah, ele descobriu uma receita e tal... E depois? O que fizeram essas pessoas de tão original para se porem em bicos de pés e criticarem o Gonçalo na base da pura inveja? Que ele é um escritor obsessivo? Sim, e depois? É um coleccionador de obsessões, como diria o Herberto Helder, e isso é bom. Tenho uma grande ternura pelo Gonçalo, como pessoa, acho que é um tipo muito simpático, e alguns dos seus livros são muito, muito bons. Têm inveja dele, da sua capacidade de trabalho? Puta que pariu. Trabalhem, esforcem-se, passem noites em branco.

O Francisco leva a Literatura a sério, como ofício, ou é apenas um executante lúdico?
Sou um profissional. Conto histórias nos meus livros. É esse o meu trabalho. Escrevo.

Lisonjeia-o chamarem-lhe o Montálban português?
Muito. Gostava muito do Manolo, que era um homem culto, livre e trabalhador.

Qual foi a crítica mais bem metida que lhe fizeram?
Bem metida, não sei, mas nunca a esqueci. Um dia perguntaram ao Vicente Jorge Silva que livro ele tinha abandonado a meio. Ele disse um dos meus. Ele pensou que eu tinha ficado melindrado e acho que me evitou por isso. Mas até lhe agradeço, porque às vezes precisamos de levar para trás. Tem efeitos benéficos para o carácter.

E a mais injusta e traiçoeira?
Deve ter havido, mas não me lembro e estou a ser completamente sincero.

Tem inimigos (e agradece-lhes por o ajudarem na carreira)?
Tenho inimigos, claro que sim. Mas não me ajudaram.

Nunca teve ambições políticas e estadistas?
Não. Dar-me-ia mal com o papel. Há gente mais talhada, gente mais disciplinada. Para isso é preciso gente disciplinada, muito rigorosa, muito fria. Eu não sou disciplinado, frequentemente admito que não tenho razão, não teria paciência para me levantar cedo todos os dias.

Acha esse território do incurável?
Não. Devia ser um território nobre, respeitado e honrado. Infelizmente, faltam-nos pessoas decentes. Temos ambiciosos, furões, desenrascados, geniais, etc. Mas precisamos de gente decente na política. Não é pedir muito. Gente decente. Damo-nos mal com isso. Gostamos muito de pantomineiros na política.

A passagem pela Grande Reportagem também lhe criou embaraços públicos como a Miguel Sousa Tavares, que por cada editorial fazia um novo inimigo?
Também ganhei alguns inimigos, sim, mas o Miguel tinha o seu próprio estilo...

Como se explica o fecho da GR (com morte lenta) quando era uma das publicações mais acarinhadas (e rentáveis)?
Pergunte à PT. Sempre achei que era um erro passar a revista a semanal (e saí na altura), mas a teimosia é de quem pode...

Leu a crónica do MST no «Expresso» passado? Revê o país naquela catástrofe?
Vejo alguma catástrofe, sim. Ao contrário do que pensa muita opinião satisfeitinha, que anda a pensar nos empregos do governo e na simpatia pelo poder, acho que os retratos das ruínas e das catástrofes têm um efeito positivo sobre nós. Essas vozes são úteis e importantes num momento em que anda tudo satisfeito: o governo, os editores, os políticos, os futebolistas. Precisamos de retratos feios do país, para que possamos mudar as coisas.

E leu o MST romancista? Apreciou?
Li. O Miguel tem um talento inato, que é o de contar histórias, o de as contar muito bem, o de escrever com velocidade, com ritmo. Isso é agradável.

Reconhece-lhe parecenças com o Raul Brandão (e vagamente um Eça tardio), como disse o Vasco Graça Moura na apresentação de «Rio das Flores» ou essa comparação é uma boutade?
Não faço ideia. Mas não vejo Raul Brandão lá.

Precisamos de um motim, uns O'Neill, uns Zeca Afonso, uns Pachecos (Luizes) para agitar a barca?
Vamos dar tempo ao tempo. Se calhar nós havemos de ser capazes de agitar alguma coisa. Não com aquele brilho do O'Neill, mas enfim, alguma coisa se há-de arranjar. Eu acho, volto a repetir, que precisamos de gente decente. De economistas decentes, de professores decentes, de arquitectos decentes, de gente normal que acredite na importância e no valor do que faz. E que sejam atrevidos.

Acha que a sua geração fracassou?
Não me parece. Ainda é cedo para avaliar - mas não sei bem quem é a minha geração porque me sinto mais perto dos mais novos do que eu. Mas a geração da blogosfera, esta que está aí, tem gente notável, que escreve bem, que tem ideias, que perdeu o medo. Espero que não se deixe instrumentalizar pela política imediata, porque há lá gente interessante e atrevida.

