outubro 08, 2011

James

Há altos e baixos no rendimento de qualquer equipa – e há o estatuto do adepto, capaz de descobrir catástrofes onde se desenha apenas um deslize. Mas sem os adeptos uma equipa é um corpo vazio e um instrumento sem objectivo. Assim o FC Porto e, claro, assim a liderança de Vítor Pereira. A tarefa do treinador do FC Porto, estava escrito, seria a mais difícil da época; mesmo mais difícil do que a do próprio clube, que resiste com facilidade a todas as erosões, mesmo quando não ganha o campeonato (justamente devido à alma, demasiado flutuante algumas vezes, insuflada pelos adeptos).

Como adepto, já o escrevi aqui, este arranque teve uma perda fundamental: a de Radamel Falcao. A sua eficácia, visão de jogo (lembram-se, noutras posições, da omnipresença de Lucho?, da serenidade de Deco?) Mas depois do jogo com a Académica, que representou o regresso da alma do FC Porto depois da derrota (merecida) diante do Zenit, James Rodríguez merece ser considerado um candidato ao lugar de Falcao; não ao seu lugar, evidentemente, para o qual se posiciona Kléber, mas ao seu espaço na alma portista, capaz de atingir – até agora – a marca de um golo por jogo e de mobilizar a bancada em dia de inspiração. A sua alegria adolescente no relvado não é apenas uma promessa de êxito, mas também a garantia de um prolongamento dos grandes dias do clube. Estou por ele.

O que, no entanto, torna a época do FC Porto mais serena e promissora são, ainda, as entradas previstas de Alex Sandro, Danilo e Iturbe para a corrida por lugares na equipa. São contributos desiguais para a segunda metade da época, mas capazes – qualquer um deles – de desequilibrar o tabuleiro e de inclinar o relvado a nosso favor.

O leitor dirá que esta semana estou optimista, ao contrário do habitual. Seja. Há jogadas que, apreciadas de longe (como as de James e as de James em ligação a Hulk), providenciam alegrias raras.

in A Bola - 8 Outubro 2011

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setembro 24, 2011

Meio golo

Nelson Rodrigues, o cronista dos cronistas, achava que humilhar o adversário não era coisa de goleada. Enganou-se em relação ao que aconteceu no ano passado, com o 5-0 no Dragão. Quando Nelson, na arquibancada do Mário Filho, aliás Maracanã, assistia a um 1-0 a favor do Fluminense, festejava abundantemente e a crónica do dia seguinte escorria com grande ironia na ‘Gazeta dos Esportes’ ou no ‘O Globo’. Ganhar de 1-0, como ele escrevia, poupava o adversário mas provocava-lhe uma dor infinita, aquela que Ícaro sentia quando se elevava nas alturas ou que Sísifo provava ao subir pela montanha acima; mas não deixava ao adversário a hipótese de uma rendição nem a honrosa saída de não ter desculpa. O ideal era, mesmo, ganhar por meio golo a zero, hipótese ainda impossível.

No ano passado, a vitória valeu por todos os golos mas, sobretudo, por aquela surtida de Hulk pela lateral direita batendo David Luiz e passando para o espaço onde havia de aparecer Varela. Este ano, as circunstâncias são diferentes, as condições são diferentes e o FC Porto falhou uma jornada que não podia ter falhado, contra o Feirense. A pressão, de qualquer modo, está quase toda sobre o FC Porto e não, como devia acontecer, sobre o Benfica, que se reforçou para além do imaginável e que decidiu atacar o título com aquela saborosa vaidade do costume. A culpa é do FC Porto, que falhou contra o Feirense. É nos pequenos jogos (nos detalhes) que se decidem os destinos. Co Adriaanse, que não era dos meus favoritos, sabia isso, por muito que custasse aos adeptos portistas.

Estes, habituados ao caviar (servido na época passada com André Villas-Boas), terão de reaprender a jogar no risco fatal, comandados por Vítor Pereira, que precisa de saber entusiasmar o banco e as bancadas em simultâneo. Talvez seja esta a oportunidade. Por meio golo que seja.

in A Bola - 24 Setembro 2011

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setembro 10, 2011

E o futebol?

O mais vivo do jogo da selecção não aconteceu no campo, mas antes do jogo, com o lamentável “episódio Ricardo Carvalho” – um jogador que aprecio muito, muito para além da média, mas que (neste caso) não esteve à altura da sua excelente carreira, como o próprio acabou por reconhecer.

Nem por esse episódio o jogo teve vivacidade, interesse (houve os assobios a Ronaldo, que ele agradeceu com categoria) ou foi a demonstração da capacidade de Portugal poder arrasar uma equipa como o Chipre. Com todo o respeito por Chipre e pelos cipriotas, somos de categorias diferentes. O jogo podia ter servido para animar as hostes; não serviu. Podia ter servido para mostrar a qualidade do futebol que aqueles jogadores exibem nos seus clubes; não serviu. Foi, pelo menos, um serviço para o nosso apuramento.

Enfim, para quem já esteve no fio da navalha diante do Azerbaijão ou da Albânia – não nos queixemos muito.

