abril 18, 2011

Finalmente, a política

Finalmente, a política. Fui convidado, como independente, para a lista de candidatos a deputados pelo PSD no círculo de Bragança – e aceitei. As razões são simples e prendem-se, todas elas, com a necessidade de responder a um desafio para a participação na vida portuguesa. Há muitas formas de o fazer — esta é uma delas. A participação activa na vida política nunca foi uma das minhas prioridades acima de todas as outras; a experiência dos últimos anos, no entanto, é dramática: a indiferença destruiu a capacidade de o país escolher, interrogar-se, pensar, escolher e agir. Essa indiferença conduziu, não raro, a formas obtusas de ressentimento, de mistificação, de medo, de mau governo e — finalmente — a um caos em que o debate, a troca de ideias e o esforço colectivo foram desprezados, até chegarmos a um ponto em que a indiferença diante do mau governo se tornou tolerada e, até, apreciada e valorizada. Essa perversão da vida democrática é inaceitável. Diante do mau governo devem apresentar-se propostas e soluções para a mudança — até para reconduzir o país a uma normalidade que lhe permita encarar as dificuldades económicas que vive actualmente.

Penso que Portugal deve mudar; não apenas de governo, mas de modo de vida. Os últimos dez anos conduziram-nos a um caos que não vivemos antes senão em situações de excepção — na economia, na justiça, na educação, na protecção social, na vida em sociedade. À situação económica próxima da calamidade (de que os sinais mais evidentes, nos últimos anos, são o endividamento crescente do Estado, das empresas e dos cidadãos, a par do descontrole das contas públicas e da incapacidade de o governo fazer as escolhas mais acertadas, mascarando a contabilidade, falhando nas previsões, tomando por realidade aquilo que não passa de uma soma de fantasias cujos resultados serão bastante graves para os próximos anos) junta-se também a necessidade de procurar novos caminhos para a nossa vida. Isso passa por repensá-la e não por sujeitá-la a conjuntos contraditórios de «medidas» ditadas pela propaganda, pelas circunstâncias mais imediatas, bem como pela necessidade de manter uma enorme máquina de poder e de influência, cujo único objectivo é o de criar mais poder e mais influência. Acredito que isso passa por exigirmos clareza e transparência nas contas públicas, porque isso há-de significar, também, respeito pelo esforço e participação dos contribuintes; pela ideia de parcimónia e moderação na vida das famílias, porque isso significará que não se endividarão para lá do aceitável; por exercer o poder sem abdicar das ideias de tolerância, de respeito pela diversidade de opiniões, da necessidade de debate e de consenso; passará também por reduzir o poder do Estado e das grandes corporações, de modo a não sacrificar a liberdade dos cidadãos nem a sua capacidade de iniciativa; passará por fazer com que a educação e o ensino regressem à escola pública, que não pode ser reduzida a um palco de experiências sindicais, pedagógicas, ideológicas e de «engenharia social»; passará por uma reforma da justiça, de forma a torná-la mais célere, mais próxima dos cidadãos, mais eficaz, mais fiável, mais prestigiada e independente do poder político; passará por não tratar como mera estatística (maleável e apta para toda a espécie de propaganda) o crescente e dramático aumento do desemprego, da pobreza e do desamparo na velhice; passará por mais, sempre mais, rigor e transparência na aplicação dos dinheiros públicos, uma vez que o Estado não pode ser «propriedade» de nenhuma geração iluminada, de nenhum complexo empresarial, de nenhum grupo de pressão e de influência, nem pode, tão-pouco, ser administrado ao sabor das conveniências do momento; passará por uma nova interpretação do papel do Estado na área da Cultura, que não pode ser concebida como o organograma dos interesses privados e corporativos no actual Ministério da Cultura – é impossível falar de Cultura sem falar da ideia de comunidade, sem falar de imaterialidade, de prospecção do futuro, de património e da independência dos criadores em relação ao Estado; é também impossível falar de cultura sem falar de novos públicos para a cultura, tendo em conta que os novos públicos não se formam com mais dinheiro, com mais investimento e mais despesa do Estado, mas com a sua criação a partir da escola, que não pode continuar a menosprezar a educação artística, o pensamento e o contacto com as letras e o património. Estas são as minhas ideias e continuarei a defendê-las —já as defendi até aqui, e penso que são justas e sensatas. E creio que as ideias de justiça e de sensatez devem regressar à vida política. Irei defendê-las agora noutro lugar, e a partir de uma candidatura em Bragança, terra de grande parte da minha família, a terra dos meus maiores, como escreveu Jorge Luis Borges. Tenho orgulho em fazê-lo a partir de Bragança.

