junho 30, 2008

Blog # 126

Uma funcionária superior do Ministério da Educação, certamente avisada em matéria de avaliação, voltou à ribalta depois de afirmar que 'os alunos têm direito a ter sucesso'. É uma declaração e tanto, mas convém não mostrar escândalo. Ela tem razão. Os seus superiores também não mostraram escândalo quando viram os recentes testes de exames que hão-de vir a beneficiar as 'estatísticas do sucesso', apesar de os alunos declararem que eram fáceis de mais. O país tem direito a ter sucesso. Se não o consegue pelos meios habituais – trabalho, exigência, alicação, dificuldade – então que se lhe facilitem as coisas. Os alunos do 4º ano não sabem a tabuada? Forneçamos-lhes calculadoras desde o 1º ano. Que isso não impeça o maravilhoso 'sucesso' que faz a alegria dos medíocres. É a vida.

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Leio a biografia de Paulo Coelho ('Mago', edição Planeta/Brasil), escrita por Fernando Morais. Um monumento de 600 páginas em que nada se esconde. Ao pé do marketing de Coelho, o dos portugueses é um folheto de pizaria de subúrbio.

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FRASES

"Esta maricagem associativa mistura pseudo-intelectuais chiques com o 'lumpen' dos subúrbios."
João Gonçalves, no blogue Portugal dos Pequeninos.

"As pessoas distraem-se, começam a pensar na crise e perdem o interesse pelo sexo." José Serra, Reformado, 67 anos, ontem no CM.

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junho 27, 2008

Blog # 125

Quer-me parecer que o Verão veio para ficar. O vice-Procurador-geral da República, Gomes Dias, diz que a cena de pancadaria no tribunal de Santa Maria da Feira foi "apenas um incidente", que "não deve ser dramatizado". Expliquemos que, depois da leitura de uma sentença, um juiz foi agredido a pontapé e uma juíza sofreu cortes no rosto e numa perna. Foi "apenas um incidente". De facto. Que um juiz leia a sentença e os réus o agridam de seguida deve ser entendido no quadro de um diálogo interclassista na sociedade portuguesa, perfeitamente justificável porque os tribunais funcionam mal e não há sistemas de segurança infalíveis. Quem são, afinal, os juízes, esses queixinhas – para se queixarem de levar uns tabefes no tribunal? Os professores também levam dos alunos, não é verdade?

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O que é uma ideia perigosa? Quantas das ideias sobre ciência, educação, política, são consideradas perigosas no seu tempo – e depois se revelam ser as melhores? É esse o tema de 'Grandes Ideias Perigosas' (Tinta-da-China): genial.

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FRASES

"Quero ver o capitão russo – que não faço ideia quem seja – a levantar o caneco na final." Rui Carmo, no blogue O Insurgente.

"Não há nenhum sistema infalível." Vice Procurador-Geral sobre agressões a juízes num tribunal, ontem no CM.

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junho 26, 2008

Blog # 124

A procuradora Maria José Morgado lamentou-se amargamente sobre a triste situação em que fica "o denunciante" de casos de corrupção – e que os tribunais "deixam os denunciantes entregues a si próprios". Compreendo a sua apreensão em tratando-se da malandragem, mas não fico a chorar a sorte dos denunciantes. A palavra é dúbia. E de má memória. Ao contrário da procuradora (que culpa a sociedade portuguesa por não "compreender a denúncia"), eu acho que a história portuguesa está cheia de denúncias e de má justiça. Em muitos casos, espera-se que a denúncia substitua o trabalho de investigação. Olhando para trás, do século XVI até hoje, há exemplos bastantes de como a vida portuguesa ficou manchada por denunciantes profissionais. Não são boa gente. De facto, continuam a não ser.

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Revisitemos Alexandre O'Neill neste Verão com 'Já Cá Não Está Quem Falou' – textos jornalísticos, críticas e notas de leitura, crónicas & opiniões, num volume organizado por M. Antónia Oliveira e F. Cabral Martins (Assírio & Alvim).

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FRASES

"Fui sempre eu que fui ter com a polícia para entregar os meus filhos." Mãe de um jovem baleado no Parque das Nações, ontem no CM.

