agosto 05, 2006

À mesa do rei Artur

Onde começa o planalto nordestino começa também uma das tradições da posta mirandesa. Sejamos magnânimos: sabe bem e é generosa.

EU LEMBRO-ME bem da Linha do Sabor, essa que começava exactamente na aldeia onde eu vivi e terminava em Duas Igrejas que, pomposamente, era anunciada como “Duas Igrejas, Miranda”. Circulavam dois tipos de composição, nessa linha, subindo do Pocinho para Moncorvo em tons arrastados e, depois, passando pelo Carvalhal, por Urros, Felgar, Carviçais, Larinho, Bruçó, Lagoaça, Variz, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Sendim, por aí fora, em tons monocórdicos, ao sabor de planaltos, fragmentos de deserto, searas, oásis de castanheiros e cerejeiras. Um era o comboio regular, de carruagens verdes (e depois também azuis e laranjas) com a sua varandinha de ferro forjado onde melhor se colhia o perfume das montanhas, a fuligem da locomotiva a vapor, o cheiro de carvão queimado e o pó das colinas. Apetecia saltar da carruagem e acompanhar o comboio a pé. Outro era a velha automotora (inglesa, suponho), em “monovolume”, que dançava nos carris com mais velocidade, azul-escura, o “rápido do Sabor”. Ambos desapareceram há muito tempo, mas viajei bastante por esta linha. Moncorvo abastecia-me de jornais, de livros baratos e de cervejas nas esplanadas. Depois, sucumbindo ao deserto que tomou conta do Nordeste, as estações foram sendo transformadas, lentamente, em ruínas. Ignoro o destino da maior parte, mas tenho visto fotografias – e basta-me para magoar a memória.

Carviçais, a alguns quilómetros de Moncorvo, depois de passar pelo cenário fantástico e fantasmagórico das Minas do Carvalhal (impressionante como o lugar, central no volfrâmio português durante a II Guerra, não mereceu nem documentários, nem romances ou monografias), reacendeu o seu nome graças a um festival de Verão onde uns milhares se agitam ao som de música electrónica. Por muito que recorde as minhas passagens por Carviçais, nunca suporia que entrasse no mapa por esse motivo – música electrónica. Antes por isso do que por ter desaparecido do mapa.

O Artur foi outra das minhas referências naqueles lugares – também há muitos anos. Lembro-me do velhinho restaurante, desaconchegado, acanhado, barulhento e saboroso. Lembro-me do Artur intermédio, mais arejado. E conheço o novo Artur, preparado para os novos tempos. Prefiro o segundo, mas é destino meu. Houve tardes gloriosas naquelas salas: almoços de quatro e cinco horas, lentos e com digestão incluída, na altura em que se provava algum “vinho fino” de registo (sou, em geral, aviso, céptico em relação aos “vinhos finos”…) com amêndoas da zona. No entanto, as entradas (as entradinhas…) continuam a ser generosas, apetitosas, e o pão chega a ser uma obra de arte, quando não é fim-de-semana apertado com multidões a formar fila de espera. Alheirinha, linguiça ou chouriço grelhados, salpicão, azeitonas perfeitas e amargas (com um golpezinho para receber o aroma da laranja e das ervas), além de uma sopa tradicional muito “alimentícia” e olorosa, como veludo a preparar o esófago que me disseram existir no aparelho digestivo.

De registo nos pratos essenciais, dois: o bacalhau à lagareiro, especialidade da casa, muito bem servido, em posta generosa – e a posta à mirandesa, grelhada, mas com um molhinho que me reenvia à infância e à peregrinação pelas feiras da região, onde vi (e provei) postas superlativas, na brasa ou na sertã, e regadas com o molho feito do suco da própria carne, de alguma gordura remanescente e de um nadinha de vinagre ou de limão. Não é o procedimento mais tradicional nem o mais gabado – mas enquanto as confrarias não me multarem, continuarei a gostar do que gosto. Pois a posta do Artur é um exemplo e as variações dependem apenas do dia da semana, como disse. Já lá provei um cabrito no forno magnífico, acompanhado de umas das melhores batatas assadas da minha carreira, farinhentas, escorrendo azeite e sucos maravilhosos.

De uma das minhas visitas, terminadas, como de costume, com o bolo de amêndoa, e com vários digestivos, trago a memória de uma digestão de anjos, empurrada por um charuto que veio a calhar, fantástico. Estaria, nessa altura, preparado para a música electrónica de Carviçais? Duvido. Mas pouco me importaria.

À Lupa

Vinhos: * *
Digestivos: * *
Acesso: * * *
Decoração: * *
Serviço: * *
Acolhimento: * * *
Mesa: * * *
Ruído da sala: * *
Ar condicionado: * *

Garrafeira
Vinhos Tintos: 60
Vinhos Brancos: 29
Portos & Madeiras: 6
Uísques: 14
Aguardentes & Conhaques: 16

Outros dados
Charutos: Não
Estacionamento: Fácil
Levar Crianças: Sim
Área Não Fumadores: Não
Reserva: Aconselhável ao fim-de-semana
Preço médio: 17 Euros

O Artur
Carviçais (Torre de Moncorvo)
Tel: 279 939 184

in Revista Notícias Sábado – 5 Agosto 2006