Como disse, aceitei esta candidatura como um desafio à participação na vida portuguesa. A partir de agora, esse desafio será, também, um dever. Manter-me-ei como independente, no quadro de um programa eleitoral com que me identifico e que defenderei. Não tenho uma vida profissional como político dedicado à política a tempo inteiro — sou e serei sempre o que fui: autor e editor. Irei, portanto, manter essa identidade e essa raiz. Espero não me arrepender; mas, se isso acontecer, sei que não há novos começos. Continuarei, apenas.

in A origem das espécies - 16 Abril 2011

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fevereiro 07, 2011

Melros nas Oliveiras

Acho graça às mais altas auctoridades em matéria sociológica que, de repente, descobrem que a ideia que têm «da imprensa de referência» não coincide com o país, propriamente dito. Chego a isto por uma passagem do post do Henrique Raposo («Este tema não pode continuar a ser apenas do Correio da Manhã. Este tema tem de saltar para a imprensa dita de referência. Portugal não é um país de brandos costumes.») sobre a violência doméstica. Metade do país constitucional (estamos no século XIX, bem vistas as coisas, e tudo o que não passa no Chiado, na Havaneza, no Grémio, é como se não acontecesse), ou talvez mais, descobriu que não somos um país de brandos costumes. Ora, a questão é velha. Durante o regime do dr. Salazar não havia crimes na imprensa, a menos que os facínoras fossem mesmo facínoras; se não havia crimes, não havia páginas de crimes; se não havia páginas de crimes, não havia literatura policial. Os autores de policiais, portugueses, chamavam-se Ross Pynn, Frank Gold, Dick Haskins (Roussado Pinto, Fernando Campos, Andrade Albuquerque), por exemplo. O país constitucional (regeneradores, históricos, progressistas), por outro lado, abomina a violência. Os seus representantes nas cadeiras do pensamento, nas conferências de S. Vicente de Paula, do Casino ou do Grémio, atribuíam isso ao Correio da Manhã, esse albergue de suculentas cabidelas onde o sangue não coagulava de página para página, «que horror, é só sangue, que horror» — mesmo que fosse na casa ao lado. Quando se deu «o crime do Meia Culpa», algumas consciências desgrenharam o chinó mas só de passagem; era uma coisa de província, em Amarante, que horror, que horror, deve ser do vinho verde, lá onde há melros a saltitar de oliveira em oliveira, cotovias e cucos entre amendoeiras a florir, camponeses e comerciantes a jogar à bisca debaixo das pontes, com as famílias ao lado, a dar conta dos farnéis. Violência é na Espanha, que são sanguinários; crimes é na imprensa internacional — os nossos não têm categoria, só vêm no Correio da Manhã. Tiroteios em bairros problemáticos não são crimes, são explosões sociais; vizinhos esfaqueados, adolescentes baleados, maridos que matam mulheres no meio da rua a tiro de caçadeira ou à catanada, sogros que estouram a cabeça de ex-genros (foi anteontem, desculpem lá), ex-maridos que esventram ex-mulheres, miúdos do liceu que esquartejam miúdos de liceu, que horror, que horror, isso é do Correio da Manhã, a nossa imprensa fala de alta sociologia (essa mistura aprazível de socialismo com astrologia), de temas fracturantes, de beleza pura, de arquitectos que vão para o emprego e dividem o carro com uma médica e um psi, de bons alunos que sofrem de stress pré-escolar. E, no entanto, só no Verão, cerca de cinquenta homicídios varreram o país, com as mais altas auctoridades de sociologia em férias, tratando por epifenómenos toda essa bandalheira, reservando a violência doméstica para o capítulo dos crimes políticos, cometidos por facínoras da Legião Estrangeira que retalham esposas na alcova nupcial. O pai que mata o filho com uma caçadeira comprada a uns bandoleiros de Idanha-a-Nova, o marido que vai à feira de Boticas aprazar uma pistola para desfazer o cunhado que está a chegar de França, o marido abandonado que vai esperar a ex-mulher à travessa nas traseiras de casa e depois mete o cadáver no porta-bagagem e o rega com ácido num descampado. Isto não lhes interessa? A mim também não. Os sociólogos do constitucionalismo, para manterem a sua estabilidade emocional em regra, preferem que os crimes de violência doméstica sejam politizados e que não apareçam nas páginas de crime, conspurcados e a meio gás. Acontece que os crimes de violência doméstica são o resultado desta pureza de sangue; casamentos que não se discutem, filhos a quem se permite tudo, mulheres trucidadas por famílias funcionais e por ideias disfuncionais, álcool a rodos (ai, a Direcção-Geral de Saúde!), falta de dinheiro, desemprego, emprego a mais, telenovelas, sangue na estrada, miséria no lar, mau sexo e maus hábitos, machismo mariola, machismo filho da puta transmitido de pais para filhos e de mães para filhos. Escusam de vir com o assunto para a primeira página, como se nunca lá tivesse estado e tivessem sido pioneiros – esteve, mas noutros jornais, ai que horror, que horror, é o Correio da Manhã, que horror. Há namorados que dão cargas de porrada a namoradas, para as educar desde cedo e as meterem na ordem logo no princípio – e elas não se revoltam nem lhes enfiam um balázio nos joelhos, aparecem com olhos negros e o cabelo a tapar nódoas negras. Há mulheres de meia idade que apanham surras e continuam a pagar as contas em casa. Há mulheres jovens que aceitam um estaladão e não respondem com um taco de basebol na virilha. Que horror, que horror, é a violência doméstica, vamos legislar contra a violência doméstica, que bom, e fazer mais duas comissões, e uma marcha de solidariedade, que bom, e mais uma lei, que bom, vai ser tão bom. Cumpram a lei (exijam que se cumpra a lei e que não façam dela uma excepção, mais uma, com alíneas e dúvidas e contratempos), envenenem os maridos que vos batem, castrem os namorados que vos tratam mal, abandonem os lares, deitem-lhes azeite a ferver por cima, ponham-lhes laxantes na sopa, chamem a polícia em altos gritos, exijam que os tribunais sejam mais rápidos, criem uma colónia penal cheia de mosquitos, façam macumba para eles ficarem sem tesão, troquem-lhes os medicamentos da hipertensão, eduquem as vossas filhas e ensinem-lhes a usar a inteligência e o varapau em doses idênticas — mas, sobretudo, não me venham com o nhe-nhe-nhem, nhe-nhe-nhem, e tal, e a violência doméstica, e vamos legislar. Sou pela acção directa: lei e prisão e nomes publicados no adro da igreja, e divórcio compulsivo e obrigatório. E não me venham com sociólogas e sociólogos que não sabem distinguir entre sadomaso e humilhação. E leiam o Correio da Manhã; está lá o país. Podem não gostar dele, está bem, mas foda-se.