"Ficou só o Bloco Central mais os futebóis, religião civil que vai tomando conta dos afectos." Miguel Castelo Branco no blogue Combustões.

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junho 25, 2008

Blog # 123

A Turquia tem aquele futebol feito de tentativa e falhanço e que culmina com um golpe de asa. Nada a ver com o estilo maneiro e defensivo da Grécia que em 2004 nos encostou à parede da humilhação; são mais vivaços, os turcos – a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente, bons de pés e com um relâmpago de fortuna. Imagine-se o que seria uma final entre a Turquia e uma selecção da velha Europa (a Espanha, a Alemanha) ou da nova Europa (a Rússia). Do ponto de vista geopolítico, um atrevimento sem par: enquanto nós debatemos acerca do lugar da Turquia na Europa, os rapazes do Bósforo ganhavam o Euro. Já com a Rússia a ganhar, seria uma oportunidade para relembrar que o centro da Europa está mais a Leste. Eis como a União Europeia pode sofrer com o futebol, e merecidamente.

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"Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa", de Miguel Real (Quid Novi) é um livro notável. Não há, até agora, ensaio tão rico e luminoso a abordar a obra do nosso maior pensador contemporâneo. Dar ordem à obra de Lourenço é uma proeza.

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FRASES

"A televisão é um negócio fácil. Tem custos fixos e é só ajustá-los às receitas." Miguel Pais do Amaral, ontem no CM.

"O PSD tem uma obsessão com Obras Públicas; sempre que está na oposição quer suspendê-las." José Medeiros Ferreira, no blogue Bicho Carpinteiro.

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junho 24, 2008

Blog # 122

Manuela Ferreira Leite saiu bem do congresso do PSD, uma cerimónia ritual que se destina, com poucas excepções, a entronizar o líder do partido. Já vão longe os tempos em que se discutiam os votos ao milímetro, pela madrugada fora. Desde que se optou pelas "directas" que os congressos partidários são encontros que se destinam a mostrar "a unidade do partido" e a eleger os "órgãos nacionais", porque o líder já foi encontrado. É estranho, por isso, que haja comentadores a insistir na "ausência de debate" e no "tom morno" com que decorrem estas assembleias-gerais. Não se pode ter tudo e não se podem gastar todas as armas de uma só vez. O combate começa agora, realmente, e não será de fogo de artifício. Ou muito me engano ou Manuela Ferreira Leite está a achar graça à perspectiva.

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Depois de termos os ensinamentos da Arte da Guerra, de Sun Tzu, aplicados à gestão, chega agora a vez de ter as estratégias do futebol nas empresas. É o tema de 'Bem Posicionado', de Reinhard K. Sprenger (edição Centro Atlântico).

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FRASES

"Nenhuma sociedade democrática subsiste sem uma classe média sólida." Manuela Ferreira Leite, ontem no CM.

"Zero vírgula zero nove. Esta é a proporção de mulheres nos órgãos nacionais do PSD." Nicky Florentino, no blogue Albergue dos Danados.

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junho 23, 2008

Blog # 121

Aposto que, daqui a uns meses, os "especialistas em avaliação" no Ministério da Educação vão mostrar-nos estatísticas generosas e provar que os resultados de Matemática e Português melhoraram graças ao seu trabalho e aos seus regulamentos. Mas fique o leitor a saber que, se isso acontecer, há trafulhice. Explica-se pelo grau de dificuldade dos exames, que baixou substancialmente. O objectivo era esse: melhorar as estatísticas. Só assim se compreende que, diante das críticas, um alto funcionário do ministério tenha cometido o deslize de afirmar que se trata de "comentários de pessoas que não entendem nada de avaliação educacional". Os resultados não se melhoram num ano, e a pressa em obtê-los mostra que há desonestidade. Não se percebe como a Ministra vai nesta cantiga.

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É um livrinho de pequeno formato mas merece atenção: 'O Livro Perdido de Camões', de Maria Coriel (edição Chá das Cinco/Saída de Emergência), é uma biografia romanceada da sua 'perdição espiritual'. Uma boa ideia com momentos altos.