Quanto ao resto – no balanço da semana –, o costume. Palavras. Uma corrida estranha e conspirativa à FPF, com o Sporting e o Benfica a dançarem uma curiosa valsa entre paredes demasiado vizinhas. E o tema da arbitragem de novo incluído nas ementas, a provar que também aqui é necessária uma espécie de “linha zero” ou, pelo menos, de alguma sensatez. Os dirigentes deviam falar em público o menos possível; os árbitros deviam ser avaliados por juízes independentes e autónomos; os departamentos de futebol deviam cuidar de tratar dos seus assuntos estritos; e os jogadores deviam, ao menos, jogar. Este último aspecto, se querem saber, preocupa-me especialmente. Ainda não temos visto quase nada. Nem jogadas de ficar no olho (já agora, a assistência de Defour para Varela pareceu-me uma boa promessa, tal como a hipótese Kléber) nem golos de levantar bancada. E, afinal, foi para isto que viemos.

in A Bola - 10 Setembro 2011

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setembro 03, 2011

Confiança

Serão Kléber ou Walter capazes de substituir aquele lugar vazio, o de Falcao, ou teria sido avisado entrar na corrida por Leandro Damião, Wagner Love, Stracqualursi, Bendtner ou Funes Mori, nomes entretanto sugeridos para o FC Porto? Dar-se-á o caso de o futebol ser uma operação de recorte e colagem em que se substituem nomes em funções pré-estabelecidas? Duvido em ambos os casos. A procura do “jogador ideal” ou do “avançado ideal” levou a bastantes desvarios – não apenas financeiros, mas também estratégicos e de “arquitectura”, em que o treinador é visto a sacrificar tudo a um desenho que funciona na perfeição antes dos jogos, mas que pode não resultar durante os jogos propriamente ditos.

O FC Porto é, aliás, uma das equipas que tem provado – e por várias vezes – que se pode entrar em combate sem preencher as posições tradicionais. Claro que Kléber, primeiro, e Walter, depois, tentarão essa posição fatal, servidos com disciplina. Mas o leque de soluções disponíveis há-de surpreender (até Thibaut Vion é capaz de vir a fazê-lo), com James Rodríguez, Guarín ou Juan Iturbe chamados à linha da frente – e com Hulk, um jogador especial, mas sobretudo uma força da natureza (tanto como outros eram um prodígio acidental). O problema, para comentadores fascinados com reforços que não são utilizados, é que o FC Porto, até agora, tem sido a mesma equipa do ano passado (o facto de Alvaro Pereira continuar é mais um sinal importante e de grande utilidade), apenas menos moralizada e ligeiramente mais inquieta. No jogo com o Barcelona, aliás, pese embora o resultado, provou que pode atingir um excelente nível de competitividade. O essencial, agora, é reunir uma equipa onde estes talentos indiscutíveis exigem atenção, preparação e disciplina. E, pelo que eu vi do Chelsea (ah, nós, os que não esquecemos...), vai dar vontade de ver e rever.

in A Bola - 3 Setembro 2011

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agosto 20, 2011

Começo de empate

O campeonato começou como merecia – empates sobre empates ou magras vitórias que não indicam grande coisas sobre o que (já) está em jogo. Entretive-me a apreciar os comentários televisivos, sobretudo estes, sobre as quatro principais partidas da jornada; e corei de pudor. Como é possível detectar “um jogo bem explanado” (peço perdão aos mestres da Língua...) em qualquer daqueles encontros, ou, sequer, vislumbrar “bons sinais fornecidos” por qualquer dos jogadores que entrou nos relvados? Só por grande amor ao negócio das transmissões televisivas – ou, quiçá, ao entusiasmo futebolístico propriamente dito – se podem ouvir expressões daquelas sem que o nervo óptico não trema ou sem que a vergonha nos assalte. Primeiro: foram maus jogos. Segundo: os jogadores estão, essencialmente, desmotivados por uma época que começa quando “o mercado” ainda está aberto e decidido a reviravoltas.

O Sr. Platini, mesmo sem vestir a sua habitual e dispensável pele de moralista, bem podia providenciar para que os calendários fossem mais adequados: começam os campeonatos, fecha o mercado dos passes. Não é admissível esta sobreposição, prejudicial para clubes e para adeptos – e, já agora, para o essencial da verdade desportiva.

Por falar nisso, retenhamos o caso de Falcao, em transferência para um clube secundário de Madrid. Coisa que não se compreende num atleta ambicioso e de grande qualidade – trocar uma equipa residente da Champions por um emblema de segundo plano que costuma devorar jogadores e treinadores a uma velocidade razoável, para os devolver sem classe nem glória. Se isso acontecer com Falcao, como é provável, não foi por falta de aviso. Compreende-se que Ruben Micael o faça, até porque não tem sido titular imprescindível. Mas é como se sabe: num clube como o FC Porto só fazem falta aqueles que estão efectivamente lá.

in A Bola - 20 Agosto 2011

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agosto 06, 2011

O hábito de perder e de ganhar

O Real ganhou 7-1, o Barcelona perdeu 1-4 – quer isto dizer que a época vai corresponder a estes resultados? Os visionamentos de pré-época são tão decisivos como se julga ou só depois da Supertaça e do final de Agosto é possível prever como vai decorrer a primeira metade do campeonato? São perguntas de todos os Verões, naturalmente; preenchem aquela “margem de fé” que constitui o suplemento da relação do adepto com o futebol propriamente dito. Veja-se o ano passado: estava escrito que o FC Porto ia ter dificuldades acrescidas e vastíssimas com a inexperiência de André Villas-Boas – alguns jornais exageraram mesmo no vaticínio e foram obrigados a escrever em fogo lento durante dois a três meses. Nada que os levasse a manter algum bom senso durante esta pré-temporada: o manancial de recursos anti-portistas mantém-se em boa forma se bem que moderado por algumas cautelas. Mas está lá e dança de acordo com a música, que nem é surpreendente.