in A Origem das Espécies - 07 Fevereiro 2011

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agosto 15, 2010

Vá lá


Vamos lá. Andaram um ano a arranjar coragem mas valeu a pena. Está aí uma onda anti-Bolaño (tão ridícula como a onda absolutamente-Bolaño, concordo). Distingo desta «onda» o texto de Sérgio Lavos sobre O Terceiro Reich, a que mais tarde voltarei. A questão é outra, e não merece grande espalhafato.

Conheço-os há muito tempo. Nunca leram O Nome da Rosa ou O Pêndulo de Foucault porque eram romances impingidos pela máquina infernal do marketing das editoras. Que a máquina infernal os leve a comprar iPhones e iPods, arroz basmati ou tofu banhado de espermicida, isso compreende-se. Mas um livro, foda-se. Umberto Eco era bom, era, enquanto semiólogo, vá lá, e estudioso da estética medieval – mas um italiano do Piemonte que de repente escreve um par de romances acompanhado de lançamento internacional, isso só se deve à máquina infernal. Dão-lhes um livro de 1062 páginas? Isso não, um tijolo que pode estragar-lhes a digestão (devem ler grandes merdas, devem), puríssima e elevada, cheia de águas fosfatadas. Ficam cansados às primeiras páginas, coitadinhos (é o cérebro – o fosgluten não lhes chega em tempos de ressentimento), não estão para isso, e ainda por cima a máquina infernal dá-lhes forte no discernimento. Mas o problema é Bolaño.

O chileno aborrece-os. Em primeiro lugar riu-se das fantasias latino-americanas (lá vai Macondo, lá vão os Tarahumaras), não fez a revolução e desconfia de Gabriel García Márquez, tanto como de Octavio Paz, a maravilhosa esfinge. Em segundo lugar, gostava mais de rock do que de charangas e orquestas de marimbas. Depois, não foi convocado para nenhuma das legiões em combate, ou porque andava mal vestido, ou porque trabalhava para a família e pensava no futuro dos filhos. Pelo meio, gostava mais de Borges (a quem imitava, sem pudor e sem despudor) do que de falangistas de ambas as mãos. Há gente que fica incomodada porque Bolaño, em 2666, «estava sempre a descrever sonhos»; ora, uma pessoa, naturalmente sóbria, culta, equilibrada como um paxá, detesta sonhos. Naturalmente, o que é preciso é acção, acção demolidora, luz do dia, espinafres, função clorofila às horas marcadas e pouco incómodo. Assim, sim.