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FRASES

"Quando fizeram quatro disparos para o ar é que conseguiram controlar a situação." Testemunha na praia de St. Amaro de Oeiras, ontem no CM

"Blá blá blá e blá blá blá, mas todos aplaudem. Ser tribuno é isto." André Abrantes Amaral, no blogue O Insurgente.

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junho 21, 2008

Minas Gerais: veredas

A última “polémica literária” em que andei metido era — não podia deixar de ser – sobre uma lista. As listas são o melhor pretexto para conseguir fazer que uma polémica caía sobre a nossa cabeça com artilharia vinda de todo o lado. Ora, acontece que nós (nós, género humano) temos uma pre­dilecção geral por listas. Geralmente, fa­zemos listas de coisas de que gostamos: os dez filmes da nossa vida, os dez livros que levaríamos para uma ilha deserta, os dez golos de eleição, as cinquenta can­ções que nunca esquecemos. Eu fiz pior: uma lista dos “dez livros que não tinham mudado a minha vida”. Na ver­dade, são muitos – mas, reduzidos a dez, dá para criar muitas inimizades (o “meio literário” é fatal), arrebatar muitos adversários e magoar alguns amigos. E escolhi livros com títulos tre­mendos: À Procura do Tempo Perdido, de Proust; Ulisses, de James Joyce; Morte em Veneza, de Thomas Mann; etc. Até chegar a Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

É claro que uma pessoa até re­conhece a grandeza de Proust, a impor­tância de Sartre, ou mesmo a inevitabilidade de Paul Auster. Mas não tinham mudado nem uma só vírgula na minha vida. Só que o caso de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, era especial, e eu explico porquê.

A principal razão encontra-a o lei­tor nas páginas desta revista, ao ler a reportagem sobre Minas Gerais. O ro­mance de João Guimarães Rosa é a história do Diabo que anda pelo sertão, contada através da personagem fantástica de Riobaldo. Há muita maneira de passear por Minas, mas a leitura desse li­vro pode ser um pórtico cheio de glória.

A segunda razão, que não interessa para o caso, é que Grande Sertão: Veredas é uma espécie de Auto da Criação do Mundo, um dos grandes romances da nossa literatura. A de todos os tempos. Encontrei as suas personagens nas es­tradas de Minas Gerais, batidas pelo vento seco que produziu muita literatu­ra, muita música e muito cinema (o li­vro foi adaptado à televisão e Bruna Lombardi interpreta uma Diadorim be­líssima). Minas Gerais passa pelo livro como uma tempestade de poeira seca e quente, que o leitor encontrará mal se despeça de Belo Horizonte, que é uma cidade moderna, habitável, traçada a ré­gua e esquadro, arborizada e gentil – além de estar cheia de livrarias, de ba­res e de parques. Coisas de que gosto.

Acompanhei essa viagem de Rio­baldo (que parece que nunca sai do mesmo lugar) até aos grandes planaltos que, no mapa real, nos aproximam de Brasília, por exemplo. O leitor deve ser­vir-se do livro como uma encenação do espaço do sertão, quase sempre distante dos livrinhos turísticos – mas, como di­zem os brasileiros, é “bonito de mais”. Não tem o apelo de outros pontos cen­trais do polígono mineiro, mas merece ser visto. Para descansar desse mapa, há depois a mais do que belíssima Tiradentes (onde se come maravilhosamente, aviso), a fantástica Ouro Preto (fantás­tica, porque andam fantasmas nas suas ruas inclinadas e sensuais), a triste Con­gonhas — mas a minha fronteira com Minas (além desse roteiro que várias ve­zes fiz de carro, entre o Rio e Belo Hori­zonte, ultrapassando as montanhas) é o Grande Sertão. Quando me aproximo da paisagem brumosa e seca de Três Ma­rias, quando o rio São Francisco é mais do que uma miragem, sei que estou em Minas: fazendas que prolongam a aridez, interrompendo-a; pequenas cidades cheias de história e de evocações; e aquele sotaque – o mineiro. E aquela personagem — o mineiro, gracejando e desconfiando (sempre), surpreendendo permanentemente, fazendo da pequena dissimulação uma obra de arte. E como Grande Sertão: Veredas. Profundíssimo, astuto, maravilhoso, evocando o prin­cípio das coisas, mesmo que não mude a nossa vida.