Entrevista de Tiago Salazar
in Revista Magazine Artes, n.º60 – Março 2008


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janeiro 04, 2008

Preciso de silêncio


Francisco José Viegas, o escritor que o grande público conhece dos seus vários programas televisivos e que, na escrita, já experimentou de tudo – desde o romance ao teatro, passando pelas crónicas de viagem e até pelos guias – apresenta no dia 10, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, Lisboa, o seu mais recente livro de poesia.

‘Se me Comovesse o Amor’ – assim se chama a obra – será apresentada por Pedro Mexia e ao Gato Fedorento Ricardo Araújo Pereira caberá a tarefa de ler alguns dos poemas que a integram. Poemas que, no dizer do próprio autor, não falam de amor, mas que se oferecem como uma viagem por alguns dos lugares que visitou recentemente.

“São coisas muito novas e muito diferentes daquilo que tinha feito até agora: são poemas narrativos, que contam histórias e foram escritos nos mais diversos locais. Na Terra do Fogo, Brasil, Patagónia... Reflectem o meu olhar naquele momento sobre aquelas paisagens”, revela.

‘Se me Comovesse...’ é, também, e como todos os seus trabalhos de cariz poético, um livro que se construiu ao sabor da inspiração. Sem método. Sem disciplina. Nada que se assemelhe ao regime espartano a que o escritor se submete voluntariamente quando está a escrever romances. Aí, garante, levanta-se todos os dias às quatro da manhã, para trabalhar.

“Sou, tendencialmente, uma pessoa matinal. Detesto noitadas. Aliás, as noitadas cada vez me irritam mais... Gosto de escrever pela madrugada e pela manhã, sobretudo quando estou na fase final, a terminar os livros”, afirma.

A capacidade para se autodisciplinar é, de resto, fundamental para alguém que queira viver da escrita e Francisco José Viegas – que também é jornalista – sabe-o bem. Por isso, mesmo sem a pressão dos editores, é ele próprio quem se atribui prazos para terminar as suas histórias. E tem isto como certo: dê por onde der, entre três a quatro horas diárias têm de ser dedicadas à literatura.

E se Agatha Christie só conseguia escrever enquanto mastigava maçãs e Malcolm Lowry precisava de cerveja como de pão para a boca, o escritor diz que não se serve de truques nem de bengalas. Duas coisas o inspiram, apenas: a música e a fotografia. “Todos os meus romances têm uma banda sonora e foram escritos ao som de música – normalmente instrumental, música clássica, Brian Eno...”, conta. “A fotografia é-me indispensável. Fotografo todos os locais por onde passo e sirvo-me das fotos como bússolas, porque tenho mesmo de ver como as coisas são. A realidade é sempre mais espantosa do que a ficção.”O resto, é sossego. “Preciso do silêncio. Não sei criar de outra forma.”

LIVRO DE CABECEIRA: Estou a ler ‘Deus não é Grande’, um ensaio de Christopher Hitchens, e ‘A Morte de Portugal’, do Miguel Real. Também tenho livros para adormecer...

PIOR VÍCIO E MELHOR VIRTUDE: O meu pior vício é fumar. A melhor virtude... talvez seja gostar dos outros.

MÚSICA PREFERIDA: A minha canção preferida é o clássico ‘Like a Rolling Stone’, do Bob Dylan.

DESTINO IDEAL DE FÉRIAS: Qualquer país da América Latina me inspira.

in Correio da Manhã - 4 Janeiro 2007

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novembro 14, 2007

Entrevista no Estado de S. Paulo


A escrita híbrida é o tema da terceira edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, que reúne até domingo 60 escritores do Brasil e do exterior, entre eles o premiado autor português Francisco José Viegas, que veio lançar seu Longe de Manaus (Editora Record, 352 págs., R$ 48). Viegas chega acompanhado de outros colegas convidados de países lusófonos, entre eles os angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. Ele morou no Brasil e faz, em Longe de Manaus, uma viagem pela língua portuguesa, traduzindo como nenhum outro o hibridismo temático do encontro mineiro, do qual participa no último dia, debatendo com os escritotes Marçal Aquino, Tony Belloto e Newton Cannito o romance noir e o diálogo entre literatura e cinema.

No livro, sobre crimes e pessoas que somem sem deixar pistas, Viegas conta a história em português de Portugal, depois em português do Brasil e, finalmente, mistura os dois num caldeirão étnico em que a língua vai formatando o indivíduo - no caso, o narrador de um romance policial que não é bem o que promete, mas outra experiência híbrida entre gêneros. Longe de Manaus é, ao mesmo tempo, ensaio filosófico, tratado estético, manifesto poético e estudo antropológico sobre a evolução de uma língua. Francisco José Viegas concedeu uma entrevista ao Estado sobre Longe de Manaus, prêmio de melhor romance da Associação Portuguesa de Escritores de 2006.