A tarefa de Vítor Pereira é, pois, ainda mais difícil do que a de Villas-Boas. Sobre André pesava a desconfiança total e aberta, de modo que a vitória sobre o Benfica na Supertaça de 2010 foi um castigo merecido sobre os comentadores do costume. Sobre Vítor Pereira pesa o silêncio; é pior. Poucos se atrevem a dar dois passos quando um é suficiente para falhar.

O problema é que o futebol-futebol não é feito de vaticínios nem de vencedores antecipados. Sobretudo não é feito destes últimos – uma breve revista da imprensa dos Verões dos últimos trinta anos pode ser muito esclarecedora: há demasiados “campeões de Agosto” e “campeões de Inverno” que não arrecadaram o título que conta. Lendo os últimos dias, percebe-se que os comentadores do costume não aprenderam nada. Deve ser do hábito de perder antes de tempo.

in A Bola - 6 de Agosto 2011

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julho 23, 2011

Jogar a sério

Acabo de ver o Rio Ave-FC Porto e fico ainda mais convencido de que os jogos da pré-temporada, com equipas inteiras substituídas, deviam decorrer ou à porta fechada ou, pelo menos, com recato televisivo. Deu para ver um Kléber promissor, a velocidade de Djalma, um pouco da arte e da competência de Moutinho, um par de jogadas de Fucile (que assistiu maravilhosamente para golo) e o deslize da defesa que proporcionou o penálti a João Tomás. Podíamos, para sermos absolutamente justos, acrescentar mais três jogadas superiores – mas seriam esmagadas pela falta de coordenação que, acredito, já não acontecerá no encontro diante do Peñarol.

O futebol é um jogo de guerra e – por isso – de estratégia. Ganham os que marcam mais golos mas o sentido de justiça nem por isso fica garantido; mas o nervo de qualquer partida é a corrida para a vitória, o embate duro e fatal, o equilíbrio no arame que divide o território entre ganhar e perder. O resto, que me perdoem os senhores jornalistas e os comentadores do Tiny Pub ou do Sem Palavras, casas onde costumo ver os jogos da televisão, não me comove especialmente. Pelo contrário, faz-me apenas desejar que o campeonato comece e que seja publicada uma lei que impeça anúncios de novos jogadores.

Enquanto isto parece acontecer em Portugal, decorre a Copa América – uma final entre o “meu” Uruguai (depois da derrota da “minha” Argentina) e o “meu” Paraguai. É uma espécie de regresso dos clássicos, uma reinvenção das “melodias de sempre” do futebol, não fosse eu gostar de Oscar Tabarez; tem a figura típica do uruguaio como eu o conheço (aliás, tem o rosto do uruguaio mais uruguaio que conheço, o meu amigo Mario Delgado Aparaín). Só um uruguaio do mundo podia dizer, no final de um jogo do último Mundial, com aquele sorriso patife ao canto da boca (o de quem aprendeu a fingir que não está a ser irónico), «não jogámos bem, mas parece que alguma coisa nos está a empurrar, deve ser a força destes rapazes». Vamos, rapazes. Joguem a sério.

in A Bola - 23 Julho 2011

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julho 16, 2011

Uma orquestra

Quantas equipas de futebol disputam a I Liga? Cerca de meia centena, a avaliar pelos jogadores que, todos os dias, são anunciados nas primeiras páginas como um remédio para a falta de futebol propriamente dito. E o futebol propriamente dito é isto: jogo, corridas de fogo pelas laterais, manigâncias de extremos que sabem iludir o fosso das defesas, lançamentos em profundidade até atingir um trânsfuga que desarma um guarda-redes e expõe – diante de um estádio – a beleza de um golo, a quase transcendência de um arco volteando sobre a baliza adversária. Quase o “Sonho de Uma Noite de Verão” de Mendelssohn, equilibrado sobre uma batuta invisível.

Uma orquestra, é isso uma equipa que procura a harmonia, o equilíbrio, o desafio permanente daquele confronto entre a perda e a vitória absoluta. E, depois, solistas em absoluto: vozes isoladas que participam do concerto, que devem ser protegidos como os elementos de brilho. É isso o futebol para mim. Por isso tem razão de ser a pergunta: quantas equipas de futebol disputam a I Liga? Meia centena, segundo os jornais, que anunciam uma promessa diária, uma euforia que há-de deslizar até à desilusão, como geralmente acontece. Pode haver equipas de onze jogadores formadas por quarenta atletas? Não. Peço ao leitor benevolente que faça as contas e me diga se isto é futebol ou se – na melhor das hipóteses – espera melhor futebol com a abundância de solistas e a desagregação das orquestras. Ah, nós sabemos a resposta, os amantes de futebol. Sabemos que há, neste período, um excesso de euforia que não é comandado pelo futebol propriamente dito mas pela abundância de promessas, que é aquilo que mata o jogo e desilude os adeptos que preferem iludir-se.