Um ano de ressentimento custa a curar. Ainda a Quetzal não tinha lançado 2666 e algumas das nossas melhores almas já manifestavam a sua preocupação. Muitos deles não se tinham dado conta de que já havia duas edições de Roberto Bolaño no mercado (Nocturno Chileno, publicado pela Gótica; e Os Detectives Selvagens, da Teorema), mas o pormenor passava. Confundir a operação de entusiasmo (cujos custos de marketing, o infernal marketing, vale a pena dizer, foram dez, vinte, trinta vezes menores do que qualquer romance de hipermercado ou uma estreia de uma locutora de televisão) em redor de 2666 com uma poderosa acção de marketing infernal – só mesmo por distracção e ignorância. Mas aceito o pecado. Fiquei entusiasmado com o livro; correria, de novo, os riscos que – como editor – corri. Maiores do que alguma vez os críticos anti-Bolaño correriam por que livro fosse (alguns deles não correm, nem andam, nem estão parados). Corri esses riscos porque fiquei perdido pelo livro. Isso já não se entende.

Que uma pessoa leia um livro e o deteste, eu defendo que se deve levantar da mesa, do sofá, da cama – e condená-lo à poeira. Que um pobre chileno morto seja queimado em efígie só porque um bando de malfeitores ficou entusiasmado com um livro (ou dois, ou três, ou os que hão-de vir), e isso é motivo de desconfiança, só dá uma ideia do ressentimento banal.

Mas o mais penoso é ver como almas simpáticas de repente – à falta do chileno morto – procuram um inimigo a abater, um culpado dos seus livros. Porque tem de haver um culpado, uma mão invisível. Esta mania do Bolaño tem de ter um culpado. A ninguém ocorre, a nenhuma cabecinha, que o chileno – enquanto estava vivo e bebia – apenas escreveu esses livros (não gostar deles, já o disse, é uma coisa; fazer de virgem literária é outra) e não conspirou para minar a sagrada estabilidade das suas digestões. Bolaño é odioso porque os jornais falaram dos seus livros e porque muitos leitores o leram e se surpreenderam? Não é grande novidade nas nossas províncias. Mas deixem o homem em paz. Guardem o Index para mais tarde.