Você já disse que seu pessimismo, em alguns momentos, ultrapassa o de seu inspetor Jaime Ramos. Essa é uma característica portuguesa, como a melancolia e a solidão?

Eu acho que não sou pessimista; sou cético. É uma questão metodológica. O cético é muito mais feliz, porque mantém uma relação mais divertida e saudável com a realidade. Agora sobre o pessimismo português, ele existe, sim - mas é uma espécie de produto turístico, tal como a melancolia, bom para ver ao longe. De perto é muito triste. Pessoalmente, acho que o pessimismo português e o fado são o resultado de uma mentalidade melancólica mas mesquinha e provinciana. A gente vendeu essa imagem durante anos, juntamente com o fado, a desgraça, as padarias e os pobres Manéis e Joaquins, mas Portugal mudou bastante nos últimos anos, se bem que isso não se note pela nossa literatura. Em Longe de Manaus, a solidão portuguesa tem a ver com a procura da felicidade longe de Portugal, esse tem sido o destino de muitos portugueses: partir para qualquer lado, fugir. Por isso os portugueses são geniais quando estão fora do país, são inventivos, mais cosmopolitas, menos presos ''''à terrinha''''.

Há 16 anos você criou o inspetor Jaime Ramos, um homem vulgar, cético e pessimista. Você já conheceu uma personalidade tão complexa quanto a dele, que é ao mesmo tempo delicado e tranqüilo? Certamente ele não é seu alter ego...

É capaz de ser, também, uma espécie de alter ego, sim. Eu gosto bastante dele, protejo-o, sinto uma grande cumplicidade nestes oito livros em que ele atua. Mas à medida que ia trabalhando com pessoal da polícia de investigação ia descobrindo pessoas assim, com esse grau de complexidade e capacidade de surpreender. De alguma maneira, ele é uma figura amável e que torna amável até coisas aparentemente pouco simpáticas: é um conservador, um pequeno-burguês, um homem culto, amoral, desejoso de passar despercebido. Os modelos de detetive clássico dão sempre a imagem de um homem alcoólatra, meio em conflito com a família, a casa, a sociedade. Jaime Ramos foge a esse esquema.

Longe de Manaus é escrito metade em português de Portugal e metade em português do Brasil. A língua, em certa medida, conduz essa narrativa e a história de crimes em ex-colônias portuguesas. Como a alegoria entra nessa história? Será o português do Brasil uma evolução natural do português de Portugal?

Eu vivia no Brasil, na época (em Salvador) e queria escrever um romance sobre a ponte que une as duas margens do Atlântico. De certa maneira, as solidões portuguesa e brasileira. Por isso me apaixonei por aquelas duas mulheres, Daniela e Helena, as paulistas de Longe de Manaus. O livro seguiu um rumo diferente, mas fui incapaz de largar a ortografia brasileira e as inflexões do português do Brasil, muito mais ricas e inventivas. E, se havia personagens brasileiras, eu tinha de colocar elas a falar com a ortografia brasileira, o modo brasileiro de falar o português. De resto, o português do Brasil é o motor do futuro da nossa língua comum. O português de Portugal está condenado a ficar mais pobre, mais chato. A solução é abrir para a antropofagia lingüística.

Você já disse que o romance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. Poderia desenvolver mais esse conceito de ordenamento a partir de uma criação ficcional? A literatura tem esse poder?

O romance, como nós o vemos hoje, mesmo nas suas formas menos clássicas, deve muito ao policial, que sempre manteve a necessidade de categorias muito claras: personagens, investigação, demanda, conclusão. É como ter uma frase com sujeito, predicado e complemento direto. Às vezes, em literatura, há sujeitinhos à procura de inovação, tentando chamar a atenção. Eu acho isso ridículo, é gente que nunca leu Machado, o das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Juntamente com Viagens na Minha Terra, de Garrett, é o mais moderno dos romances em língua portuguesa. O policial é uma espécie de método, de ideal de perseverança numa investigação. Toda a literatura, nessa medida, é policial - além de se preocupar com a morte, o desaparecimento, o crime, o mistério, que são os motores da narrativa policial. No meu caso, não me interessa o policial como interrogação social ou sociológica sobre o mundo do crime ou da violência. Não sou sociólogo nem o escritor tem de se preocupar com a sociologia; em meu entender, o policial constitui uma reinvenção do mundo a partir de uma tragédia (o crime) e de um drama (a necessidade de saber, a possibilidade de punir). Num outro livro, uma pequena novela, A Poeira Que Cai sobre a Terra, Jaime Ramos sabe tudo sobre os crimes, sabe tudo - mas recusa-se a avançar na investigação, vai acabar por eliminar os vestígios e as provas. Ele assume o lugar do juiz e contraria a moral burguesa. O policial tem essa possibilidade. A de criar uma ordem na história para que exista, provavelmente, uma ordem no mundo. O romance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. As pessoas querem uma ordem na vida, querem uma explicação. Não há maus e bons. O meu detetive é ótimo para defender os criminosos.