Hoje em dia, as equipas de futebol têm quarenta jogadores, um número que diminui à medida que o jogo exige concentração. Joguemos, por isso, futebol de praia, como vos disse há duas semanas. Poucos mas bons, entusiasmados e dançarinos. Falta pouco para subir ao palco esse espectáculo.

in A Bola - 16 Julho 2011

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julho 02, 2011

Um líder

André Villas-Boas apresentou-se esta semana como treinador do Chelsea. Na sessão oficial, ou logo depois dela, dirigiu algumas palavras ao FC Porto – dizendo que o clube “continuaria a ganhar”. É o desejo natural de um portista, evidentemente; no caso de Villas-Boas é também o desejo natural de quem tem alguns problemas de consciência e deseja que nenhuma tormenta afecte, ou agrave, o seu sentimento de culpa depois de ter abandonado o emblema a que há pouco tempo jurara amor por mais uma época, pelo menos, e em cuja cadeira se sentia bem e feliz. Os adeptos do clube sentiram o acto como uma traição – e Villas-Boas sabe que têm razão. Ao contrário do que acontece no universo das grandes transacções do futebol, o mundo dos clubes vive de dedicações extraordinárias e de sentimentos de euforia. Por pouco, às vezes: por uma frase, por um gesto, um sorriso. Independentemente do que aqui escrevi na semana passada, os adeptos tinham direito a prolongar esse sentimento. Mas, como disse, no universo das grandes transacções do futebol, as coisas não se passam assim. A oportunidade de André Villas-Boas treinar o Chelsea veio no pior momento para o FC Porto e a solução para este dilema só será encontrada quando Chelsea e FC Porto se defrontarem e o azul e branco portista derrotar os “blues” londrinos. Esse seria um gesto de reparação romântico, é verdade; mas só assim os que se sentiram traídos pelo abandono de Villas-Boas (ainda por cima se é verdade que a questão não era monetária, como o próprio garantiu, ao dizer que o FC Porto cobria a oferta do Chelsea) sentiriam que havia alguma justiça no futebol (e não no universo das grandes transacções do futebol…).

A herança de Vítor Pereira é, portanto, pesada e, até ver, limitada pelas dúvidas naturais dos adeptos – como eu. Tem uma tarefa enorme, vastíssima, pela frente. E, urgentemente, nesta pré-época, precisa de dar um sinal. O sinal de que entendeu a mensagem, que pode até não ser simpática para Villas-Boas. Um líder é assim.

in A Bola - 2 Julho 2011

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junho 25, 2011

Adeus, bem vindo

Nunca falei com ele. Mas ouvi-o bastante e considerei, desde o primeiro minuto, que era um treinador à altura das exigências do FC Porto para a renovação que — à vista de todos — era mais do que necessária depois de um ciclo de vitórias. Chamei-lhe “cavalheiro” e insisti no facto de que o FC Porto precisava de um “cavalheiro” naquele posto, não só para reforçar os laços dos adeptos com o clube mas, também, para reafirmar a raiz do próprio clube. Era um risco, foi um risco — mas André Villas-Boas foi, felizmente, tudo o que se esperava e ainda mais. Revelou-se um bom estratega, um bom treinador e um bom rosto para essa nova fase do FC Porto.

Por isso tomo a decisão do Chelsea como uma espécie de “afronta pessoal”; porque Villas-Boas estava na base de uma reconstrução em curso. O mundo do futebol e dos seus profissionais é feito de opções de risco, no fio da navalha, no coração da tempestade. Só assim se compreende que esta saída de André seja o resultado da natural ambição de um treinador jovem e de grande qualidade, aproveitando esta oportunidade fatal. Infelizmente, por ser o Chelsea, a decisão tem um pouco de “déjà vu”; e as comparações com Mourinho serão injustas.

Adeus, André — bem vindo Vítor Pereira. Não se trata de uma segunda escolha, mas da opção natural no interior de um clube forte e de sólida cultura dirigente. A opção por Vítor Pereira pretende, antes de mais, provar que existem no FC Porto massa crítica e soluções de mérito. Vítor Pereira pode bem ser essa prova de qualidade que qualquer clube precisa. Ele pode fazer esquecer esta traição que não merecíamos.


P.S. – Platini, o francês que preside à UEFA, usou o FC Porto numas declarações despropositadas sobre futebolistas estrangeiros. É perseguição e ressentimento. Platini foi estrangeiro como jogador e jogou ao lado de estrangeiros. Com estas declarações persegue, inesperadamente, o objectivo de confirmar as opiniões dos que o consideram um tonto.

in A Bola - 25 Junho 2011

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junho 18, 2011

Nuno Gomes

Em Março passado, na sequência do Portimonense-Benfica, escrevi o seguinte neste jornal: “Nuno Gomes é um jogador desprezado. São vários os factores que levam ao seu afastamento. Pessoalmente, gosto desses jogadores desprezados, empurrados para o banco – não por serem maus, claramente maus, mas ‘por causa da idade’. Não há nada mais cretino do que invocar a idade de um futebolista para o relegar para o balneário. Ele transporta consigo a experiência, a memória, a disponibilidade, e a arte que o fez ser indispensável. O golo de Nuno Gomes contra o Portimonense reabilita esses jogadores injustamente afastados; fica como um símbolo de permanência do que é bom no futebol.”