in Outro Hemisfério – Revista Volta ao Mundo – Junho 2008

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junho 20, 2008

Blog # 120

O Parlamento discutiu ontem um pacote legislativo sobre corrupção que culmina com a criação de um Conselho de Prevenção da Corrupção para "detectar e prevenir "os riscos de corrupção. É o tema mais popular em Portugal. Não há pantomineiro que não levante o dedo para falar de corrupção. Do futebol até às autarquias e ao aparelho de Estado, a corrupção é assunto popular. Em Portugal, porém, a corrupção resolve-se com a histeria das televisões a anunciarem detenções e com pacotes legislativos periódicos. Acontece ela está na massa do sangue. Se a escola não exige trabalho e tanto festeja preguiçosos como estudioso, está a premiar a preguiça e a abrir caminho para essa desgraçada mentalidade que há-de degenerar em corrupção adulta. A facilidade é a porta aberta para a corrupção.

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Sai ainda esta semana para as livrarias a biografia de José Sócrates, escrita pela jornalista Eduarda Maio (Esfera dos Livros). Em tempos de efervescência, há passagens deliciosas, tranquilizadoras, ou preocupantes. Um bom trabalho.

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FRASES

"A debilidade de carácter é a fonte da corrupção." João Gonçalves, no blogue Portugal dos Pequeninos.

"Não tinha estudado nada mas foi fácil e correu bem." Diogo Ferreira, 14 anos, sobre os exames, ontem no CM.

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junho 19, 2008

Blog # 119

A Europa, que foi berço de várias civilizações – e não apenas de uma, maneirinha e conformista – não merece tanta arrogância desta gente mal-educada que se põe a pregar moral aos irlandeses por terem votado como votaram. O argumento de que apenas dois milhões de irlandeses põem em causa o Tratado de Lisboa não pega: na verdade, apenas eles foram consultados. Se o texto do Tratado é assim tão complexo que apenas as luminárias das altas esferas o entendem, pois que trabalhem (para isso são pagos pelos contribuintes e cidadãos da Europa) e o ponham em língua de gente. Os europeus podem ser cépticos, mas não são tão estúpidos como querem fazer crer – e não podem ser tratados como o velho Mao Tse-Tung tratava os chineses: como carne para canhão. A piada é para Durão Barroso, sim.

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O novo romance de Valter Hugo Mãe, que recebeu o Prémio José Saramago, leva o título ‘O Apocalipse dos Trabalhadores’ e será publicado no princípio de Julho pela Quidnovi. Uma promessa de boa leitura para o Verão.

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FRASES

"Temos de resolver o problema e não cair outra vez em depressão." Durão Barroso, ontem no CM.

"M. F. Leite incomoda mais calada em Londres do que Menezes a falar em Lisboa." Filipe Nunes Vicente, no blogue mar salgado.

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junho 18, 2008

Blog # 118

De Espanha, além de maus ventos, veio, nos últimos anos, um grande número de médicos e de enfermeiros galegos, asturianos, andaluzes, estremenhos, o que for – mas espanhóis. Agora, parece que em Espanha estão a requisitá-los, depois de terem adquirido a especialidade nas nossas províncias. Portugal não pode acompanhar a oferta espanhola e deixa-os sair. Foi graças a eles que o Interior pôde dispor de médicos suficientes. Em muitos casos, eram lugares onde os médicos portugueses não queriam trabalhar. Eles foram para lá. Foram e ganharam a simpatia de toda a gente, mesmo sendo maltratados pela brigada de trânsito, que lhes andava no encalço. Passavam a fronteira quando podiam, viviam em vilas do Interior, eram discretos, polidos. Antes que vão embora, eu quero agradecer-lhes.

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Luís Miguel Rocha continua a ver ‘O Último Papa’ traduzido pelo Mundo fora, apesar de ser silenciado em Portugal. Agora, a China, depois de 20 países terem assinado contratos e publicado o livro. A inveja portuguesa é uma coisa séria.