Em certo momento de Longe de Manaus, o autor do livro é satirizado por seu personagem quando diz que ninguém em sã consciência escreveria um livro sobre Manaus. Quais as impressões que você guarda da cidade?

Olha, eu acho Manaus uma cidade muito cinematográfica. Difícil de viver lá, mas boa para cinema. No livro, eu digo que é boa para filmes com atores silenciosos, como De Niro. Tem, além disso, uma história espantosa de multiculturalismo antes de aparecerem esses sujeitinhos do multiculturalismo militante. Havia muçulmanos e judeus na mesma rua, perseguidos do Líbano ou da Europa, gente que se escondia do mundo em Manaus. Por isso é tão importante a história de loucura evidente na construção do Teatro Amazonas. De alguma maneira, o Teatro Amazonas é uma metáfora do Brasil, uma espécie de barragem contra a barbárie que rodeia a cidade.

Você parece mais identificado com a literatura brasileira que com a portuguesa. A literatura brasileira é melhor que a portuguesa?

É. É melhor. Eles vão me cozinhar vivo, mas é a verdade. O fato é que o romance brasileiro tem hoje uma criatividade, uma intensidade de tal forma, que se me perguntassem quais são os autores de língua portuguesa que eu mais gosto de ler, em dez haveria sete brasileiros. Sem qualquer preconceito anti-português. Tem uma vantagem sobre grande parte da ficção portuguesa: não é kitsch.

A narração de Longe de Manaus é difusa. Ou o narrador assume uma informação contestável ou ele aparece tão amalgamado na consciência dos personagens que é difícil saber se as informações que estamos lendo são ou não confiáveis. Cito como exemplo as informações de Ramiro sobre Portocarrero. Até que ponto o passado africano pode ser contado segundo o ponto de vista de um narrador que se ausenta no capítulo seguinte?

Mas a nossa vida também é assim! Na nossa vida, há personagens que aparecem e desaparecem, pessoas por quem nos apaixonamos durante uma só noite, e nem chegamos a transar com elas. E há episódios da nossa vida que só conseguimos narrar de maneira difusa. Mas mudaram a nossa forma de ver, a nossa sensibilidade. A certa altura, Jaime Ramos faz a mesma pergunta que você me faz. E Osmar responde-lhe: ou acredita ou não acredita, o mundo não é a preto e branco, não é tudo da mesma cor. Você fala de Ramiro, mas Ramiro é um personagem estável, uma espécie de Sibila tragicômica (anda descalço, bebe Blue Curaçao, é um advogado que tem tesão por juízas), que guarda a memória de África como um arquivo sentimental. Ele aparece em outros livros, e aparecerá no próximo com mais destaque.

in Estado de S. Paulo – 1 Novembro 2007

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agosto 04, 2007

O PSD tem más digestões e até disfunção eréctil

É talvez o homem que vive mais perto de Fernando Pessoa. Francisco José Viegas, 45 anos, toma-lhe conta da casa, em Lisboa. E aos livros e pertences do poeta vai adicionando vida, conversas, amigos. Num intervalo desse turbilhão, o escritor e jornalista respondeu, por e-mail, às perguntas que considerou "divertidas".

Já recuperou o computador que lhe roubaram no aeroporto de Maiquetía, Venezuela?

Comprei outro e, agora que não é preciso, faço back-ups todas as semanas.

O seu desassossego com a tentação autoritária da Venezuela de Chavéz é ético e que mais?

Gastronómico. Tenho medo que ele queira uma alimentação socialista. Na Venezuela, come-se maravilhosamente em restaurantes antichavistas.

Levou a sério Saramago na fatalidade de termos que nos integrar em Espanha?

Não. A realidade ultrapassa-o. De resto, hoje, um dos desportos favoritos dos portugueses chama-se "tiro no Saramago". Já foi tempo. Agora não dá gozo.

Diz que o PSD de hoje está reduzido a uma sala de espera. De que especialidade médica?

Devia ser apenas ortopedia mas, infelizmente, trata-se de um complexo problema de clínica geral desde más-digestões a disfunção eréctil.

Pacheco Pereira respondeu-lhe quando disse, a propósito da crise do PSD, que ele escrevia em rongorongo?

Há mais incertezas sobre a Terra do que Pacheco Pereira e eu próprio alguma vez poderemos imaginar. A diferença é que ele foi maoísta e tem mais anos disto.

Está completamente esclarecido no caso da DREN ou espera pela passagem da 'silly season'?

Tudo gente ressentida, que é o maior problema português. A dra. Margarida Moreira é só um peão, não tem muita importância. E o prof. Charrua não é um herói da liberdade de expressão. Heróis são aqueles que levantaram a voz por causa do assunto.

O que faz quando está sozinho na Casa Fernando Pessoa e tem por ali por perto os objectos do poeta?