Gostava de insistir no assunto – e longe de qualquer quezília contra o Benfica. Nuno Gomes é um símbolo do Benfica e, portanto, está longe de ser um dos ícones da minha vida. Acontece que o que sucedeu com Nuno Gomes (a sua dispensa ao fim de uma carreira dedicada ao seu clube, mesmo com uma interrupção para jogar no estrangeiro) também sucedeu com outros jogadores de outros clubes e, inclusive, do meu. Defendo que há um módico de gratidão a dispensar aos símbolos dos clubes – de contrário, nem os clubes merecem a alegria dos adeptos nem os favores dos seus emblemas. Há jogadores que vão e vêm, há jogadores que trepam e desaparecem, que estão apenas presos a um contrato vantajoso; e há jogadores que fazem parte, desde o início das suas carreiras, à galeria dos retratos do clube. Nuno Gomes veio do Boavista; mas o modo como se transformou em elemento principal do Benfica não fazia prever este afastamento tão envergonhado e silencioso. Se a questão é “meramente técnica” é preciso explicar por que razão Nuno entrava em campo e marcava; se a questão é da idade, então é melhor darmo-nos conta de que o futebol vai mal. Eu gosto de jogadores “de uma certa idade”, gosto de jogadores que transportam uma boa parte da memória do clube. O despedimento de Nuno Gomes é um atentado à memória do futebol.

in A Bola - 18 Junho 2011

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junho 04, 2011

Mais defeso

Um dos momentos mais apetecíveis da época desportiva anual é o chamado “defeso”. Enquanto que noutros países esta temporada é aproveitada para retemperar as energias, jogar à bola na praia e preparar o próximo ano futebolístico, em Portugal usa-se esse tempo para eleger o campeão do próximo ano e para o sobrecarregar de jogadores inacessíveis em cuja contratação ninguém acredita salvo os instigadores de tamanhos negócios. Tem sido assim desde que o futebol se transformou numa jogatina de bastidores e, em simultâneo, de primeiras páginas.

Enquanto isso, o FC Porto sagra-se, também, campeão de basquetebol, juntando mais um troféu ao sétimo jogo dos play-offs da modalidade. É a isto que se chama “constância na liderança”.

Ao mesmo tempo, o presidente do Benfica, arrastado para os ecrãs da televisão por motivos extra-futebolísticos, transforma-se no protagonista de uma comédia de birras em que assume o papel pouco simpático de denuncista. Havendo rumores de que teriam existido algumas irregularidades em transferências de jogadores para o seu clube, o presidente encarnado decide atirar a toalha ao chão e exigir uma espécie de auditoria às transferências dos últimos dez anos no Benfica e... no FC Porto. Esta declaração é de supina importância. Nós sabemos o que ela significa: estão a tentar atingir-nos? Pois antes que isso aconteça, atinjamos “os outros”. Estão a tentar implicar-nos? Pois tentemos, antes, implicar “os outros”. É isto uma atitude aprovável e aceitável? Não. Mas prossegue objectivos naturais – continuar a espalhar rumores atrás de rumores e, de passagem, desvalorizar o papel absolutamente intocável do FC Porto no plano desportivo. De caminho, ainda, anunciar que não vai inaugurar tantas “casas do Benfica”, provavelmente porque é artificial espalhar a fé em tempos de descrença, ou seja, a euforia em tempos de derrota em toda a linha. Toda.

Mas que isso não faça esmorecer os seus planos. Há toda uma temporada de “defeso” para anunciar várias vezes a vitória na Taça Guadiana (ah, já não há?).

in A Bola - 3 Junho 2011

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maio 28, 2011

Cá estaremos

A final da Taça de Portugal, e aquele jogo espantoso que encheu a tarde de domingo como uma vertigem de excelente futebol, assinalaram o encerramento de uma época de grande qualidade do FC Porto. Mais do que “grande qualidade”, foi uma época absolutamente notável que mostrou um plantel de grande nível, uma organização profissional invejável e invejada – e um trajecto desportivo que não tem igual no futebol português.

Fazer a história do ressentimento anti-portista seria de grande utilidade, até porque explica largamente a forma como o FC Porto, em termos gerais, não tem apenas de lutar dentro do campo, mas também de resistir à pressão exterior e a uma perseguição permanente. Basta ver como, imediatamente após o início do “defeso”, a carreira do FC Porto é ignorada e devolvida às páginas interiores – porque, como se sabe, o “defeso” tem um “campeão” à partida. Não faz mal. Cá estaremos.

2. Por isso, não peço desculpa de nada. Futebol é futebol. Guerra é guerra. Aceito os golpes com a mesma dignidade com que ofendo, registo as ofensas com a mesma atenção com que as escolho e escrevo. Às vezes exagero, mas é só futebol. Respeito os leitores – não finjo uma imparcialidade que não tenho, não imito a opinião dos equidistantes. Não sou equidistante: gostei de festejar. Com as cores do FC Porto.