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FRASES

"Estamos num nível muito próximo da excelência". José Sócrates, ontem no CM.

"A Europa viveu bem até agora sem o Tratado de Lisboa". João Gonçalves, no blogue Portugal dos Pequeninos.

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junho 17, 2008

Blog # 117

Reportagens na televisão e vários artigos nas revistas – vêm aí os exames do básico e secundário e os vários "psis" (pedopsiquiatras, psicólogos, psicopedagogos, etc.) alertam as famílias para situações de stress e traumatismos vários. Por mim, fico sempre traumatizado com esta pobre gente, os profissionais da vitimização. É o seu negócio, bem vistas as coisas. Agora são os exames; em Setembro, o regresso às aulas; em Dezembro, os presentes de Natal e as notas do primeiro período – em tudo haverá motivo para julgar que, à nossa volta nascem e crescem crianças traumatizadas. Ora, a verdade é que tudo exige esforço, trabalho e sacrifício, mas os "pedagogos" preferem criar culpados e vítimas. Às vezes apetece chamá-los à razão. Mas não à estalada, que ficam traumatizados.

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George Orwell não é apenas o autor de '1984' ou de 'O Triunfo dos Porcos' (que sairá este ano com nova tradução). A Antígona acaba de publicar 'Por Que Escrevo e Outros Ensaios', para compreender melhor o autor e o seu mundo.

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FRASES

"O Governo leva umas pauladas no lombo e cede a tudo e a mais alguma coisa." António Ribeiro Ferreira, ontem no CM.

"A Irlanda deve ir à sua vidinha. Tão simples como isto." Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura.

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junho 16, 2008

De saída para as livrarias

Blog # 116

Não há novas lições a retirar do referendo irlandês. O 'não' foi 'não', mas o referendo irá repetir-se até que os irlandeses digam 'sim'. É uma forma curiosa de viver em democracia, mas compreende-se: o Tratado de Lisboa, por quem Sócrates apostou a sua carreira política, não tem muito a ver com a 'Europa dos cidadãos'; é uma constituição que rege as relações entre as partes, uma espécie de regulamento interno da confederação. As altas esferas acham que não é matéria para referendo porque os cidadãos, que são parvos, não entendem o que lá está escrito – e não se pode votar sobre o que não se entende. Esta nova forma de despotismo não ameaça o coração da Europa mas mostra-nos que há cada vez mais decisões em que deixámos de ter uma palavra a dizer. Começou a solidão da Europa.

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Gostava de indicar um livro novo, mas estou a reler 'O Monte dos Vendavais', de Emily Brontë. Com 'Jane Eyre' e 'Orgulho e Preconceito' é um dos grandes romances europeus. Sobre o amor, o ciúme e a desconfiança, coisas de sempre.

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FRASES

"Poder não cria leis contra si próprio." Cândida Almeida, Departamento Central de Investigação e Acção Penal, ontem no CM.

"A democracia é enervante. Principalmente quando o resultado é aquele que não queremos." Sofia Loureiro dos Santos no blogue Defender o Quadrado.

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junho 13, 2008

Blog # 115

O Governo cedeu aos camionistas e ao ‘sector dos transportes’. Também está lá para isso, mas convém que os cidadãos (eu, o leitor) façam contas e se detenham na análise do tratado de acordo. Em primeiro lugar, o Governo negociou em nome das concessionárias de auto-estradas, o que significa que vamos pagar-lhes. Nós. Depois, o Governo indicou um benefício fiscal de 20 por cento para as despesas de combustível. Significa que vamos pagar. Nós. O que é estranho, porque o preço dos transportes estarão indexados aos combustíveis. Finalmente, coroa de glória, os clientes dos transportes vão passar a ter de pagar num máximo de 30 dias – coisa que o Governo e o Estado não fazem. Vamos pagar. Nós. Assim, também eu negociava e não me importava de ceder – com o dinheiro dos outros. Nosso.