Não faço nada, passo ao largo por causa do alarme. Mas gostava de baralhá-los ou de trocar as legendas das vitrinas.

"Longe de Manaus" é o seu "Livro do desassossego"?

É o meu livro mais recente, aquele que mais custou a escrever, aquele que me deu mais prazer pessoal.

O dinheiro ganho com prémios de livros, como o da APE, deve ser gasto de que forma especial?

Estourá-lo. Gastá-lo. Esmifrá-lo. Não dar troco. Vingar-se dos impostos pagos. Viajar. Comprar discos. Comprar champanhe. Guardar um nadinha para qualquer coisa.

Ter bebido "99 cervejas + 1" levou-o a descobrir o quê?

Que é difícil fazer uma cerveja má (mas consegue-se). Que há sempre uma cerveja desconhecida à nossa espera. Que ainda há coisas maravilhosas para beber.

Segundo os seus apontamentos, há cada vez mais mulheres portuguesas a beber cerveja. Como vê o prolongamento dessa libertação?

Vejo muito bem. Um grão na asa é sempre bem-vindo em qualquer circunstância. Em loiras, ruivas ou morenas.

No paraíso há livros?

Há muitos livros. E espreguiçadeiras, máquinas de imperial, vinho branco, praias, horas de sesta, ostras, champanhe gelado, clones de Luana Piovani e de Monica Belucci, charutos (Ramon Allones, Churchill), sessões non-stop de CSI Las Vegas, filmes de Fellini e de Howard Hawks, e cigarrilhas para dividir com o Manuel António Pina.

O paraíso de um escritor é o mesmo que de um jornalista?

Não. O paraíso de um escritor é não ter que escrever. O pesadelo de um jornalista é proibirem-no de escrever.

É no seu blog [http//origemdasespecies.blogspot.com/] que continua a fazer jornalismo: compilatório, vigilante, denunciador. Nasce-se assim ou são os outros que nos fazem ser desse modo?

Às vezes, é embirração mesmo. O problema é que uma pessoa gosta do seu país, quer que ele seja melhor, e tem aquele fantástico defeito de todos os portugueses - opiniões sobre tudo.

Entrevista de Helena Teixeira da Silva a Francisco José Viegas
in Jornal de Notícias - 4 Agosto 2007

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julho 29, 2007

A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó

Francisco José Viegas, director da casa Fernando Pessoa, diz que quando chegou à Rua Coelho da Rocha em Fevereiro de 2006 encontrou a casa cheia de pó, sem actividades programadas. Em ano e meio de trabalho conseguiu trazer gente à Casa Fernando Pessoa, envolver as pessoas de Campo de Ourique e de Lisboa em muitas iniciativas, sempre com pouco dinheiro. E realça o facto dos funcionários da instituição terem abdicado de horas extraordinárias para manter a casa aberta à noite.


Correio da Manhã – A crise da Câmara de Lisboa afectou o trabalho da Casa Fernando Pessoa?

Francisco José Viegas – Afectou. A partir de Março, Abril, afectou. Tínhamos programado uma série de actividades, que se chamava “Lisboa, Cidade do Livro”, que iriam animar a cidade desde 22 de Abril até à abertura da Feira do Livro. Eram duzentas e tal actividades espalhadas pela cidade. As mais visíveis, como a vinda de escritores estrangeiros e três ou quatro ciclos de conferências, foram anuladas porque não havia verbas disponíveis.

- Não havia dinheiro.

- Não havia. No entanto, “Lisboa Cidade do Livro” decorreu e aconteceram cerca de cento e quarenta actividades. Com normalidade. Não foram as mais vistosas. Tínhamos previsto a vinda de dezasseis escritores estrangeiros, mas como não havia dinheiro foi tudo anulado.

- E desde a queda da Câmara em Maio até agora como tem sido a vida nesta casa?

- Mantivemos uma actividade absolutamente normal. Todas as iniciativas programadas, conferências, ciclos, debates, exposições, foram todas feitas. Sem um cêntimo. Tivemos aqui a semana de Cabo Verde só com o material da casa e o apoio da embaixada de Cabo Verde, para a vinda de escritores, para a música e exposições. Não gastámos um cêntimo. E para outras iniciativas recorremos a apoios externos, pontuais. Repare que em Maio tivemos, em média, uma iniciativa e meia por dia, o que é muito acima do normal e do que fizemos o ano passado.

- Como é que a Casa Fernando Pessoa conseguiu, no meio de uma crise financeira e política da Câmara, manter a sua actividade com um orçamento muito reduzido?

- Mesmo sendo reduzido teve um corte de 25 por cento, que foi o corte que abrangeu todos os serviços do pelouro da Cultura da Câmara.

- Esse corte foi em 2006 ou já este ano?