3. Contra o que dizem as primeiras páginas, os clubes portugueses devem ser prudentes em matéria de contratações. Prudentes, sensatos e sérios. No festival de chega­das e partidas, é necessário conser­var algum bom senso. Se o plantei dis­ponível é também o plantel possível, não vejo razão para fazer “compras de época” ou “revoluções de plantel” apenas para alimentar as primeiras páginas – a menos que seja esse o objectivo.

Tal como o país, também os clubes precisam desse bom-senso e dessa morigeração. A palavra pode não ser bonita mas diz tudo – pensar bem antes de endividar o que resta do futebol português.

in A Bola - 28 Maio 2011

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maio 21, 2011

Reaprender

A história de uma época desportiva não se faz apenas de vitórias – mas é necessário celebrá-las e relembrar que elas são o produto de um trabalho continuado e consistente, de uma gestão que demora anos a estabelecer-se com solidez, e de um espírito de grupo que tanto deve recusar a arrogância como a timidez. De alguma maneira, foi isso que aconteceu com o FC Porto ao longo desta época que ainda não terminou; no próximo domingo, no Jamor, realiza-se a final da Taça entre o Vitória de Guimarães e o FC Porto – também esta partida é o resultado de um esforço notável de concentração e de técnica que tornou possível ultrapassar as circunstâncias adversas em que se realizava a segunda mão das meias-finais da competição.

Mas isso será domingo – um jogo importante para consagrar uma prova igualmente importante. Ontem e anteontem foram dias de justa celebração e, também, de prévio balanço: vão já alguns meses desde a promessa de um FC Porto destinado a ultrapassar barreiras e recordes anteriores. A equipa comportou-se, necessariamente, com altos e baixos, transportando para esse balanço momentos fantásticos e momentos menos bons. Uns e outros fazem parte de uma carreira histórica que, além de ficar marcada pelos títulos até agora arrecadados (e as suas circunstâncias), revelou a enorme capacidade de o FC Porto encontrar os caminhos da idade madura e moderna. Não se trata, aqui, de insistir nas vitórias – caminho que pode deitar a perder a sensatez que faz os campeões.

Vencer não é tudo, embora seja a parte mais saborosa. Outro dia, o colunista Simon Heffer, no “The Daily Telegraph”, dava conta da alegria que sente todos os anos ao receber o seu almanaque do críquete. Este ano notou que o almanaque não dava tanto destaque a determinado jogador; e explicava: “Porque vencer não é tudo. Há uma dimensão ética que faz da vitória uma ocasião feliz, um cavalheirismo que não pode esquecer-se.” Este ano, para vencer, o FC Porto soube reaprendê-lo.

in A Bola - 21 Maio 2011

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maio 14, 2011

Raspanete

Foi uma semana interessante. De um lado, um “hat-trick” de Pizzi a pôr o FC Porto em sentido, merecidamente. Dois dos golos do Paços de Ferreira são praticamente inexplicáveis numa equipa que, depois de conquistar o título de campeão, não pode justificar tamanhas distracções ou flutuações de “temperamento defensivo”. Sendo certo que a taça do título estava ali para festejar e ser festejada, também um mínimo de brio e de respeito pelos adeptos devia exigir uma atitude mais sólida aos jogadores do FC Porto. Perdeu-se alguma coisa? Não. Ficou o título diminuído? Não. Mas sobra uma ligeira e dispensável agonia daquele jogo que devia constituir uma antecâmara da festa que se lhe seguiu. Foi esta festa prejudicada? Não, porque os adeptos foram pacientes e sabem mostrar, em todos os momentos, a paixão pela equipa. Mas, mesmo assim, não é admissível detectar, naquela segunda parte do jogo, um tamanho número de distracções. Quantas? Duas – fatais, definitivas. E dispensáveis.

É evidente que – argumentarão os mais frios e temperados –, neste momento, quase todos os esforços do clube estão voltados para as duas competições que falta ganhar esta época – a Liga Europa e a Taça, e que o resto do campeonato perdeu importância. Pode ser, mas há representações simbólicas que não devem ser esquecidas.

Por outro lado, passado o raspanete, há o segundo momento da semana: o desfile, no relvado do Dragão, dos guerreiros que conquistaram o título. Moutinho coxeando e feliz, Falcao, Hulk, Freddy, Helton, Alvaro Pereira, James, Belluschi, Rolando e Fernando, Micael e Sapunaru, Sereno e Fucile, Maicón e Sousa – entre todos os que devolveram ao FC Porto a alegria de celebrar o título, com esta vantagem superior e memorável. Eles que celebrem – e que se preparem para os dois embates finais e decisivos. Estaremos à espera.

