junho 23, 2006

No mata-mata

1. Regressemos ao debate sobre os oitavos-de-final. Nesta matéria, recordo as palavras de Scolari de há quatro anos, quando – no Mundial da Coreia e Japão – lhe calhou um Brasil devastado pelo estrelato, pela dúvida e pela risota. O que disse Scolari? Simples. Vou aos jornais da época: “Numa Copa, na hora do mata-mata, há um nivelamento e só os competentes sobram. Não existe espaço para a tradição ou conquistas do passado.”

Quando o “escrete” inicia o estágio final, em Espanha, ninguém acreditava que aquela equipa de empates, derrotas e meias vitórias (como foi o caminho da selecção com Emerson Leão) seria capaz de consagrar-se como pentacampeã. Para quem queria um “futebol bailarino”, como Émerson Leão tinha prometido, o estilo de Scolari era muito diferente e ele trataria a selecção como tinha tratado os clubes onde tinha passado: queria equipas vencedoras, mesmo que não “ganhassem bonito”. Será isso que vai acontecer?

2. Depois, o outro lema: bateu, levou. Sempre. Veja-se o caso de Pelé, o reizinho Pelé: durante a fase de preparação para o campeonato do mundo de 2002, as tácticas de Scolari e os jogos da selecção foram várias vezes criticados pelo astro. Durante o amigável entre Portugal e o Brasil, em Alvalade, Pelé voltou a criticar abertamente as opções de Scolari. Na Coreia, idem. No Japão, antes dos quartos-de-final com a Inglaterra, Pelé declara a um canal de televisão inglês que o Brasil, a jogar assim, é bem capaz de perder. Scolari estava a poucos metros de distância, ouviu e calou. Mas não esqueceu: na primeira entrevista que deu a um jornal brasileiro (a Ruy Carlos Ostermann), depois ter conquistado o penta, Felipão declarou que Pelé tinha sido o maior jogador de todos os tempos e que seria muito improvável que houvesse outro como ele; mas, “de facto, de futebol ele não entende nada”. Bem vistas as coisas, é capaz de ser verdade: as previsões de Pelé falham quase sempre. Preparem-se.

3. Mesmo assim, ninguém tem o direito de abdicar do seu gosto pelo bom futebol, por jogos fantásticos. Se é que me entendem.

in "Topo Norte", Jornal de Notícias - 23 Junho 2006