- Eu entrei em Fevereiro de 2006 e para 2007 houve um corte de 25 por cento em toda a direcção municipal de cultura. Mas eu não me queixo. Eu sabia ao que vinha. É muito fácil ser-se programador cultural ou ser-se gestor de bens culturais ou de instituições culturais com um orçamento grande. Aí há uma margem para se programar a nosso belo prazer, segundo uma política de gosto e de captação de público.

- E aqui, como é que ultrapassou a falta de dinheiro?

- O que nós fizemos foi, com os meios que tínhamos na casa e com o esforço empenhado do núcleo de pessoas desta instituição, trazer gente à Casa Fernando Pessoa. Foi uma estratégia definida com os responsáveis da Câmara. No primeiro ano, em 2006, era necessário reactivar a casa. A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó.

- Cheia de pó? A Casa Fernando Pessoa estava morta?

- Não havia actividades programadas.

- Estava morta?

- Era uma casa sem actividades programadas. Havia vários processos em curso, para iniciativas mais ou menos institucionais, colaborações, mas não havia nada programado. Logo em Fevereiro de 2006 tivemos logo várias iniciativas, apresentação de livros, debates, conferências e isso com o mínimo de custos. O objectivo nesse primeiro ano foi encher a casa. Fazer da Casa Fernando Pessoa um lugar marcante na geografia de Campo de Ourique e também na geografia da cidade.

- E com as escolas? Conseguiram dar a conhecer a casa aos jovens?

- Quando se fala em trazer novos públicos, em criar públicos, a primeira coisa que é preciso fazer é trazê-los, chamá-los. A casa tem uma biblioteca, um espólio de objectos pessoais de Fernando Pessoa, que é um incentivo às visitas tradicionais, de turistas, de escolas – temos quatro escolas por semana, as manhãs estão sempre cheias -, temos um grupo de investigadores estrangeiros, um auditório e um espaço para exposições. Tivemos que animar isto tudo. Mas sabíamos que no primeiro ano não tínhamos dinheiro para investir nas relações internacionais e em outros projectos muito importantes.

- Ficaram pela limpeza do pó?

- O que nós fizemos foi tirar o pó, limpar a casa, tirar o cheiro a vazio. E esse objectivo foi cumprido. Abrimos a casa. A programação não foi feita de dentro para fora, fomos perguntar às pessoas, como as universidades e as editoras, o que é que esta casa lhes poderia oferecer. E fizemos outra coisa. Ateliers de leitura e escrita para crianças, que repetimos este ano. Exactamente para criar novos públicos. E fizemos isto em colaboração com a Junta de Freguesia de Santo Contestável, aqui em Campo de Ourique. Este ano abrimos essa experiência a outras juntas.

- Para o ano vai repetir a essa experiência?

- Não só vamos repetir como vamos fazer uma coisa inovadora: ateliers de leitura e de escrita para adolescentes durante as férias escolares do Carnaval e da Páscoa. Uma altura em que os alunos se estão a preparar para os exames de português.

- Qual foi a adesão a esses ateliers?

- Sempre esgotados. As inscrições abriam e fechavam imediatamente. E foram feitos com pessoas da casa. Não houve recurso a meios exteriores. A Câmara apoiou-nos com os lanches para as crianças, por exemplo. E no fim desse trabalho o mais importante é o facto de cem crianças terem ficado a saber quem era Fernando Pessoa, que recitavam três, quatro, cinco quadras de cor, que escreviam versos do Pessoa e que fizeram as suas próprias quadras.

- Estou a ouvi-lo e a pensar no queixume permanente de muitos agentes culturais sobre a falta de dinheiro como justificação para tudo, principalmente para o que não se faz.

- Esse é um argumento para a conquista do poder. Quer dizer. É muito bom ter o poder de se decidir que programação é que se faz. O programador tem um poder imenso. Decide qual é a política de gosto de uma determinada instituição. O que nós fizemos foi abrir completamente a estrutura. Perguntar o que é que diversas entidades podiam fazer pela Casa Fernando Pessoa. E ao fim de três ou quatro meses tínhamos editores a propor-nos ciclos sobre isto ou aquilo. E aí vimos que era possível fazer muita coisa.

- Sem custos astronómicos e desculpas de falta de dinheiro.

- Exacto. Lembro-me de um debate aqui na casa, na presença da ministra da Cultura, sobre política cultural em que havia três, quatro participantes que se queixavam que as suas instituições ainda não tinham os dinheiros prometidos. Eu estava aqui como espectador e ouvia falar em duzentos, trezentos, quatrocentos mil euros, já tinha milhões de euros na cabeça, e disse-lhes que esse dinheiro todo correspondia ao orçamento anual, bienal da Casa Fernando Pessoa.

- Qual é o orçamento da Casa Fernando Pessoa este ano?