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junho 12, 2008

Blog # 114

Os protestos dos camionistas ou do 'movimento paralisação' são coisa branda e melíflua. Se quisessem paralisar o país, vinham para a porta das cidades e impunham um cerco decisivo às classes médias – assim, basta-lhes reeditar a ideia dos 'piquetes' e penalizar o abastecimento a quem tem de ir ao supermercado ou à bomba de gasolina, gente remediada. É uma hipocrisia, um protesto quase invisível e em lume brando. Eles sabem que, desta maneira, Sócrates não lhes manda a polícia – mas reconhecem que estão "a causar problemas ao país". A questão é que muitos dos socialistas que hoje frequentam as salas do poder estiveram na Ponte 25 de Abril a apoiar o bloqueio de 1995, colaborando com a revolta dos camiões e o cerco a Lisboa. Se lhes apetece usar a lei, o passado impede-os.

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'O Ladrão de Túmulos' (Esfera dos Livros', do espanhol Antonio Cabanas é um relato histórico sobre uma família que vivia disso mesmo – de assaltar túmulos e roubar as suas riquezas. Uma reconstituição bem desenhada e empolgante.

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FRASES

"Para que Sócrates conte com o meu voto basta que não ceda um cagagésimo ao poder da rua." Maradona, no blogue A Causa foi Modificada.

"Desmaiei três vezes e bati com a cara na parede mas está tudo bem." Artur Albarran, ontem no CM.

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junho 11, 2008

Blog # 113

Parece que os utentes de auto-estradas com troços em obras superiores a 10 kms vão poder ter o seu dinheiro de volta. É uma excelente notícia, não por causa dos cêntimos, mas por causa do princípio. O que se paga por uma portagem justifica que o 'utente' tenha um determinado serviço; se o serviço não é prestado, não se paga. A medida foi defendida há anos por Manuela Ferreira Leite, que não a executou quando chegou ao governo; e foi também afastada pelo governo socialista, que achava que os automobilistas iam entupir as auto-estradas se houvesse borla. Claro que aqui há marosca: para devolver um euro que seja, a Brisa há-de inventar uns trâmites tão aborrecidos e desmobilizadores que ninguém há-de querer ir para a fila. Mas é um sinal de que começa a haver respeito.

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Mia Couto começou a tournée nacional para apresentação do seu novo romance, 'Venenos de Deus, Remédios do Diabo' (edição Caminho).

'Bomarzo', de Manuel Mujica Lainez, é um clássico para este Verão (edição da Sextante).

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FRASES

"Ronaldo é um puto, até simpático, mas tolinho e reguila 'à la portuga'." G.A.F., no blogue O Vermelho e o Negro.

"Não estou reformado, longe disso. Aos 50 anos, sinto-me com muita energia." Marques Mendes, ontem no CM.

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junho 10, 2008

Blog # 112

Em apenas dois anos a frequência das aulas de Latim diminuiu 80%. Este ano há apenas 300 alunos a fazer exame da disciplina, o que é bem pouco. A tendência portuguesa é contrária à dos outros países europeus e americanos, onde os estudos clássicos não baixaram a frequência. Não nos podemos queixar. O secretário de Estado Valter Lemos, uma luminária, diz que os alunos não têm interesse no Latim e que "as políticas educativas" não são culpadas. Está errado, como é seu costume. Basta ver a forma como "as políticas educativas" tratam as Humanidades e como o linguajar dos seus queridos técnicos têm assassinado o Português. A "sociedade" não preza o Latim como não preza o património nem o passado, e está no seu direito. Mas fica mais pobre. É uma notícia para o 10 de Junho.

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Um livro delicioso para abrir o Verão: 'A Teoria das Nuvens', de Stéphane Audeguy (Teorema). Um romance que abre com a história de um homem que reunia livros sobre nuvens e caçadores de nuvens. Comovente, nem parece um autor francês.

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FRASES

"Vim para matar. Estou cansado do Mundo. Qualquer pessoa servia." Tomohiro Kato, que matou sete pessoas em Tóquio, ontem no CM.

"Hoje, a existência decorre entre dois extremos, o aborto e a eutanásia." Manuel S. Fonseca, no blogue Geração de 60.