in A Origem das Espécies - 9 Agosto 2010

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fevereiro 01, 2009

Blogosfera

Há amigos que têm blogs e às vezes desistem; e há blogs que continuam. Há outras pessoas que têm blogs e não são meus amigos. Há pessoas que conheço e outras que não conheço. De vez em quanto há a tentação de fazer um balanço sobre a blogosfera e o seu ressentimento, a sua inutilidade, a sua maldade -- tanto como sobre as coisas indispensáveis que ela trouxe. Evito. Há coisas que nos deixam irritados com os outros e coisas que nos deixam despertos para os outros; os blogs fazem, em todos nós, parte da irritação e da sensação de partilharmos ideias comuns ou incomuns. Já gostei mais de blogs e já os li mais, logo de manhã. Por vários motivos, continuo a lê-los e encontro neles grandes virtudes, a par de coisas dispensáveis (a verdade é que, antigamente, muitos idiotas andavam anónimos pelas ruas e, hoje, grande parte deles se encontram na blogosfera). O género humano é assim. E há quem escreva maravilhosamente, quem escreva superiormente; e quem devia escrever mais. E quem leio sempre com prazer; há blogs que nunca leio pelo simples motivo de que não concordo com uma única palavra do que possa estar lá escrito (porque uma coisa é não concordar e discutir, e outra, inteiramente diferente, é evitar encarar o ressentimento e a ignorância); há blogs com que raramente concordo mas que leio todos os dias; e há blogs que fazem parte do meu roteiro de leituras diárias. Gostava de fazer uma lista, mas tenho medo de esquecer este e aquele; e se é uma injustiça para esses blogs, também o seria para mim. De modo que já várias vezes pensei em acabar com o blog, «acabo com esta merda do blog», mas a idade vai aconselhando cuidado com «estados de alma» e alguma persistência. Nem sempre escrevo o que quero; nem sempre escrevo quando quero; e nem sempre quero escrever no blog. Debater sobre a blogosfera é capaz de ser uma coisa muito fragmentária se não se tem uma agenda, um plano & objectivos para o quinquénio. De modo que vou escrevendo; quando posso, quando tenho tempo, quando -- mesmo não tendo tempo -- invento tempo para não perder o blog. Já tive mais tempo disponível. Tenho menos. Tenho menos tempo e mais idade. Quando comecei um blog, o Aviz, eu tinha mais tempo e menos idade e escrevia a todas as horas possíveis, de madrugada, de manhã cedo, pela tarde dentro. Depois, o Aviz acabou e Aviz também, pelo menos para mim. O Origem das Espécies era uma homenagem a coisas dispersas: ao título de um livro, ao seu autor, às suas viagens, às suas descobertas, ao espírito do tempo, a um tom, a uma dúvida, a uma perturbação sobre a origem das coisas. Mas o Origem das Espécies não é um blog íntimo, pessoal, autobiográfico; não é o meu GPS senão em relação ao mapa onde circulam a política, as leituras, as imagens, as irritações, tudo isso. É uma coisa inútil só porque quero que seja inútil, dependendo apenas da minha disponibilidade, do «hoje sim, amanhã talvez». Estamos hoje muito vigiados; somos vigiados por leitores, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas que nos amam ou nos detestam, gente irrelevante, gente a que damos importância, gente que não tem importância. A net é barata, acessível e livre. Dá para tudo, para o melhor e para o pior, para a maledicência e para a aldrabice, para as cartas de amor (ridículas, evidentemente) e para a banalização de tudo. É aí que estamos todos. Perdeu-se muita inocência na internet. Às vezes, ainda bem; de outras vezes, infelizmente. Provavelmente hoje devia ter escrito sobre Obama, ou sobre o descaramento de o dr. Rendeiro ter perorado sobre economia & finanças apesar do pântano do BPP, ou devia ter comentado uma frase muito boa do Maradona e que se devia repetir de vez em quando («pessoas de má índole vieram aqui desmentir-me, utilizando para tal, à falta de melhor, argumentos»), mas não tenho agenda nem isto é a delegação de um jornal diário. Chegados a este ponto, o leitor prepara-se para o anúncio de que o blog vai terminar, mas desengane-se. O Origem vai para férias daqui alguns dias; depois, na próxima semana, regressará à vida com um novo desenho. E é assim; para acrescentar alguma falta de sentido a tudo isto.

in A Origem das Espécies - 20 Janeiro 2009

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abril 15, 2008

Blog # 72

O juiz do Tribunal de São João Novo, no Porto, deu uma reprimenda a Vítor S., um dos rapazes envolvidos no "caso Gisberta". Na época, Vítor teria 15 ou 16 anos e, segundo o tribunal, assistiu a tudo – não só à agressão como à lenta morte de Gisberta, ou Gisberto (o género pouco me importa) – pelo que foi condenado a oito meses de prisão efectiva. Vamos e venhamos: o caso é que o tribunal não provou o envolvimento de Vítor nas agressões; apenas sabe que assistiu; por isso, cobrará oito meses e, dos oito meses, retira quase dois, relativos a prisão preventiva já cumprida. Ficam seis. Eu não quero que Vítor seja injustamente encarcerado. Mas aflige-me que tenham agredido Gisberta, ou Gisberto, e a tenham deixado morrer e partam para outra. Rindo. O grau de desumanização e de violência é tão grande que não devíamos contar piadas sobre o assunto. Tem a ver com o grau de indiferença e frieza de que os rapazes foram capazes. Oito meses é capaz de soar a pouco, é.

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Lamento, mas quando leio coisas como "acordo ortográfico nunca", apetece-me rir. Às vezes, acrescentam coisas sobre "a nossa língua" ou "a nossa pátria". Nem uma coisa nem outra existem em estado puro. A luta contra "os brasileiros", então, é ridícula e mesquinha. Os portugueses escreverão como lhes disserem que escrevam. Ou não.

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Stefan Zweig de novo, e publicado pela Esfera dos Livros: 'Carta de Uma Desconhecida' e 'Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher'. Aproveitemos a oportunidade.

É no final do mês de Maio, a 20, que será publicado 'Praça de Londres', o novo livro de contos de Lídia Jorge (edição Dom Quixote).

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FRASES

"Dêem-me um professor despedido por incompetência e façam de mim uma pessoa feliz."Maradona, no blogue A Causa Foi Modificada

"Vi a cadela sair disparada do quintal e vir direito aos meus testículos. Mordeu-me e fiquei em pânico ao ver o sangue entre as pernas."Carlos Bragança, vítima de pit bull, ontem no CM.

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