- Em 2007 não temos ainda ideia de qual é o orçamento. Houve um grande esforço para disciplinar os gastos na Câmara, nomeadamente na área cultural, o que foi muito bom. Mas no primeiro ano tivemos 250 mil euros, dos quais gastámos cerca de 60 mil. Só para ter uma ideia, de Abril até agora devemos ter gasto, no máximo, quatro a cinco mil euros.

- É extraordinário.

- Em programação. Não chegámos a cinco mil euros.

- Não acha que se poderia fazer muito mais com os muitos milhões que o Estado atribui à cultura a todos os níveis, seja ao nível do poder central ou do poder local?

- Sabe que há uma indústria cultural que vive necessariamente dos dinheiros do Estado.

- Mas é uma indústria muito fechada, só para alguns, que apanha tudo o que é subsídio estatal.

- É uma indústria que alimenta uma clientela.

- Clientela que vive do Estado e protesta muito.

- Eu desconfio sempre quando há protestos colectivos dos intelectuais contra o Ministério da Cultura, por exemplo. Há de certeza subsídios pelo meio. Eu desconfio sempre muito disso. Acho que é possível trabalhar de outra maneira. Não como nós fizemos, porque é esgotante.

- E teve a colaboração dos funcionários? Diz-se tão mal dos funcionários da Câmara.

- Deixe-me dar-lhe um exemplo. Se não fosse o esforço das pessoas da casa nós fecharíamos todos os dias às seis da tarde.

- Seis da tarde? Não há funcionários suficientes?

- Não havia pessoas. E como não estamos autorizados a pagar horas extraordinárias tivemos que encontrar uma solução de compromisso com as pessoas da casa, com os trabalhadores da casa a liderar.

- Quantos funcionários tem a Casa Fernando Pessoa?

- São dez pessoas, que abdicaram das horas extraordinárias para que pudéssemos ter iniciativas até às oito da noite ou até à meia-noite, com uma grande flexibilidade de horários. Eu percebi que era uma situação injusta, estar a pedir-lhes este sacrifício, mas a verdade é que sem essa disponibilidade a casa fechava às seis da tarde. Não tinha hipóteses.

- Essa foi uma boa surpresa quando aqui chegou?

- Foi. Eu sabia que a casa não tinha autonomia financeira, que havia problemas nos pagamentos a fornecedores, até porque as nossas verbas são insignificantes no universo da Câmara e por isso mesmo pensámos revitalizar a casa no primeiro ano e no segundo, que era este, estabelecer pontes para iniciativas internacionais. Fizemos isso com o Instituto Espanhol, fizemos isso em Buenos Aires, fizemos isso no Brasil.

- O Brasil adora Fernando Pessoa.

- Com o então prefeito Serra de São Paulo chegou a haver uma conversa muito informal sobre a possibilidade de se criar uma Casa Fernando Pessoa na cidade. Pessoa é mais lido no Brasil do que em Portugal.

- Custava muito dinheiro?

- Era um investimento mínimo porque quer o governo de São Paulo como a prefeitura estariam disponíveis para fazer isso.

- O projecto está a andar ou não?

- Não. Era impossível, Tínhamos necessidades elementares aqui na casa. E projectos, como a recuperação do jardim, do restaurante e da cafetaria, que traria muito mais público se estivessem abertos. As obras arrancariam até final deste ano, temos projectos executados, não são obras faraónicas e seria este ano também que lançaríamos uma obra fundamental, que era o anuário de Pessoa.

- Tudo com pouco dinheiro?

- Foi outra surpresa para mim. Na Casa Fernando Pessoa pode fazer-se muito com pouco dinheiro, menos do que eu próprio supunha.

- Falou da grande disponibilidade dos funcionários. Como é que isso foi possível aqui e não é possível na globalidade da Câmara?

- É uma questão de abertura às pessoas.

- De abertura?

- Da maneira como se tratam as pessoas. Da maneira como se responsabilizam as pessoas. Todos temos a ideia do monstro do funcionalismo público. Mas a verdade é que as pessoas são mal tratadas. Não são responsabilizadas. Não são chamadas a fazer propostas. Nós fazemos reuniões periódicas com todos. Fizemos uma festa no aniversário da casa com duas mil pessoas e foi tudo decidido por todos. Ao mínimo pormenor. A programação, a convocação dos meios, tudo.

- E tem o apoio de outros serviços da Câmara?

- A Câmara tem uma série de meios ao nosso dispor. Muito do que íamos fazer dependia em grande parte da colaboração da imprensa municipal. Independentemente do que podemos pensar sobre o peso, a falta de mobilidade desses departamentos, desde que as pessoas sejam motivadas é possível fazer muita coisa. E nós tivemos uma boa colaboração da imprensa municipal porque viam que nós estávamos interessados, que nos preocupávamos, que íamos lá. E tivemos sempre tudo pronto a horas. O que se faz aqui é possível fazer em outros departamentos. As pessoas estão sedentas de um pouco de organização.