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junho 09, 2008

Blog # 111

O Verão vai ser de primeira categoria. Depois do Portugal-Turquia sentei-me no sofá e ouvi as buzinadelas na rua. Julguei que, afinal, o Benfica tinha ganho o campeonato e olhei a medo pela janela – mas apenas vi uma fila de portugueses a festejar ruidosamente o primeiro resultado da selecção na Suíça. Festa brava. Se Portugal ganhar na quarta-feira, vai ser o delírio, porque passaremos à "fase seguinte". Bem podem os camionistas prometer parar o país. Ele pára por si mesmo. Esta semana começam oficialmente as férias e há jogos às cinco da tarde. Depois vem a "fase seguinte" e, quando chegarem os Jogos Olímpicos, haverá televisão noite e dia (e vale a pena). Entretanto sairá a decisão definitiva da UEFA sobre o FC Porto e haverá mais festejos, de algum dos lados. Assim vamos.

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A editora brasileira Língua Geral acaba de publicar 'Os Brasileiros', páginas escolhidas de Eça de Queirós sobre o Brasil e os brasileiros, com organização de Eduardo Coelho e Zetho Cunha Gonçalves. E na altura não havia bossa nova.

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FRASES

"O primeiro-ministro está sem discurso. Está sem respostas." Paulo Portas, ontem no CM.

"O melhor de Obama é o que fica para trás – a história de um jovem mestiço a impor-se." No blogue O Jansenista.

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junho 06, 2008

Blog # 110

José Saramago acha que "a esquerda não tem puta ideia do que se passa no mundo" – fosse alguém de direita a dizê-lo e teríamos escândalo nacional. Na política há sempre dois pesos e duas medidas e José Saramago fala em nome de uma esquerda que não é a esquerda que não tem puta ideia do que se passa no mundo. A esquerda de Saramago sabe bem o que se passa no mundo; a que está no governo e faz comícios no Teatro da Trindade é que anda à nora. Ora, no meio disto, perguntamo-nos sobre o que se passa no mundo, e é isto: as pessoas estão apreensivas. Desprotegidas, mais pobres e entregues a líderes irrisórios ou conjunturais. Têm a sensação de viver pior do que há uma década. O problema é que não se pode andar a mudar de esquerda em esquerda até acertar na que vale a pena.

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'Venenos de Deus, Remédios do Diabo' é o novo romance de Mia Couto e leva o subtítulo de 'As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba' (Caminho) – memória africana numa história deliciosa, e a paixão entre um português e uma mulata moçambicana.

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FRASES

"Abasteçam o barco com mantimentos, vamos voltar ao mar." Mensagem sms de armador, ontem no CM.

"Finalistas e estagiários de Direito, é mandar o currículo para o FC Porto." Bruno Sena Martins, no blogue Avatares de Desejo.

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junho 05, 2008

Blog # 109

Barack Obama é, definitivamente, o candidato democrata à Casa Branca, faltando decidir se Hillary Clinton vai dispor-se a acompanhá-lo na vice-presidência, o que significaria uma certa despromoção. Para todos os efeitos, é o primeiro negro a chegar tão longe na política americana (Hillary seria a primeira mulher). Os largos meses que nos separam da eleição decisiva ditarão se se trata, ou não, de um candidato "de plástico", bom para a televisão e para a propaganda mas menos bom para a tarefa que o espera. Mas o essencial é que a América espera um novo presidente que a liberte do peso e da mediocridade gerados em torno de G.W. Bush. Desenganem-se aqueles – sobretudo na Europa – que pensam que bastará Obama dobrar a esquina para se pensar que a América a dobrou também.

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Paulo Moreiras é autor de um romance histórico bem escrito, 'A Demanda de D. Fuas Bragatela' e de um 'Elogio da Ginja' (Quid Novi). Escreveu um ensaio sobre um objecto controverso – o palito dos dentes: 'BI do Palito' (Apenas Editora).

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FRASES

"Portugal é a minha pátria, mas a Itália é agora a minha segunda equipa." José Mourinho, ontem no CM.

"Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más." Isabela, no blogue O Mundo Perfeito.