P.S. - Nesta altura do campeonato estava a fazer falta mais um vídeo de Jacinto Paixão. Esta gente não tem emenda – nem sabe manejar câmaras de vídeo.

in A Bola - 14 Maio 2011

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maio 07, 2011

Eleitos e escolhidos

Estava escrito que seria uma final entre duas grandes equipas portuguesas – a viagem a Dublin será o culminar de uma boa época internacional para o FC Porto e para o SC Braga. Evidentemente que a festa minhota foi, ontem, mais notória e justificada do que a passagem do FC Porto à final; não apenas pelos golos de Custódio e de Vandinho que garantiram uma soma positiva no resultado da eliminatória, mas porque a final europeia de Dublin é uma experiência fantástica para a equipa de Domingos. Além do mais, o seu adversário considerava (nas palavras de Fábio Coentrão) a obrigação “de ganhar a Liga Europa para esquecer esta época” em que ficara pelo caminho no campeonato e na Taça. Muitos são os eleitos, poucos os escolhidos, como se sabe.

Por outro lado, com 21 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, além de finalista da Taça de Portugal e da Liga Europa, o FC Porto bem pode considerar que esta época (que começou da melhor forma, com a conquista da Supertaça) ficará bem no retrato de conjunto do clube. Mas as épocas desportivas têm uma história, têm um passado e um presente – e é necessário relembrar que, para chegar até aqui, o FC Porto lutou dentro do campo, sobre as quatro linhas, e teve de suportar a arrogância desmedida dos que gostam de atribuir títulos por televoto. Basta recordar o cepticismo e a deselegância como André Villas-Boas foi recebido no início da época, e como parte substancial da imprensa considerava, de antemão, que o título estava entregue. Nem Villas-Boas nem um plantel que soube resistir às pressões e à desconfiança cederam um milímetro. Villas-Boas provou que o seu talento de estratega e de organizador podem fazer dele um “special one” sem tiques de soberba e mantendo sempre aquilo que, nesta coluna, defendi que deveria ser uma das qualidades essenciais do treinador do FC Porto: cavalheirismo. Falta ultrapassar duas competições importantes, além da principal, o campeonato – mas Villas-Boas já mostrou esse talento e essa qualidade.

in A Bola - 7 Maio 2011

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abril 30, 2011

Três exemplos bastam

Depois de, ontem, ver o segundo golo do FC Porto, o de Freddy Guarín, as coisas ganharam algum sentido. As coisas, quer dizer, a vida, mereciam-no. Foi, como se recordam, um golo em dois tempos, com uma primeira parte primorosa em que desviou dois adversários da linha de corrida e uma segunda parte amável e, simultaneamente, crudelíssima, em que a bola acaba por lhe ser devolvida. O resto, ou seja, o toque de cabeça final de Guarín, não faz parte do golo – é pura elegância guerreira e capacidade de decidir numa fracção de segundo; está, sinceramente, além do golo, até porque alguém que finta a margem direita do Villareal e se apresenta diante do guarda-redes com aquela disposição, já merece o golo. Por isso o toque de cabeça é como que o terceto final do soneto que Guarín compôs, ele que não parece poeta.

Já o terceiro, com aquela via ligeiramente despedaçada por Hulk, entra também na história. Em primeiro lugar, porque o árbitro estava disposto a deixar, alegremente, que o Villareal torpedeasse os meniscos do portista; em segundo lugar, porque o toque de Falcao é milimetricamente seguro.

Falemos do quarto: um golo de ave, de quetzal, em voo ligeiramente pronunciado, empurrando o ar com o movimento do corpo, gesto de puro e indiscutível talento – só Falcao poderia tê-lo marcado diante da assembleia de incréus que veio das Espanhas, precedido da habitual fama com que os bárbaros se anunciam.

São três exemplos simples para provar a excelência de uma equipa campeã e superior. Talvez sejam três argumentos decisivos para que o FC Porto possa adquirir o direito de comparecer em Dublin, a discutir a final da Liga Europa.

2. Ao mesmo tempo, em Madrid, o Real perdia mais uma vez com o Barcelona. É assim tão superior, o Barça? Não; aprendeu a tomar conhecimento do campo todo, em vez de se ficar pelo primeiro terço, como um simples atrevido que mascara a sua covardia com a palavra “cautela”. Ora, o Real não foi cauteloso. Foi uma equipa condenada.

in A Bola - 30 Abril 2011

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abril 23, 2011

1,98 por cento bastou

Um jogo só está ganho quando termina; uma eliminatória termina ao fim de dois jogos. Este princípio, geralmente aceite, tem excepções – e, apesar da época excelente do FC Porto, ele não serviu para moderar a paixão da imprensa e o seu gosto antecipado pela previsibilidade a propósito das meias-finais da Taça de Portugal. Erro crasso e falhanço nas previsões.

Para a generalidade dos comentadores que ouvi na rádio, antes e durante os primeiros minutos de jogo, tratava-se de o Benfica aguentar a pressão “que decerto existiria” e de o FC Porto “tentar a vitória” mas sem colocar em perigo a passagem – garantida, como de costume – dos encarnados à final. O que o jogo de anteontem demonstrou foi o seguinte: o FC Porto estava disponível para discutir não só as evidências dos comentários mas, sobretudo, discutir o essencial, que era futebol. E ganhou, apesar de, nesse mesmo dia, o “Público” ter anunciado que, de acordo com a conhecida fiabilidade das estatísticas, só ter 1,98 por cento de possibilidades de passar à final (tendo em conta 101 jogos entre as duas equipas no estádio do Benfica). Pois foram esses 1,98 por cento que abriram a porta a uma das vitórias mais saborosas da temporada (até ao momento); se havia 1,98 por cento de hipóteses, seria por aí que o FC Porto seguiria, como seguiu, mostrando que não há jogos para “cumprir calendário” nem derrotas de que se não possa redimir.