- Só organização?

- As pessoas também estão a precisar de serem convocadas. De serem chamadas a participar nas iniciativas. Como aqui, em que todos fazemos de tudo um pouco, de uma forma de alguma maneira autogestionária.

- Essa disponibilidade dos funcionários surpreendeu-o?

- Foi uma surpresa para mim.

- Está a gostar desta experiência?

- Este ano e meio foi muito bom. Estou a gostar. E estou a gostar também pelo facto das pessoas de Campo de Ourique terem descoberto esta casa e gostam de ficar, de assistir e de ficar por aqui até às duas da manhã. Veja a festa do lançamento do livro de Agualusa. Estiveram aqui 500 pessoas, por todos os espaços, até às duas da manhã. Depois desta fase, de termos conquistado o público, gostaríamos de avançar para os projectos que já lhe referi, nomeadamente na área internacional.

- Com o Brasil na primeira linha.

- As relações internacionais. Temos hipóteses de assinar vários protocolos com universidades brasileiras. Felizmente temos um excelente embaixador, que é o Francisco Seixas da Costa, que mobilizou tudo e todos. Além disso temos um projecto de um kit móvel de uma exposição desenhado pelo Henrique Cayate em espanhol, inglês e português que é uma caixa e que pode ir pela mala diplomática para todo o mundo. Temos já pedidos da Venezuela, Argentina, Brasil, Marrocos, Angola, Moçambique, Uruguai, Estados Unidos. Tudo isto com meios muito reduzidos.

- Está a falar de quanto dinheiro?

- Nós fazemos isto por dez mil euros.

- Quer continuar aqui na Casa?

- Naturalmente que quando entrar a nova equipa da Câmara direi o que é que se está a fazer aqui na casa e fico à espera do que decidirem. Tenho um contrato anual, que é renovado todos os anos, que acaba em Fevereiro de 2008, mas aceito qualquer decisão. A minha vida nunca dependeu destes cargos.

- Mas pessoalmente gostaria de ficar.

- Eu fiquei fascinado com o projecto. E acho que é possível fazer muito mais coisas, as bases estão lançadas. E a base é a Casa Fernando Pessoa. Funciona. Tem gente. Tem ruído. Sabe que a nossa preocupação era a reacção dos vizinhos pelo facto de estarmos aqui até à uma da manhã. Com música, barulho, etc. E uma vez fui falar com um dos vizinhos e avisei-o que íamos ter uma iniciativa que deveria acabar tarde. E sabe qual foi a resposta dele? Finalmente há vida nessa casa.

- Há vida na Casa Fernando Pessoa. Mas Pessoa estava muito esquecido nesta casa?

- Temos de perceber a fortuna, a riqueza de termos uma coisa chamada Fernando Pessoa. Não serve só como um emblema. Serve como um motivo para uma coisa muito mais ampla. Um dos nossos projectos, que ainda não lançámos, é a “Lisboa, cidade Pessoa”. Uma iniciativa internacional.

- Pessoa é uma marca com enorme valor.

- Pessoa é uma marca fundamental. E se relacionarmos isso com Lisboa temos uma campanha notável. Não é preciso inventar nada. Temos tudo feito. Até temos a sorte de Pessoa rimar com Lisboa. E às vezes até digo a brincar que um dia vamos propor à Câmara que substitua os corvos por Pessoa.

- O escritor Francisco José Viegas está a escrever um novo romance, apesar do trabalho nesta casa?

- Vai sair um livro, provavelmente no fim da próxima Primavera, a continuação das aventuras de Jaime Ramos, um novo policial que em princípio se chamará “O Mar em Casablanca”. Estou a escrevê-lo de madrugada. Das quatro da manhã até as dez. Depois venho para aqui.

UM CIGARRO NA CONVERSA

Em primeiro lugar o indispensável registo de interesses. O jornalista do CM é amigo do jornalista e escritor Francisco José Viegas. Trabalhou com ele num semanário de curta duração, ‘O Liberal’, e esteve no mesmo grupo editorial durante alguns anos. Pelo caminho aconteceram muitos encontros. À volta da mesa, de uns copos, de boas conversas.

O director da Casa Fernando Pessoa gosta da vida. A cultura passa pela gastronomia, pelas viagens, pelos poemas, pelos romances e por essa figura notável do inspector Jaime Ramos que o acompanha em vários policiais. Mas também passa por umas cigarrilhas, uns charutos ou cigarros. Sempre. Ou não fosse Francisco José Viegas um admirador de Fernando Pessoa.

Na Casa, como lhe chama, há espaços para fumadores e não fumadores. Mas na entrevista não houve lugar para o politicamente correcto muito estúpido dos nossos dias. As fotografias revelam isso mesmo. A verdade de uma entrevista que acabou por ser uma boa conversa.

in Jornal Correio da Manhã – 29 Julho 2007

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