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junho 04, 2008

Blog # 108

Não sei se já repararam mas, embora pareça impossível, a selecção já chegou à Suíça. Impressionante a forma como a imprensa e a televisão ignoraram o acontecimento e nem sobre a chegada a Lausanne fizeram uma simples reportagem. Estamos aqui, no nosso rectângulo, encerrados e sem notícias do que se passa em Neuchâtel. Não sabemos o que se passa com Cristiano Ronaldo nem o estado físico e anímico dos nossos rapazes, os bravos Viriatos. Há quanto tempo não escutamos uma palavra de Scolari? O que come a selecção ao pequeno-almoço? Que sapatos calçam fora dos relvados? Como será o 'onze' ou, vá lá, o 'dez' principal? A imprensa, ocupada com inutilidades, mantém-nos na ignorância sobre factos essenciais e determinantes da nossa vida contemporânea. A imprensa dorme. Até quando?

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Leiam, leiam, leiam: 'O Herói das Mulheres', de Adolfo Bioy Casares (edição da Cavalo de Ferro). Elegância argentina, humor de Buenos Aires, um clássico indispensável e delirante – e a lembrança de Jorge Luis Borges, seu amigo.

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FRASES

"Deus não vai em futebóis, tem coisas mais importantes com que se preocupar." Alcino Fraga, padre de Neuchâtel, ontem no CM.

"Como é que se consegue ainda dizer e escrever sobre Amy Whinehouse?" Joana C. Dias, no blogue Hole Horror.

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junho 03, 2008

Blog # 107

Passam hoje sete anos sobre a morte de Manuel Hermínio Monteiro. Notar sete anos de ausência significa que ele faz falta. Que nos faz falta, aos amadores de livros. Transplantado para Lisboa, onde passou a parte mais essencial da sua vida, foi editor (na Assírio & Alvim), professor, poeta, gastrónomo, amigo de poetas e de editores, figura visível do movimento literário da época – e viajante curioso e disponível. Lembro-me de Manuel Hermínio Monteiro a cantar boleros mexicanos e imagino uma biblioteca que se transforma em salão de baile no meio da montanha entre coisas essenciais que nunca o abandonaram: árvores, serras, livros, sombras, relâmpagos, memória oral, vegetação, personagens, amigos rodopiando. Recordo-o como um destino que passou entre nós, fazendo-nos falta.

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'Quaresma Decifrador' reúne as 'novelas policiárias' escritas por Fernando Pessoa (Assírio & Alvim). Entre elas, 'Pergaminho Roubado', 'O Caso do Quarto fechado', ou 'O Roubo do Banco de Galicia'. Em alguns casos, divertimento puro.

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FRASES

"Pacheco Pereira deve apresentar-se agora como um militante exemplar." João Gonçalves, no blogue Portugal dos Pequeninos.

"Manuela Ferreira Leite prometeu falar verdade, algo que anda muito arredado da política." António Ribeiro Ferreira, ontem no CM.

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junho 02, 2008

Blog # 106

O pormenor não é de menosprezar: Manuela Ferreira Leite é a primeira mulher líder de um grande partido em Portugal. Não garantiu o lugar recorrendo à figura das "quotas para mulheres", que o governo transformou em lei mas não cumpre. Acho que isso irá contribuir para algumas mudanças qualitativas na forma de fazer política nos próximos tempos, sem diminuir o tom e a intensidade. Para quem se recorda das picardias e das piadas "entre homens da política", o "factor Manuela" é capaz de ajudar a mudar as coisas – e para melhor. Não por trazer um "ar maternal", que é o modo machista de abordar a chegada das mulheres à política, mas por ser provável que MFL dê atenção aos temas centrais da vida portuguesa com outra sensibilidade e mais atenção. Só isso já é um avanço notável.

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'Os Três Seios de Novélia', de Manuel da Silva Ramos, será reeditado em Julho, com um prefácio de Óscar Lopes (D. Quixote). Vinte anos depois de ter recebido o prémio de Novelística Almeida Garrett, o livro escândalo regressa. Boa.

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FRASES

"...Os problemas das pessoas e das famílias, sem a qual a política se torna intolerável." Manuela Ferreira Leite, ontem no CM.

"Tenho exactamente 90 molas de roupa. Estive a contá-las ontem." Isabela, no blogue O Mundo Perfeito.

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