A magnífica prestação ofensiva de que se distinguiu o tridente goleador (Moutinho, Hulk e Falcao) serviu, também, para confirmar as opções de André Villas-Boas que não foi à Luz para sujeitar a sua equipa às provações de um jogo mastigado e defensivo, como queria Jorge Jesus, confiante em que a semana da Páscoa lhe seria favorável e em que há sempre uma estrelinha a favorecer o clube que ainda representa.

Nisto tudo, um momento menos agradável: as luzes mantiveram-se acesas no estádio e o sistema de rega não funcionou. Alguma coisa, portanto, continuava a falhar.

in A Bola - 23 Abril 2011

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abril 16, 2011

Assunto arrumado

A vitória do FC Porto ontem à noite apenas confirma uma promessa de qualidade feita no início do campeonato. Não vale a pena responder à multiplicação de querelas, alimentadas para mascarar outros falhanços e para tentar justificar uma época que fica a meio; sempre defendi que a única resposta a essa máquina de produzir desculpas, artifícios, birras adolescentes de circunstância, pequenos ressentimentos – devia ser o silêncio. Fica provado, depois dos cómicos incidentes da Luz (apaga a luz, liga a água, desliga a água), que não discute com o FC Porto quem quer. Assunto arrumado.

O que, certamente, não é assunto arrumado é a forma como a Benfica TV se referiu ao presidente do FC Porto. Um cómico tem liberdades de estilo, bem como disponibilidade para ser grotesco, facilidade em passar com ligeireza do risível ao abjecto, do jocoso ao ofensivo. Não se lhe deve levar a mal. Um cómico tanto pode ser inteligente como inimputável. Tanto pode ser ridículo como guardar capacidade suficiente para saber ridicularizar com graça. O FC Porto reagiu à prédica como se o assunto fosse sério; ora, o assunto não é sério – é, à imagem dos cómicos que o protagonizaram, matéria para recolher aos varais da inimputabilidade. Sou contra a constituição de “delitos de opinião”, acho desprezível a falta de humor – simplesmente, a Benfica TV tem de escolher entre ser uma marca televisiva ligada ao futebol ou um albergue indesculpável. Tem de optar.

Para terminar, um assunto festivo: três equipas portuguesas estão este ano nas meias-finais da Liga Europa. O facto não é apenas assinalável; é, também, histórico e a merecer a nossa alegria no meio da vileza geral. Certamente que a final terá também, pelo menos, um clube português. Com este quadro, é exigível que se peça ao “futebol português” que se reorganize, que se repense, que se mostre mais educado e mais apresentável. É o mínimo que os clubes portugueses podem fazer pela sua desejável transformação numa modalidade verdadeira e para gente decente.

in A Bola - 16 Abril 2011

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abril 09, 2011

Tragicomédia e farsa

Em certa medida, o “hat-trick” de Radamel Falcao, ontem à noite (sobretudo aquele primeiro voo, magistral, diante da baliza russa), poderia fazer-nos esquecer as trapalhadas do domingo passado na sequência da conquista do título pelo FC Porto, a cinco jornadas do fim. Na verdade, a encenação daquele apagão da Luz foi tão ridícula, e a abertura do sistema de rega do relvado tão despropositado, que mais valia deixar os responsáveis deste Benfica com a sua tragicomédia particular. Mas há dois pormenores que me obrigam a voltar atrás.

O primeiro, depois sublinhado pela imprensa: ao ver que os jogadores do FC Porto tinham aproveitado os repuxos do sistema de rega para se divertirem mais um pouco, alguém mandou desligá-los. O que era a amostra de um temperamento ressentido e com jeito para partidinhas de carnaval, transformou-se num alegre retrato de gente com problemas de puberdade. Ou seja: alguém acompanhava a evolução dos acontecimentos no relvado e mandava manejar a luz e a água do estádio. São uns brincalhões.

O segundo ocorreu no dia seguinte: depois de apurados os danos e de se verificar que os adeptos do Benfica são, evidentemente, mil vezes melhores do que os dirigentes do clube, tentou-se proceder à invenção de histórias defeituosas para justificar o injustificável. Caiu por terra a tentativa – ninguém esquece a tragicomédia e ninguém vai ignorar a farsa montada em seu redor. A gargalhada aumentou de tom e ameaça tornar-se ensurdecedora de cada vez que são recordados os pormenores.

Seja como for, depois da conquista do título (que, como se sabe, tinha sido atribuído ao Benfica pela imprensa, ainda antes de a época ter começado) na Luz, ontem veio a confirmação com a goleada russa. Não só a equipa se apresentou ao melhor nível, sem mazelas nem arrogância, como tratou de – com disciplinada humildade – justificar a qualidade demonstrada ao longo de uma época que ainda não terminou. E, ao invés de floreados e ditirambos, Villas-Boas deu uma lição de cavalheirismo.

in A Bola - 9 Abril 2011

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